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Estado de Minas PARA QUANDO O VERÃO CHEGAR

Artistas criam coleção solidária de cangas de praia

Profissionais de várias áreas criativas se transportam para o paraíso onde queriam estar através de estampas coloridas


postado em 26/04/2020 10:15 / atualizado em 26/04/2020 11:00

A expectativa de Lucas Magalhães é vender mil cangas do projeto(foto: Sérgio Caddah/Divulgação)
A expectativa de Lucas Magalhães é vender mil cangas do projeto (foto: Sérgio Caddah/Divulgação)


Se pudesse estar agora em outro lugar, onde e como seria? A pergunta inspirou artistas a criarem estampas para uma coleção solidária de cangas. Idealizado por Lucas Magalhães, o projeto “Everything's gonna be alright” surge como um respiro nestes tempos de isolamento. “A proposta é tentar passar para as pessoas um sentimento de futuro e esperança. Logo, logo vamos poder usar as cangas na praia ou dependurá-las na parede para ficar um pouco mais feliz.” Além disso, segundo o estilista, esta é uma forma de apoiar produtores locais, gerar renda para costureiras e apoiar uma causa social.
 
Vamos Fugir? Celso Bastos (designer gráfico)(foto: Sweet Bahia Cangas/Divulgação)
Vamos Fugir? Celso Bastos (designer gráfico) (foto: Sweet Bahia Cangas/Divulgação)
 
 
Antes de explicar o projeto, vamos recapitular a trajetória de Lucas. O estilista morou em São Paulo por alguns anos e sua marca chegou a fazer parte do Grupo Nohda, junto com Patrícia Bonaldi, PatBo e Apartamento 03. De volta a BH, ele estava disposto a fazer diferente. Focou no trabalho como consultor de estilo e abandonou o calendário de lançamentos. “A Lucas Magalhães virou uma marca de produtos pontuais, o que me dava vontade de fazer no momento, algo bem livre e solto.”
 
No fim do ano passado, o estilista lançou a primeira coleção de cangas. “Era um ensaio para uma nova possível vida, mais calma. Já estava indo demais para a Bahia e descobri uma amor pela praia”, conta. Com produção rápida e descomplicada, o projeto funcionou bem. As cangas se espalharam por lojas em várias cidades baianas, como Caraíva, Trancoso, Salvador e Ilhéus, carregando uma característica forte do seu trabalho: a estamparia (Lucas também é reconhecido pelo tricô). O plano era lançar novidades sempre no verão, o que não atrapalharia as consultorias, que eram o foco.
 
Paradise and Honey Albino Papa (designer gráfico)(foto: Sweet Bahia Cangas/Divulgação)
Paradise and Honey Albino Papa (designer gráfico) (foto: Sweet Bahia Cangas/Divulgação)
 
Até que chegou o coronavírus. Lucas começou a perceber o impacto do isolamento para os freelancers da moda (como ele), projetos e contratos haviam sido cancelados, e rapidamente surgiu a ideia de desenvolver uma coleção coletiva de cangas. No fim, o estilista ampliou os horizontes e incluiu profissionais de várias áreas criativas, entre designer gráfico, artista plástico, cantor, confeiteiro, maquiadora e cabeleireira, a maioria de BH. No total, são 21 artistas e 25 estampas, que traduzem em traços e cores o tema “O paraíso onde eu queria estar”.
 
Lucas desenvolveu duas estampas para o projeto, ambas com o mesmo nome: Florescer em direção ao sol. “Neste tempo em casa, fiquei reparando nas plantas e fiz um paralelo com o meu direcionamento para perto do sol, pois estou o tempo todo perto da janela. Gosto da minha casa, mas quero olhar ali fora, estou com vontade de sair”, explica. Enquanto uma estampa exibe uma costela-de-adão verde em fundo rosa claro, na outra tem antúrios riscados em preto constrastando com laranja e azul.
 
Vento Gui Poulain (confeiteiro)(foto: Sweet Bahia Cangas/Divulgação)
Vento Gui Poulain (confeiteiro) (foto: Sweet Bahia Cangas/Divulgação)

TODOS EM CASA Mais uma vez, a canga se torna uma alternativa interessante por ser de fácil produção. Os artistas criaram livremente as estampas em casa e encaminharam a versão já digitalizada, que seguiu para a impressão em tecido. “Todas as costureiras, que são minhas parceiras, recebem em casa as cangas para serem finalizadas”, informa. Com 1,40m x 1,10m, as cangas são 100% de viscose e custam R$ 149. Inicialmente, foram disponibilizadas 40 unidades por modelo, totalizando mil.
 
Num segundo momento, o próprio Lucas vai embalar e despachar os pedidos pelo correio numa embalagem de algodão (nada de plástico). A expectativa é começar as entregas a partir de 15 de maio.

Paraíso de Dante Renata Vilela (maquiadora e cabeleireira)(foto: Sweet Bahia Cangas/Divulgação)
Paraíso de Dante Renata Vilela (maquiadora e cabeleireira) (foto: Sweet Bahia Cangas/Divulgação)

 
Além de gerar renda para artistas e costureiras, o projeto une forças para apoiar a iniciativa Espalhe Cestas, que arrecada dinheiro para comprar e distribuir alimentos, produtos de higiene pessoal e limpeza e livros em comunidades vulneráveis da Grande BH. A cada canga, são doados R$ 10, ou seja, o valor pode chegar a R$ 10 mil. “Sentir parte de um movimento de ajuda à humanidade está me fazendo muito bem. Ao mesmo tempo, funciona como um respiro para deixar a cabeça ativa, já que o trabalho de consultoria está totalmente parado”, analisa.

