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Estado de Minas Artesanal

Trabalho inesperado em crochê marca nova coleção da mineira LED

O estilista Célio Dias explora babados, assimetria, mangas bufantes e peças de banho com a trama artesanal


06/09/2020 04:00 - atualizado 06/09/2020 08:34

(foto: Zé Takahashi/Divulgação)
(foto: Zé Takahashi/Divulgação)

Mesmo rodeado por incertezas sobre como produzir, quando lançar, fazer ou não desfile, Célio Dias se arriscou em um desafio durante a pandemia: desenvolver a nova coleção só com materiais que tinha em estoque. “Sou muito do toque, então não me sentia seguro de comprar algo novo a distância”, justifica o fundador da LED. Apesar de todas as restrições, ele conseguiu surpreender, levando para a passarela virtual tons mais neutros, muito crochê e tingimentos manuais. O estilista ainda recorreu ao upcycling para criar peças únicas e superespeciais.
 
O crochê despontou como protagonista da coleção Afeto. Célio sempre explorou o artesanal, mas nunca a ponto de representar metade do trabalho, como agora. Muitas peças são feitas inteiramente a mão, como os vestidos, que aparecem com babados, mangas bufantes e barras assimétricas. “Sentia falta de tentar shapes não tão convencionais no crochê.”
 
Destaque também para uma regata mais comprida e um top, que ganham movimento com babados em toda a barra. A LED se afastou ainda mais do habitual usando o crochê em peças associadas ao verão, entre elas short, maiô e a tanga, considerada pelo estilista uma das mais icônicas da temporada. A peça de banho foi desenvolvida em parceria com a marca Bannanna. Célio também fez misturas, como no caso da parka de sarja com parte das mangas e da barra na trama artesanal.
 
(foto: Zé Takahashi/Divulgação)
(foto: Zé Takahashi/Divulgação)

Como desenvolveu um volume grande de peças de crochê, o estilista decidiu testar um modelo de produção sob encomenda. “Vamos atender só sob demanda, não vamos ter produção das peças feitas a mão em escala. Não acho que a moda tem que ser exclusiva, mas neste momento é a forma como a marca pode funcionar”, explica. O cliente faz o pedido pelo site e aguarda o tempo de produção.
 
Fora os fios de crochê, a coleção passeia pelo linho, algodão, crepe de viscose e sarja de modal. Na cartela de cores, Célio deu vez ao off white, bege e preto. “A LED é uma explosão de cores e nunca tinha feito uma coleção com tons mais neutros. De fato, quis fazer esta experimentação.” O uso do vermelho também foi desafiador. O estilista sempre teve dificuldade de usar a cor, no seu próprio look e na marca, mas teve que se desprender disso para aproveitar ao máximo o estoque.
 
No garimpo, ele encontrou um tecido de viscose em metalassê que havia comprado em uma viagem a Paris e ficou guardado por muito tempo. Com um pedaço relativamente pequeno, fez um casaco xadrez com forro marrom, capuz e modelagem ampla, leve e confortável. É peça única. O detalhe está nas costas: uma ilustração da artista Thereza Nardelli, conhecida como Zangadas. Entre traços vermelhos, a palavra saudade, um dos sentimentos mais presentes na vida do estilista durante a quarentena.
 
(foto: Zé Takahashi/Divulgação)
(foto: Zé Takahashi/Divulgação)

Os tingimentos manuais entraram para colorir a coleção de um jeito diferente do esperado para a marca. Formam tie-dyes que não se repetem em calças, camisas e quimonos. Célio aproveitou o isolamento para fazer experiências de upcycling (reaproveitamento) em casa com cores e lavagens aplicadas em peças do acervo, que também estão à venda. “Se você me perguntar como cheguei na cor, não sei responder, foi praticamente superexperimento. Uma das coisas que aprendi muito neste processo foi como posso ressignificar peças que já existem.”

A distância

 
A apresentação virtual da LED faz parte do projeto “Virtual case”, do diretor de desfiles Bill Macintyre. Célio já havia começado a desenvolver a coleção quando recebeu o convite e organizou a produção a distância, da sua casa em São Paulo. Fez tudo por chamadas de vídeo. O artesão que trabalha com crochê recebeu as linhas em casa e o assistente em Belo Horizonte, onde são produzidas as peças, ficou responsável pelos cortes. O estilista só viu as roupas quando elas já estavam prontas, a uma semana do dia da gravação do desfile. “Percebi um amadurecimento do meu trabalho nesse período complexo. Foi um processo mais calmo e, quando as peças chegaram, pude fazer uma seleção cuidadosa.”
 
A equipe escolheu como passarela o corredor de um estúdio de TV e cinema na capital paulista. Seis modelos participaram do desfile, mas em momentos diferentes. Para que não se cruzassem, vestiram os looks e desfilaram sozinhos. A gravação durou 12 horas e, depois da edição final, o vídeo, com pouco mais de seis minutos, ganhou trilha sonora e takes de closes das peças e dos acessórios.
 
(foto: Zé Takahashi/Divulgação)
(foto: Zé Takahashi/Divulgação)

Célio gostou da experiência do desfile virtual, principalmente porque, dessa forma, chega a mais pessoas e todas podem “se sentar” na primeira fila. “Por mais que ame a passarela, e quero que um dia volte a sentir aquela sensação de desfilar, esse é um formato mais democrático. Acho que dialoga muito com a visão de mundo e de marca que tenho. Acredito em uma moda mais democrática e mais diversa.”
 
Além do desfile, o projeto “Virtual case” prevê o lançamento de 10 editoriais nas redes sociais e canais de vendas da marca. Fotógrafos e stylists ficaram livres para contar a história da coleção Afetiva do seu jeito. “Foi muito legal porque conseguimos uma mistura. Temos um material feito com o pessoal do passinho, ao mesmo tempo em que temos um editorial bem haute couture”, antecipa. No primeiro editorial, um fotógrafo e um arquiteto inseriram as imagens dos modelos em um cenário 3D, que reproduz o ambiente dinâmico de uma galeria de arte com obras audiovisuais.


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