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Estado de Minas ENTREVISTA/PAULO PEREIRA - 59 ANOS, CONSULTOR DE MODA

desejo realizado

Com muita dificuldade, mineiro persegue sonho de criança para sustentar a família


postado em 16/02/2020 04:00 / atualizado em 13/02/2020 15:01

(foto: arquivo pessoal)
(foto: arquivo pessoal)

Quem conheceu Paulo Pereira ainda menino não imaginaria que ele chegaria aonde chegou. Nascido em Governador Valadares, veio para a capital aos dois anos de idade com sua família. Pertencia à classe média, normal, com acesso às coisas que os pais podiam dar, mas desde criança sempre teve um sonho: morar em Paris. Hoje, é dos brasileiros mais conhecidos na Cidade Luz, com um trabalho diferenciado, e já foi chamado de “embaixador” dos brasileiros. Pelo menos para o setor da moda, provavelmente é.
 
Teve uma infância normal?
Sim, vivíamos de forma normal, classe média. Tinha acesso a todas as coisas que meus pais podiam me dar. Éramos felizes. Sempre viajávamos nas férias, ou para o Circuito das Águas ou para o Rio de Janeiro.

O que gostava de fazer?
Adorava usar os sapatos da minha mãe, ela quase me matava, não porque estava usando suas coisas, mas porque estragava os sapatos. Como meu pé era menor e os sapatos eram de salto, corria o risco de quebrar a alma do sapato e ele perder a estabilidade. Mas eu era uma criança calma. Ficava fascinado em ver minha mãe se arrumar para as festas. Aquele ritual de cabeleireiro, o vestido sobre a cama, as joias separadas, o calçado. Tudo pronto para se transformar naquela mulher linda. Por sinal, ela sempre foi maravilhosa, lindíssima, divina.
 

"Vou a todos os desfiles das grifes. Fiz um contrato com a Edith Guerin, que representa Balmain, Gaultier, Azzaro e Charles Jourdan, que voltou com tudo agora"

 

Fez faculdade? Qual?
Prestei vestibular para arquitetura, mas não passei, e não fiz outro, porque meu pai não teve mais condições de cuidar da casa e tive que assumir a família. Somos cinco irmãos, eu sou o segundo, tenho um irmão mais velho e três mulheres abaixo de mim. Graças a Deus consegui honrar essa tarefa até hoje.

Onde foi trabalhar?
Meu primeiro emprego foi na Mesbla, como aprovador de crédito. Tinha uma coisa maravilhosa, aprovava crédito para todo mundo que precisava, morria de dó das pessoas. Fiquei lá uns cinco anos, mas acho que descobriram que dava crédito para quem não tinha condições, então saí. De lá fui trabalhar no BH Shopping, na mesma área.

Como começou seu interesse por moda?
Trabalhava na Mesbla 12 horas por dia para ter dinheiro e poder comprar as revistas Vogue e Interview, que eram caríssimas. Minha mãe questionava por que eu gastava tanto dinheiro assim com revista de moda e eu respondia na maior convicção que comprava porque um dia iria morar em Paris. Minha mãe queria que eu fosse médico ou engenheiro. Como não fui nada disso, ela passou a sonhar em eu ser funcionário público. Fiz concurso para a Cemig e passei. Na mesma semana, um amigo, estilista de uma fábrica de malha, me chamou para trabalhar no comercial da empresa. Fiquei no maior dilema, sem saber se ia ou se realizava o sonho da minha mãe. Fui fazer a entrevista com meu futuro chefe na Cemig. Era um homem de uns 50 anos – naquela época era um senhor –, mais envelhecido e com rosto entristecido. Decidi me abrir com ele e disse que não sabia o que fazer. Que na Cemig realizaria o sonho da minha mãe, mas que tinha outra oportunidade de emprego que me faria mais feliz. Ele simplesmente me respondeu: “Quando tiver a minha idade, quer ser igual a mim?”. Saí de lá na mesma hora, fui para a fábrica de malhas para ser caixeiro- viajante. Cheguei em casa com três malas cheias de roupas para correr o interior.