Onde a gente mora Fernanda Jacques (artista visual)(foto: Sweet Bahia Cangas/Divulgação)
Onde a gente mora Fernanda Jacques (artista visual) (foto: Sweet Bahia Cangas/Divulgação)

Artistas falam sobre as estampas

Para onde?
Celso Bastos (designer gráfico)
Conhecido pelo trabalho de colagens, Celso Bastos usou recortes de revistas antigas, tesoura, estilete, régua e durex colorido para fazer a estampa de nome Vamos Fugir?. "Coloquei uma interrogação porque não sei se quero estar em uma praia, num sítio ou na rua. Acho que este momento ainda é muito incerto e estamos meio perdidos. Queremos fugir, mas não sabemos para onde, quando ou como", aponta o designer gráfico, que comanda a marca de colagens Delírios de Telma.

As imagens foram retiradas de um extenso acervo de revistas. Em um fundo de caderno pautado, várias figuras se sobrepõem: uma mulher, um homem, um tigre, uma luminária, um carro e prédios. Destaque para a placa do carro, onde está escrito Paradise lost (Paraíso perdido), que se conecta com o cenário de incertezas descrito por Celso. Laranja, azul e vermelho, originais das imagens, predominam. "Entra um trabalho estético de selecionar as imagens e, no fim, tenho uma cartela de cores pensada."

Cor nunca é demais
Albino Papa (designer gráfico)

Quando começou a pensar sobre o seu "paraíso", Albino Papa, designer gráfico que trabalha para o mercado da moda, se lembrou de um desenho de seis anos atrás. Naquela época, o objetivo era representar um cenário festivo de um editorial de moda. "Tenho uma visão muito otimista das coisas e esta ilustração da boca com o mel, a abelha e as cerejas reúne tudo o que eu gosto. A minha visão de paraíso tem comida, cores e exuberância", justifica.

Mostrando em close a boca de uma mulher, a estampa de Albino, de nome Paradise and Honey, mistura vários tons vibrantes, como amarelo, vermelho, rosa e verde. Para o designer, cor nunca é demais, desde que você saiba combiná-las. "Tenho uma certa facilidade para lidar com muita informação de cores ao mesmo tempo. Não tenho medo de usar, de achar que pode ser um exagero. Trazendo isso para o que estamos vivendo hoje, por que não colorir um pouco estes dias monocromáticos", questiona.

Pássaros voando
Gui Poulain (confeiteiro)

O confeiteiro Gui Poulain está acostumado a fazer ilustrações (ele é formado em design gráfico), mas nunca tinha estampado em tecido. Neste primeiro trabalho para a moda, a inspiração vem da liberdade dos pássaros. "Amo a mobilidade e adaptabilidade deles, de voarem para outro lugar no inverno em busca de conforto. Estamos num período desconfortável, fechados e sem muitas possibilidades. Com a criação, podemos alçar voo de alguma forma e nos sentir mais confortáveis."

Com bico e patas verdes, os pássaros brancos se repetem em toda a lateral da canga com fundo rosa claro, cor escolhida para levar aconchego. "Como queria que formasse um padrão, desenhei o pássaro para caber dentro de um quadrado imaginário. Essa figura remete à sensação de estarmos presos, mas ao mesmo tempo inspira liberdade", comenta. No centro da canga destaca-se uma frase do confeiteiro que reforça a ideia de liberdade: Junto ao vento / eu vou / eu voo.

Inocência de um bebê
Renata Vilela (maquiadora e cabeleireira)


O universo da beleza está representado pela maquiadora e cabeleireira Renata Vilela, que criou uma estampa com o marido, o artista plástico Yago Blanc. Batizada de Paraíso de Dante, ela carrega o nome do filho do casal, de cinco meses. "Pensamos o paraíso com um lugar de inocência, a inocência de um bebê que não tem noção nenhuma do que está acontecendo e não precisa se preocupar com nada", explica Renata, que aproveitou a oportunidade para canalizar criatividade parada em casa.

O desenho é baseado em um modelo arcaico de sistema solar retratado na obra do italiano Dante Alighieri (mais uma justificativa para o nome), por isso tem um enorme círculo amarelo que representa o sol e outros círculos menores alinhados, em referência aos planetas em órbita. Para fugir da ideia de universo escuro e pesado, o casal escolheu um tom de rosa claro como fundo. "A combinação de cores tem muito a ver com o meu universo, como uma cor pode valorizar a outra", observa.

Natureza em aquarela
Fernanda Jacques (artista visual)


O paraíso de Fernanda Jacques ilustra os contrastes com que ela lida nesta quarentena. A artista visual fundadora da casa-ateliê Azeitona Ócio e Arte, que é arquiteta de formação, queria estar ao ar livre para ver o céu. Ao mesmo tempo, vive um momento de introspecção e tem gostado do isolamento social. “Então, me lembrei de uma cachoeira em Bocaina de Minas, na Serra da Mantiqueira. A natureza ali é exuberante, na transição para a mata atlântica, tem muita água e algumas cachoeiras são bem isoladas.”

A artista usou a canga como uma tela. Para criar a estampa Onde a gente mora, ela pintou uma aquarela que representa os elementos verdes da natureza e o azul do céu e da água. “O preto foi usado para representação da rochas em formas geométricas, em contraponto às formas orgânicas da aquarela”, acrescenta. Fernanda, também conhecida como Fepa Jax, já tinha feito outro trabalho de moda: desenhos à mão em batas da estilista Valéria Mansur.



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