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Estado de Minas LIVRO

Tecendo histórias

Interessada em compartilhar conhecimentos sobre costura, mineira de 90 anos lança livro em que ensina técnicas, entre básicas e difíceis, e relembra momentos marcantes da vida


postado em 23/02/2020 04:00

O cesto com lãs, linhas, agulhas, tesoura, caneta e bloco de anotações é uma companhia para todas as horas(foto: Karla Rosa e João Paulo Malheiros/Divulgação)
O cesto com lãs, linhas, agulhas, tesoura, caneta e bloco de anotações é uma companhia para todas as horas (foto: Karla Rosa e João Paulo Malheiros/Divulgação)


“Trabalhos manuais são úteis para conservar a mente ativa. Até hoje tenho uma cabeça boa e me interesso pelo novo, pelo aprendizado.” O conselho vem de uma senhora que é exemplo de vitalidade. Aos 90 anos, Anita Guimarães lançou um livro. Seguindo a linha ensina técnicas de costura e, ao mesmo tempo, conta a história desta mineira que é guiada pela curiosidade, faz pesquisas pela internet e ainda enxerga o mundo com os olhos de aprendiz.
 
O nome do livro diz muito sobre a vida e a personalidade da autora. Anita é uma mulher curiosa e obstinada, que desde pequena se interessou por linhas e agulhas e até hoje não descansa enquanto não descobre como é feita uma peça que chamou sua atenção. Com um olhar observador, ela vai seguindo a linha até entender como os pontos se entrelaçam.
 
Anita Guimarães se encantou pela costura por volta dos sete anos, quando viu a mãe e a tia tecendo um tapete(foto: Karla Rosa e João Paulo Malheiros/Divulgação)
Anita Guimarães se encantou pela costura por volta dos sete anos, quando viu a mãe e a tia tecendo um tapete (foto: Karla Rosa e João Paulo Malheiros/Divulgação)
 
 
Anita se diverte ao relembrar o dia em que perdeu o ponto onde desceria do ônibus distraída com a gola de uma blusa. “Vi a renda na gola da blusa da pessoa na minha frente na lotação e fiquei observando como fazia. Aí passei do ponto e tive que descer longe de casa”, conta. Na igreja, ela ficava a missa inteira reparando a roupa do padre, diz que não consegue se controlar.
 
O nome do livro também faz referência à história da família. Por causa do trabalho do pai, Octávio, que era ferroviário, Anita se mudou várias vezes de cidade. Ou seja, por muito tempo ela “seguiu” a linha do trem, de mala e cuia.
 
No livro, são ensinadas várias técnicas, entre elas o meio ponto alto de crochê(foto: Karla Rosa e João Paulo Malheiros/Divulgação)
No livro, são ensinadas várias técnicas, entre elas o meio ponto alto de crochê (foto: Karla Rosa e João Paulo Malheiros/Divulgação)
 
 
Muito do que a autora sabe sobre costura aprendeu com a mãe. Jupyra, descendente de alemães, dona de casa, criava sete filhos e ainda tinha tempo para os trabalhos manuais. Em cada cidade, ela gostava de aprender uma nova técnica. Costurar era uma atividade constante, até porque todas as roupas dos filhos eram feitas em casa, desde os uniformes de colégio até a roupa de anjo, com asa e tudo, para coroar. “Lembro-me da paciência que a minha mãe tinha de ensinar, a persistência de desmanchar e retornar o trabalho. Ela era muito caprichosa”, conta.
 
Anita cresceu vendo a mãe costurar em casa e sempre demonstrou interesse em aprender. Em uma das lembranças mais antigas, por volta dos 7 anos, lá estavam Jupyra e a tia Yara na sala tecendo um tapete oval de crochê. E a menina observava como o fio saía do novelo e chegava à peça. “Encantei-me com essa mágica da agulha que puxa o fio, formando um bonito desenho”, ela relata no livro.
 
