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Estado de Minas ENTREVISTA/FLáVIA AUGUSTA ALBUQUERQUE/LúCIO OCTáVIO ALBUQUERQUE

A melhor herança


postado em 05/07/2020 04:00 / atualizado em 03/07/2020 15:19

(foto: Leandro Couri)
(foto: Leandro Couri)

"Sempre ouvimos histórias muito interessantes sobre minha mãe. Ela, desde pequena, era diferente. Tinha um pensamento estético e uma curiosidade e inquietação que deixavam meus avós preocupados"

Muitas pessoas podem pensar que a melhor herança que os pais podem deixar é um saldo robusto em uma conta bancária. Claro que isso é importante, mas a melhor herança que se pode deixar para os filhos é, sem dúvida nenhuma, a melhor educação. Quando os pais oferecem mais do que a educação formal, melhor ainda. Na Europa, as crianças aprendem a gostar e admirar a arte. No Brasil, isso é raro, mas Flávia e Lúcio foram privilegiados, pois tiveram como mãe uma amante das artes. Na adolescência, não entendiam muito bem por que tinham telas de artistas no quarto, em vez de pôsteres de suas bandas preferidas, mas, hoje, agradecem por toda esta vivência. A dupla assumiu há alguns anos a galeria fundada pela mãe, Celma Albuquerque, e ano passado abriu uma filial em Brasília.

Como foi a infância de vocês?
Nossa infância foi feliz e saudável. Fomos criados em uma fazenda e tínhamos a terra, o sol e as estrelas. Foi lindo. Meus pais eram muito cultos. Meu pai, Lúcio Albuquerque, era médico. Estudava muito e gostava de música clássica. Tinha uma limitação física que o impedia de praticar esportes. Perdeu as duas pernas em um acidente aos 14 anos, quando foi atropelado por um bonde, e a partir daí seus “esportes” preferidos eram livros e música. Tivemos também nosso padrasto (não falávamos esta palavra, ele era nosso pai também), Zezito. Homem íntegro, que nos ensinou o valor do trabalho. Mamãe nos deu de presente dois pais maravilhosos.

Quando sua mãe começou a trabalhar com arte?
O colecionismo sempre fez parte da vida de minha mãe. Ela colecionada tudo, antiguidade, joias antigas, objetos curiosos. No início da década de 1980, surgiu o interesse pela arte e, estudiosa que era, se aproximou do universo dos artistas e suas pesquisas. Além disso, tinha um talento nato para negócios, que acho que puxou do meu avô – ele era fazendeiro e todo fazendeiro é ótimo negociante. Duas qualidades importantes para uma galerista. Abriu a galeria em meados dos anos 1980.

Sabe o que a atraiu para esse segmento?
Acredito que tudo que falei anteriormente. Sempre ouvimos histórias muito interessantes sobre minha mãe. Ela, desde pequena, era diferente. Tinha um pensamento estético e uma curiosidade e inquietação que deixavam meus avós preocupados. Meu avô, homem simples, mas visionário, percebeu que não adiantaria segurar minha mãe e a incentivou a seguir seu próprio caminho. Deu assas para ela voar. Na biblioteca da escola onde ela estudava, foi onde tudo começou. Ela passava horas folheando os livros sobre arte.

Como e quando vocês começaram a se interessar por arte?
Lúcio e eu sempre convivemos neste universo. Nossa casa parecia um museu. Isso muitas vezes causava problemas. Os espaços iam sendo ocupados por obras e era difícil para um pré-adolescente entender por que ele tinha uma obra do Iberê Camargo no quarto e todos os seus amigos tinham o pôster da banda da época. Era muito engraçado, queríamos um pôster do Rolling Stones, questionávamos a mamãe, ela explicava, no final, valia a fala de quem mandava. Mas com o tempo fomos nos acostumando e passando a entender o porquê daquilo tudo e o quanto o convívio com a arte no ambiente familiar foi importante para nossa formação. Passei pela mesma situação com meu filho Lucas. Hoje, ele ama arte, fez curso de arte e negócios na Sotheby's, em Londres, curso de gestão em arte e cultura na European School of Economics, em Florença, e está fazendo MBA em arte contemporânea no Institut d'Études Supérieures des Arts (IESA), em Paris. Agora, está aqui no Brasil por causa da quarentena e as aulas estão sendo virtuais.

Começaram com sua mãe?
Sim! Sempre estivemos com ela. Visitávamos os ateliês e fazíamos todos os trabalhos na galeria. Não nos colocou como chefes (filhos da dona) e sim para aprender a fazer tudo dentro da galeria, desde montagens até grandes vendas. Isso fez uma grande diferença na nossa vida. Começamos bem jovens e nossa parceria já dura mais de 30 anos. Atuamos em conjunto e nossas divergências ajudam em nosso trabalho. Mantêm a galeria atuante e a empresa saudável.

O que levou sua mãe a abrir a galeria? 
Ela viajava muito a trabalho e visitava vários museus e galerias pelo mundo. Via exposições importantes que, naquela época, nunca chegariam aqui. Queria trazer grandes exposições para Belo Horizonte e isso a motivou a construir um espaço em que pudesse abrigar propostas artísticas diversificadas que pudessem ser acolhidas com as mesmas características daqueles que visitava fora do Brasil: espaços generosos com iluminação adequada. Com isso, grandes artistas fizeram instalações na galeria em uma época em que as galerias comerciais não faziam isso.

