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Estado de Minas PALESTRA

Novos tempos

Após fechamento da Clements Ribeiro, o estilista mineiro Inácio Ribeiro se reinventa para trabalhar no mercado internacional de marcas de luxo


postado em 01/12/2019 04:00

Inácio Ribeiro(foto: Cristina Motta/Divulgação)
Inácio Ribeiro (foto: Cristina Motta/Divulgação)


Inácio Ribeiro passou por Belo Horizonte para fazer uma palestra no Mood – Festival de Moda de Belo Horizonte sobre sua trajetória pessoal e as perspectivas do mercado internacional. Longe do Brasil há quase 30 anos, quando trocou Belo Horizonte por Londres para estudar na Central Saint Martins, o mineiro se tornou referência de carreira bem-sucedida no exterior, protagonizou momentos importantes na cena fashion lá de fora e continua atuante na área da moda.
 
Entre as novidades dessa visita à terra natal, o estilista prometeu doar a sua coleção de formatura para o Mumo – Museu da Moda de Belo Horizonte. Papaulo, como é conhecido entre nós, contou também que o V&A – Victoria and Albert Museum, um dos maiores e mais visitados de Londres, se interessou em receber o acervo da Clements Ribeiro, label londrina que ele e a mulher, Suzanne Clements, fundaram logo após a graduação na faculdade de moda e que fez sucesso nas passarelas da London Fashion Week, berço dos novos criadores dos anos 1990.
 
Loro Piana(foto: Divulgação)
Loro Piana (foto: Divulgação)
 
 
A doação abrange 12 looks de desfiles completos, incluindo peças de tecidos e de cashmere, 15 caixas de acervo documental, o que compreende álbuns de croqui, moldes, provas de tecidos e tricô, arte de estampas, álbuns de imprensa, entre outros itens. “Isso é motivo de grande alegria, já que o V&A  é, sem dúvida, uma das maiores instituições e autoridade cultural em arte e design do mundo, cujo acervo extenso e único é referência para todas as práticas de design internacionalmente”, explica o estilista.
 
Isso significa também manter viva a memória da Clements Ribeiro, já que em 2014 o casal resolveu, de comum acordo, fechá-la. Foi uma decisão difícil, segundo Inácio, particularmente devido à sua projeção – era comercializada em 52 países, com distribuição especialmente significativa nos Estados Unidos e no Japão.
 
“A Clements Ribeiro trouxe um refresch para um mercado no qual sobressaíam, na época, o estilo dark e o desconstrutivismo e encantou com seus looks excêntricos, boêmios, cheios de texturas, estampas, muita cor. Era uma moda muito positiva e, quando introduzimos o cashmere, ela explodiu”, rememora. Os modelitos com listras coloridas inspirados nas camisas de jogadores do rúgbi inglês foram disputados por lojas conceituadas, destaques em várias revistas e vestidas por celebridades, como Madonna.
 
Toast(foto: Divulgação)
Toast (foto: Divulgação)
 
 
Tal notoriedade fez com que a tradicional Cacharel, que vivia um momento de ostracismo, convidasse o casal para assumir a direção criativa da casa com uma oferta irrecusável. “Deparamos com uma grande oportunidade, a Clements Ribeiro tinha recursos comerciais limitados, isso além do desafio de oxigenar uma grife e colocar nosso nome no mercado internacional”. O relançamento das coleções femininas da marca nas passarelas da semana de moda francesa, depois de anos sem se apresentar, exprimia toda a importância da empreitada. Durante sete anos – de 2000 a 2007 – e 18 desfiles, Suzanne e Inácio se dividiram entre Londres e a França e entre as duas labels.
 
Em um revisionismo, Inácio contou ao Caderno Feminino que ele e Suzanne não puderam evitar de imprimir na Cacharel uma boa dose do DNA da Clements Ribeiro, o que, de certa forma, terminou por estabelecer uma concorrência. “Era uma roupa mais barata do que a nossa e penso que isso, de certa forma, prejudicou sim o nosso negócio”, reflete.
 
Neste intermezzo, o casal iniciou a colaboração com a Evans, do segmento plus size, com caráter fortemente sexy, totalmente oposto à Clements Ribeiro, o que resultou em ser convidado a vestir a cantora Adele, no auge do seu sucesso, para algumas ocasiões, entre elas premiações importantes como o Grammy Awards, em Los Angeles, e o Mercury, em Londres.
 