Toalha feita com crochê filet(foto: Karla Rosa e João Paulo Malheiros/Divulgação)
Toalha feita com crochê filet (foto: Karla Rosa e João Paulo Malheiros/Divulgação)
 
 
Não demorou para a observadora criança colocar a mão na massa. Um dia, Anita resolveu jogar bola com os irmãos e primos depois da missa. Certos de que a menina não daria conta de aprender a jogar futebol, eles a escalaram como goleira. Em uma das jogadas, Anita teve que atravessar uma cerca com arame farpado para buscar a bola e acabou rasgando sua saia. “Cheguei em casa e contei toda sem graça para a minha mãe. Ela disse: ‘Não tem problema, vou te ensinar a costurar’. Achei muito bom, porque, além de ficar com a roupa costurada, gostei do carinho dela de não ter me advertido rispidamente.”
 
E Anita não parou mais de costurar. Treinou primeiro com palitos de dente, depois partiu para as agulhas. Até sabe mexer em máquina, mas prefere tecer com as mãos. Como não havia cursos naquela época, ela aprendia as técnicas com as mulheres da família. Tia Jovelina apresentou o filé e sua bicicleta ficou conhecida na cidade. “Tirei o para-lama da bicicleta e resolvi fazer uma proteção com filé para colocar no lugar. Pronto, a saia não enroscava mais na roda.”
 
Pensando nos netos, a aposentada criou uma rede de crochê para colocar bola(foto: Karla Rosa e João Paulo Malheiros/Divulgação)
Pensando nos netos, a aposentada criou uma rede de crochê para colocar bola (foto: Karla Rosa e João Paulo Malheiros/Divulgação)
 
 
O livro é organizado pelo grau de dificuldade das técnicas. Começa pelos trançados (muitos ela aprendeu com a filha Dione, que já foi professora de trabalhos manuais numa escola que segue a pedagogia Waldorf). Todos são simples, só precisa de linha e dedos. Depois vem tricô, crochê, bordado, macramê, nhanduti (renda que também recebe o nome de teia de aranha), filé e por fim crochê de grampo. Questionada sobre sua técnica favorita, ela não se compromete: “Para dizer a verdade, gosto de tudo”.
 
Anita não se limitou ao que aprendeu, ela também gosta de inventar peças. Já fez para os netos, por exemplo, uma rede de crochê para colocar bola. “Percebia que, quando eles iam brincar, a bola caía. Fiz para evitar que ela caísse”, explica.
 
Organizado por grau de dificuldade, o livro começa pelos trançados, também conhecidos como crochê de dedo(foto: Karla Rosa e João Paulo Malheiros/Divulgação)
Organizado por grau de dificuldade, o livro começa pelos trançados, também conhecidos como crochê de dedo (foto: Karla Rosa e João Paulo Malheiros/Divulgação)
 
 
O livro é uma forma de compartilhar seu conhecimento com mais pessoas além dos seis filhos e nove netos. Acredite, ela também publica tutoriais no Instagram. Anita considera a tecnologia incrível, tanto que tem tablet, conversa com amigos e a família pelo WhatsApp e faz pesquisas na internet. “Lido bem com a tecnologia, na medida do possível, de acordo com o que a minha cabeça antiga entende e guarda”, avisa a autora, que trabalhou como professora primária e secretária.

INTERNET Se tem alguma dúvida, ela vai buscar na internet, e diz que aprende muita coisa virtualmente. Outro dia, Anita foi pesquisar sobre frivolité (renda confeccionada com uma ferramenta chamada navete, muito usada em gola e paninhos). “Fiquei surpresa ao descobrir que existe uma técnica nova muito mais fácil, com agulha maior e mais grossa. Você não precisa enrolar a linha na navete, ela já vem do novelo”, explica, já disposta a experimentar.
 
Costura para Anita é um passatempo e uma forma de presentear as pessoas. Ela já perdeu a conta de quantos sapatinhos de tricô fez para doar às maternidades. “Agora não acho lã que gosto, não esquentam.” Por isso, se inspirou em uma ideia que viu na internet para costurar colchas e mantas com sobras de lã de crochê. O plano é reunir um grupo de senhoras para ajudá-la nesta tarefa solidária.
 
Anita defende que o trabalho com linhas e agulhas desenvolve habilidades que são muito importantes na vida, como interesse em aprender, paciência e persistência. “Por vezes, tenho a sensação de que os tipos de trabalhos manuais não têm fim, o que reforça essa minha persistência na busca de conhecê-los”, revela no livro. Além disso, traz várias recompensas. Viúva há seis anos, a aposentada costura tantas peças que nem tem tempo de se sentir sozi nha.


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