E sua mãe?
Ela quase morreu, mas quando abri as malas e ela viu as roupas, me ajudou a vender e decidiu não lutar contra o destino. Não existe nada igual a mãe. Nada se compara a uma mãe e ao amor que elas têm pelos filhos. É maravilhoso.

Foi aí que descobriu sua vocação?
Vi que o comércio de moda era a minha veia profissional. Depois que adquiri experiência, abri um showroom de marcas mineiras. Depois de um tempo fui trabalhar na Condotti, com a Tânia Fagundes. Ela me ensinou muito. Nos amávamos. Senti muito sua partida. Esse trabalho foi uma parceria muito bacana, nos anos 1980, crescemos muito. Éramos mais preocupados em deixar a mulher glamourosa e feliz com o que usava do que em vender. Essa era a grande diferença. Fiquei oito anos com ela, mas queria fazer outra coisa.

O que o inquietava?
Sem desmerecer o trabalho, mas queria mais. Tinha medo de envelhecer como gerente de loja. Não menosprezo essa função, por sinal, valorizo-a muito, aprendi demais como gerente, mas queria mais. Fui para São Paulo e abri um showroom com marcas mineiras e cashemere importados. Atuei por cinco anos nessa área.

Conseguiu ter sucesso em São Paulo?
Temos sorte e privilégio de ser mineiros. Nossa simpatia e falta de pretensão no comportamento conquistam as pessoas e abrem portas. Mineiro sabe escutar o outro, e isso no comércio é extremamente apreciável. Fui bem recebido e me saí muito bem, mas com as crises financeiras do Brasil não deu mais.

E o que você fez depois que fechou o showroom?
Teve um ponto que foi decisivo. Uma amiga estava indo para Paris, de viagem, e me chamou para ir junto como companhia, porque o marido não podia ir. Eu não estava muito convencido, porque não tinha dinheiro para ir, mas aí ela falou uma coisa que foi mágica: “Se você vier comigo vou te apresentar os atacados e as pronta-entregas de Paris e você vai ficar enlouquecido”. Me virei, consegui o dinheiro e fui com ela para Paris. Foi tiro e queda.

Seu sonho de infância se realizava. Como foi pousar em Paris?
Primeiro, fiquei alucinado de estar em Paris, era um sonho de criança, mas para mim sempre foi um sonho impossível de realizar. Depois, curti cada segundo naquela cidade e aprendi e guardei tudo o que ela me mostrou. Voltei de Paris, contatei uma amiga que era representante aqui, e passamos a fazer grupos de três pessoas para levar para fazer compras e pesquisas lá. Era um vaivém constante.

Você falava francês?
Nem francês e nem inglês. Comunicava no sorriso e na boa vontade. Os franceses viam o esforço que eu fazia e o fato de estar lutando para levar dinheiro para eles também influenciava, e faziam esforço para me compreender. Com essas viagens me capitalizei. Conheci um francês de origem russa, chamado Dimitri, que se apaixonou por mim – acho que foi de tanta promessa que fiz para Santo Antônio –, e me chamou para morar com ele. Antes de ele acabar a frase já estava com a mala na porta da sua casa.

Como foi largar mãe e família?
Foi superduro, porque ninguém da minha família nunca saiu de perto da mamãe. Mas eu tinha uma meta, um sonho e sabia que poderia ajudar muito mais estando lá fora. Sofri muito com a solidão e a saudade, porque o romance com o Dimitri durou apenas dois meses. Ligava de orelhão na maior dificuldade; afinal, isso foi há 23 anos. Mas sabia que tinha um trabalho a fazer em Paris. Sempre me senti muito bem lá, confortável. As possibilidades de trabalho eram grandes e boas, tinha muito a oferecer às clientes e lojistas e corri atrás disso.