Conseguiu?
Sim, trouxemos exposições de vários artistas brasileiros importantes, como Antônio Dias, Nelson Félix, Waltercio Caldas, Nelson Leiner. As instalações eram gigantescas e não cabiam em nenhuma outra galeria existente. Estamos falando de uma época antes da criação do Museu de Inhotim.

Quando assumiram a frente da galeria?
No final dos anos 1990, passamos por duas tragédias em um curto espaço de tempo na família. A morte da minha irmã mais nova e do meu padrasto. Não sei como minha mãe conseguiu se recuperar.  Ela se afastou de tudo, quis voltar a ter uma vida mais perto da natureza. A partir daí assumimos a direção da galeria, tentando colocar em prática tudo o que ela havia nos ensinado.

Como foi essa transição?
No início foi bem assustador. O Lúcio e eu nos vimos em um ambiente criado pela nossa mãe, onde a presença dela era muito importante. A responsabilidade era enorme. Mas com o tempo começamos a andar com as próprias pernas e a galeria passou a ter um pouco de cada um de nós.

Como é viver da arte e para a arte?
Não me vejo fazendo outra coisa. Arte é minha vida. Posso dizer que meu irmão sente o mesmo.

Como descobrem novos artistas? 
Todo mundo me pergunta isso. E eu sempre respondo “no Tinder”. Deixando a brincadeira de lado, acredito que é dever da galeria investir na carreira de jovens artistas e na formação de novas coleções. Esse trabalho é feito por nós com muito cuidado, carinho e respeito. Às vezes, alguém indica um artista e vamos conhecer o trabalho dele; outras vezes, o próprio artista nos procura na galeria. Vou citar meus dois artistas mais jovens: Efe Godoy e Jade Marra. A Jade foi colega do meu filho na Fundação Torino, ele viu o trabalho dela, achou interessante e falou comigo. Fui ver e vi todo o potencial que ela tem. Gosto de me envolver de corpo e alma em suas pesquisas e em suas vidas. Muito difícil separar uma coisa da outra. Eles têm um canal direto comigo em qualquer hora do dia ou da noite.

Só trabalham com arte contemporânea? Por quê?
Nossa mãe trabalhava com arte moderna, ela tinha um acervo enorme, maravilhoso. Não fizemos uma ruptura, mas uma transição para a arte contemporânea. A escolha em trabalhar com arte contemporânea é um dos passos a que me referi anteriormente sobre a galeria ser mais próxima da nossa geração. Criamos um time de artistas, um calendário regular de exposições e os levamos para feiras nacionais e internacionais. Gostamos de ter arte de artistas vivos.

Abriram galeria em Brasília. O que levou a isso? Como foi esse processo?
Acredito que aconteceu durante a “crise dos 50”. O Lúcio e eu começamos a nos questionar. E agora? Continuamos neste lugar de conforto ou damos um outro passo? Foi aí que surgiu a ideia de uma outra galeria e começaram as conversas calorosas, como pode imaginar. Eu querendo uma galeria fora do país e o Lúcio batendo o pé que deveria ser em Brasília. Ele acabou me convencendo e hoje acredito que foi a melhor escolha. Lá podemos fazer a diferença.

Qual o impacto da pandemia sobre o seu negócio?
A pandemia gerou em um primeiro momento uma preocupação voltada para o bem-estar de nós mesmos e do outro. Depois veio a necessidade de nos mantermos isolados e ao mesmo tempo manter nosso negócio. Foi e está sendo muito difícil. Mas, em contrapartida, esse isolamento gera uma inquietação e surgem projetos incríveis. Alguns serão realizados agora e outros em momentos mais oportunos para que aconteçam.

Quais projetos?
Quando estávamos no processo de abrir a galeria em Brasília, as pessoas observaram que eu era uma galerista que trabalhava muito com mulheres. Isso me chamou a atenção. Acho que nunca percebi esse fato. E mesmo antes de chamarem minha atenção para este detalhe, já tínhamos escolhido a exposição de inauguração: duas mulheres que trabalham muito com a natureza, Cláudia Jaguaribe e Mariannita Luzzati. Infelizmente, a mostra ficou aberta apenas uma semana em Brasília, e teve que fechar por causa da pandemia. Agora, estamos trazendo essa exposição para a galeria de Belo Horizonte. Já está tudo pronto, aguardando a liberação da prefeitura. Mesmo assim, não faremos vernissage, abriremos agenda para marcação de horário de visitação para pequenos grupos de até cinco pessoas. Os outros projetos ainda estão em formatação. 

Como estão conseguindo driblar esta crise?
Sempre tivemos os pés no chão. Contamos também com uma equipe maravilhosa. Todos estão trabalhando de casa, atendendo às demandas pelo Instagram e WhatsApp.

Quais os planos para quando voltar a funcionar?
O acolhimento caloroso sempre esteve no nosso DNA. Então, tudo que mais queremos é poder voltar a receber nossos amigos e clientes para um cafezinho e uma boa conversa. No entanto, sabemos que esse momento é muito delicado e tomaremos todas as medidas de segurança para acolher nossos visitantes.


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