O fechamento da Clements Ribeiro, ocasionado, entre outras razões, por problemas de produção e licenciamento, foi gradativo. “Por três coleções consecutivas fomos encolhendo, eliminando alguns itens, até que na última fiz a venda sozinho, em Paris. O interessante é que o resultado de vendas nunca caiu, foi igual ao dos dois outros períodos”, relata. O que significava que a marca continuava tendo potencial e sendo desejável, mas, segundo Inácio, o processo faz parte do volátil mercado da moda. Com o passar do tempo, torna-se difícil manter a novidade e o frescor.

Período sabático “Quando você fecha um negócio como o nosso, sempre fica uma aura meio negativa em torno da gente. Então, resolvemos tirar um sabático para nos reenergizar e definir como seguiríamos dali pra frente”, ele conta. Suzanne escolheu o caminho das artes plásticas. E ele resolveu se reinventar como profissional, oferecendo outros serviços além do estilismo, consciente de que bagagem é o que não lhe faltava. Afinal, são 40 anos de estrada, sete deles em Belo Horizonte, na Divina Decadência, onde deu os primeiros passos profissionais e dali seguiu para Londres. “Quando se tem uma carreira longa não é fácil aceitar o fato de que ela passe por um processo mais lento, mas, na prática, não é ruim”, garante.
 
Hoje, Inácio trabalha com o que ele chama de consultoria executiva de criação. “Atuo com equipes de estilo para otimizar a qualidade de criação, de adaptação e a consistência das coleções, apresentando soluções criativas e performáticas no sentido de securizar o sucesso das mesmas”, explica. Essa atuação envolve muitas etapas, como escolha de tecidos, cores, participação em provas de roupas, supervisão geral. Outro trabalho que ele vem desenvolvendo é o de coaching de direção de moda, como o realizado para a britânica Toast. Nesse campo, ele faz diagnósticos, acompanhamento das equipes criativas e técnicas, detecta pontos em que as empresas estão falhando em seus processos, entre outras atribuições.
 
Em 2017, foi convidado pela Benetton para atuar na reconstrução da sua linha masculina, renovando todo o design em caráter intensivo, em Treviso, Itália, o que envolveu troca de tecidos, renovação de modelagens, numa revisão total de moda. No ano seguinte, fez consultoria criativa para a marca Loro Piana, do grupo LVMH, premium do segmento de cashmere. Seus conceitos para a Heritage Stripes foram utilizados nas bolsas do verão 2019, assim como no prêt-à-porter, e estão ainda em desenvolvimento em Milão.
 
Novos campos de atuação vão surgindo, como a área de decoração. Entre as suas últimas atividades está o desenvolvimento de linha de tecidos com padronagens para interiores e papel de parede em licenciamento com a marca americana Schumacher. Recentemente, ele participou também de um extenso projeto de reposicionamento da marca Emílio Pucci, que passou por roupas esportivas, calçados e bolsas.

Nova era Observador do mercado fashion internacional, o mineiro acredita que dois fatores combinados – a globalização e a internet – transformaram completamente o sistema da moda. Os rituais que eram importantes perderam a função que tinham, e o consumidor, que era validado por agentes como revistas de moda, editoras importantes e desfiles, hoje tem outros parâmetros para se guiar. “Todo mundo participa como quer e isso é estimulante por um lado e caótico por outro”, enfatiza, citando a relevância atual dos influenciadores e da era da corporativação e da industrialização. De acordo com Inácio, a moda se tornou a maior indústria do planeta e nesse universo convivem homens poderosos e muito ricos em frentes contrárias, como Bernard Arnault, comandante do sofisticado grupo LVMH, e Amâncio Ortega, dono da Zara, do segmento do fast fashion, outra força responsável pela revolução no mercado fashion.
 
Segundo ele, o quadro atual trouxe também o deslocamento entre moda e cultura, antes valorizado no prêt-à-porter. “A assinatura do estilista, originalidade e autoralidade ficam em segundo plano para o marketing das grandes marcas e o prêt-à-porter, que cresce vertiginosamente, funciona como vitrine para a venda de bolsas”.O estilista pontua ainda que diretores criativos de labels famosas, como Alessandro Michelle, da Gucci, trabalham dentro de códigos de gerenciamento em uma junção entre estilo e gestão.
 
Em contrapartida, ele vê com bons olhos uma nova geração que está de olho em valores calcados na antimoda, como o movimento dos brechós, do reúso, do upcycle, da reciclagem, do mercado do aluguel de roupas. “São outros tempos em que a sustentabilidade é uma grande força motriz”, ressalta.


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