Como se preparou?
Fiz mais pesquisas e consegui montar uma estrutura boa. Queria dar conforto, segurança e confiança para qualquer tipo de cliente. Tenho motoristas que falam português, concierge que aluga apartamento para clientes, guia oficial para fazer museus e castelos e eu nas tendências, shoppings e desfiles.
 
Foi muito difícil no começo?
Em Paris, as pessoas dão muito valor a quem se esforça. Tive que aprender francês e os códigos da cidade, o comportamento e a conduta de educação, e aprender o meu lugar. Em alguns lugares tem placas escritas assim: “Sem bonjour $5, com bonjour, $3”. Eles gostam de educação e polidez. É importante para quem mora fora enfrentar as dificuldades, por que elas existem. Nunca pensei em voltar por causa delas. Transformei cada uma delas em desafio. Tinha que vencê-los.

Quais as maiores dificuldades que enfrentou?
A pior delas foi a solidão, somada ao fato de não falar o idioma, mas uma amiga que tinha uma escola de idiomas começou a me dar aula particular. Tive muita sorte, porque sempre tive pessoas e amigos maravilhosos do meu lado, graças a Deus. Outras dificuldades foram com clientes que pediam coisas inusitadas ou que eu não sabia onde encontrar. Tenho que receber o cliente da melhor forma possível e achar o que ele quer comprar ou ver. Tive uma cliente que em determinada hora do dia falou que estava morrendo de fome e queria arroz e feijão. Não servia outra coisa. Custei, mas consegui com um restaurante brasileiro fora de Paris e o motorista a levou. Mas até achar, foi uma luta.

Hoje você tem um serviço diferenciado
Consegui fazer uma rede com as marcas francesas, inclusive as de luxo. Vou a todos os desfiles das grifes. Fiz um contrato com a Edith Guerin, que representa Balmain, Gaultier, Azzaro e Charles Jourdan, que voltou com tudo agora. Sou representante dela para a América Latina. Com toda essa estrutura, ganhei o apelido no Rio de Janeiro de embaixador informal dos brasileiros em Paris. Hoje, além de consultoria fashion, faço grupos (o próximo será com o João Braga) entre 8 e 12 mulheres que querem conhecer a cidade de uma forma mais privilegiada. As lojas dão atendimento especial pela diretora VIP, levamos a exposições, fazemos almoços com palestras sobre a moda internacional. O próximo será em setembro.

Vem sempre ao Brasil?
Sempre procurei vir uma vez por ano, mas fiquei quatro anos – de 2013 a 2017 – sem vir. Hoje, tenho cidadania francesa, foi um dos grandes momentos da minha vida. Para conseguir, trabalhei muito, abri uma empresa de agente comercial, pago impostos. Moro no mesmo endereço. Isso fez com que conseguisse um visto de 10 anos, e antes de vencer pedi a minha cidadania e consegui. O processo demorou um ano e oito meses. Tive que fazer vários testes, prova de francês e da história da França, sabendo inclusive nome dos presidentes do país. Tudo para saber se realmente conhecemos a França, se nos interessamos de fato e merecemos fazer parte deles.

Como se sente vendo tudo o  passou e aonde chegou?
Feliz. Quando paro e vejo a minha trajetória lembro-me de toda a luta que tive. Os franceses ficam impressionados com o meu percurso. Mas foi uma coisa inconsciente, minha intuição foi me levando. Outro dia, uma jornalista me contou que a Sônia Gonçalves perguntou se ela me conhecia, e disse que eu era o brasileiro mais importante de Paris. Claro que é um exagero, credito isso à coluna semanal que tenho no Lacerda, onde falo de moda, comportamento, life style. Mas é gratificante ouvir isso.

Algum dia pensou em voltar para o Brasil?
Só teve uma vez que pensei em voltar para o Brasil, quando mataram aquelas pessoas no Bataclan. Foi apavorante demais, aquele atentado foi uma coisa horrorosa. Paris ficou triste e cabisbaixa mais de um mês. 


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