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Estado de Minas Moda

Desvio de rota

Com a coleção desfilada no Brasil Eco Fashion, a Libertees se consagra como marca sustentável e agente de transformação social


17/01/2021 04:00

(foto: Agência fotosite/divulgação)
(foto: Agência fotosite/divulgação)


A participação no concurso Ready to Go, realizado por cinco anos no Minas Trend, foi o passaporte para que a Libertees ganhasse a atenção do mercado. O concurso, que era chancelado pelo Sindivest-MG e organizado pelo TS Studio, revelou vários talentos e ideias relevantes, como as que Daniela Queiroga e Marcella Mafra escolheram para a marca que dirigem há mais de três anos.
Com a fábrica instalada dentro do Complexo Penintenciário Estevão Pinto e uma pequena produção elaborada pelas detentas, as duas empreendedoras apresentavam um trabalho de forte impacto e transformação social na vida dessas mulheres. Até as estampas eram criadas por elas como resultado das aulas de educação artística oferecidas pelo sistema prisional e utilizadas nas peças através de uma seleção.
 
(foto: Agência fotosite/divulgação)
(foto: Agência fotosite/divulgação)
 
 
A proposta encantou o júri do Ready do Go, a Libertees ficou com o terceiro lugar na edição realizada em outubro de 2017 e, desde então, participou de todos os outros salões de negócios de moda realizados pela Fiemg. A ideia original foi mantida: as costureiras são remuneradas conforme previsto na Lei de Execução Penal (Lei 7.210/84, artigo 29), com parte do salário destinado à família, parte para pequenas despesas sociais, parte como ressarcimento ao Estado. O restante fica depositado em uma caderneta de poupança para ser usada depois que a pena for cumprida. Além disso, 5% do lucro obtido com as vendas das roupas são reinvestidos na aquisição para as aulas de arte, nas quais têm início os desenhos e cores que identificam a label.
 
Daniela Queiroga e Marcella Mafra no desfile de abertura do Minas Trend(foto: Agência fotosite/divulgação)
Daniela Queiroga e Marcella Mafra no desfile de abertura do Minas Trend (foto: Agência fotosite/divulgação)
 
 
Porém, a parte mais interessante da proposta é a ressignificação da vida das presidiárias por meio do trabalho, a oportunidade de aprender um ofício que lhes permita a reinserção na sociedade, além da conquista da autoestima. No ano passado, por exemplo, a Libertees promoveu um desfile na penitenciária, como evento integrante da programação do Mood – Festival de Moda de Belo Horizonte, no qual as detentas eram as modelos.
 
(foto: Agência fotosite/divulgação)
(foto: Agência fotosite/divulgação)
 
 
A partir da premiação no Ready to Go, a marca iniciou também uma corrida em busca de aperfeiçoamento do estilo e modelagem e do desejo crescente de se aproximar dos princípios sustentáveis da cadeia produtiva da moda. Entre eles, o design limpo e atemporal, o slow fashion materializado em coleções cápsulas, a escolha de fornecedores, a seleção de tecidos, entre outros valores que permeiam esse terreno e que culminaram na seleção para participar do Brasil Eco Fashion, realizado virtualmente em novembro, com desfiles transmitidos ao vivo no canal do YouTube.
 
(foto: Agência fotosite/divulgação)
(foto: Agência fotosite/divulgação)
 
 
Passar nessa curadoria era uma aspiração das duas sócias, uma espécie de certificado importante dentro do segmento, uma elevação de patamar. “Ficamos muito felizes em nos encaixar no evento porque ele tem um rigor muito grande nos quesitos e pontuações. Nosso trabalho ainda é muito desconhecido no Brasil e foi importante compartilhar essa plataforma de mercado que divulga o trabalho das marcas, tanto do ponto de vista de conceito quanto comercialmente, para todo o país”, afirma Daniela.
 
Significou também, como ela pontua, uma adaptação imposta pelo advento da pandemia. “Com a Covid-19, o presídio fechou as portas e o trabalho da fábrica interrompido. Tivemos que nos virar para dar conta das responsabilidades.” Como outras empresas do setor, a solução encontrada foi a confecção de máscaras, numa ação que chegou a reunir uma rede de 90 costureiras em oito municípios próximos a Belo Horizonte, com uma logística que incluiu a utilização de motoboys, vendas por whatsapp e até compras de máquinas para profissionais trabalharem.
 
(foto: Agência fotosite/divulgação)
(foto: Agência fotosite/divulgação)
 
 
Nesse ínterim, foram fabricadas 330 mil exemplares, o que permitiu que a empresa sobrevivesse até dezembro de 2020. No intermeio desse processo, nasceu também o site e e-commerce da Libertees para ampliar a possibilidade de vendas.

Mudança  A coleção Desvios, que desfilou na Brasil Eco Fashion, já tinha começado a ser formatada antes da pandemia. Segundo Daniela, ela constituiu, como o nome indica, uma mudança de rumo e, mais do que isso, o repensamento sobre o sentido de tudo: o arquivo da Libertees teve que ser revisitado e reeditado com parte do trabalho socioeducativo realizado pelas detentas anteriormente. E os prints abstratos, que fazem parte do seu DNA, foram retirados do acervo digitalizado; outros desenhos ganharam bordados em linha.
 
Com o estilo de Fábio Costa, pela primeira vez foi possível viabilizar a criação a partir de tecidos selecionados e 100% sustentáveis, como o algodão orgânico, o algodão reciclado de aparas, malhas de garrafa pet, tramas mescladas de algodão e linho, viscoses com poliamida. O momento introspectivo é revelado pelas cores exibidas em off white, ocre, pastel levemente terroso – como o da estampa chiclets, que ganhou uma reedição especial – e nos looks de alfaiataria com listras longilíneas e transversais.
 
“Queríamos algo que remetesse a conforto, que abraçasse o corpo feminino, mesmo nos lo- oks de alfaiataria em malha. Os tecidos são macios e aconchegantes e a modelagem é bem limpa, ampla, confortável, com volumes bem colocados”, explica Daniela, frisando o caráter atemporal da coleção. Novidade são as formas retorcidas elaboradas a partir do experimento da moulage e corte contínuo do tecido. Looks agêneros também tiveram espaço no trabalho do estilista Fábio Costa.
 
A coleção, segundo as duas sócias, foi também um exercício de superação – ou de regeneração – diante de uma crise tão profunda. Um mergulho na alma, como sintetiza a dupla. E ainda um avanço na questão da sustentabilidade. Com a penitenciária Estevão Pinto fechada, Daniela e Marcella estão em tratativas com a Associação de Proteção e Assistência ao Condenado (Apac)  para dar continuidade ao trabalho da Libertees a partir dos mesmos critérios estabelecidos no presídio. “É uma unidade prisional de cumprimento de pena humanizado, cujo objetivo é a recuperação e reinserção social dos condenados e a proposta combina bem com o que acreditamos.” A parceria deveria começar em fevereiro, mas devido ao recrudescimento da pandemia, talvez terá que esperar mais um pouco.
 
Enquanto isso, a marca mantém seu quartel-general no Co.Crie, coworking de moda no qual dispõe também de uma estrutura para atender à demanda do varejo. “A venda tem ocorrido também em outros pontos de venda da cidade. Estivemos hospedadas no Grande Hotel do Ronaldo Fraga e, por ocasião do Natal, participamos de uma ação de vendas na loja Atmo, em Lourdes.”


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