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Estado de Minas ENTREVISTA/RODRIGO FERRAZ - 52 ANOS, EMPRESáRIO

O homem dos festivais gastronômicos

Visionário e empreendedor, Rodrigo Ferraz levou a gastronomia mineira e brasileira a outro patamar


postado em 24/11/2019 04:00



O empresário Rodrigo Ferraz assumiu, há 10 anos, o Festival Cultura e Gastronomia Tiradentes, e desde então mergulhou de cabeça no mundo dos alimentos e hoje é o maior empresário e empreendedor do setor. Responsável pelos maiores e mais importantes festivais gastronômicos do país,  dedica sua empresa a divulgar a culinária brasileira em todas as regiões do país e também na Europa. O projeto Fartura, criado por Ferraz, inclui expedições de pesquisa, geração de conteúdo de gastronomia, projetos customizados, além dos festivais. Rodrigo começou seu trabalho como proprietário de bares e restaurantes, entre eles o Albanos e o Haus Munchen, todos funcionando com grande sucesso. Depois de abraçar o festival gastronômico de Tiradentes, criou o Fartura e está ganhando o mundo.
 
Qual a sua formação?
Todo o meu colegial estudei no Loyola, depois fiz faculdade de administração, uma segunda formação em direito e, posteriormente, uma especialização em administração financeira na Fundação Getulio Vargas.

Seu pai tinha cartório e sua mãe 
galeria de arte. Chegou a trabalhar com eles em algum momento da vida?
Nunca cheguei a trabalhar com a minha mãe, mas sempre admirei o trabalho dela. Depois do seu falecimento, no ano passado, passei a admirar ainda mais. Com meu pai trabalhei por um certo período, mas as atividades burocráticas do cartório nunca me entusiasmaram, não combinavam comigo. Desde pequeno sempre quis ter meu trabalho, ter meu próprio negócio, empreender.

O que o levou a trabalhar com bares e restaurantes?
Posso dizer que foi quase acidental. Eu não tinha essa vocação para cozinhar, para a gastronomia. Em 1995, me ofereceram um ponto muito boêmio de Belo Horizonte, o antigo Savassinuca, na esquina da Getúlio Vargas com Contorno. Fui visitar o local e quando entrei fiquei pensando o que eu poderia abrir ali. De repente me veio o estalo de abrir uma choperia. Foi aí que tudo começou. Logo depois apareceu o Albanos, só que em outro ponto, na Rua Pium-í.

Quando abriu o Albanos e quais vieram na sequência?
Abri o Albanos em 1º de maio de 1996. Depois vieram a Krug Bier, a boate naSala, o Haus Munchen, e muitos outros.

A que atribui o sucesso do Albanos, que está na lista dos melhores há 23 anos?
Acredito que para ter sucesso em qualquer esfera da vida, uma característica que as empresas e principalmente as pessoas precisam ter é determinação, isso ajuda no campo pessoal, profissional e eu diria até espiritual. No caso do Albanos, consegui levar essa característica para a empresa. Somos determinados e focados sempre em superar as expectativas dos clientes e em inovar. O Albanos foi pioneiro como primeira choperia de BH, mas não parou no tempo. Hoje, somos uma cervejaria com produção própria e colaborativa, sete rótulos fixos e lançamentos sazonais mensais, já lançamos mais de 30 cervejas e muitas delas foram premiadas.

Como, quando e por que assumiu o festival gastronômico de Tiradentes?
Por volta de 2008, 2009. Tinha uma sociedade em uma produtora de eventos chamada nS Eventos, uma empresa derivada da naSala. Tínhamos uma expertise em criar eventos de música pop, eletrônica, focados no público AA. Nessa mesma época, o Ralph Justino, criador do Festival Cultura e Gastronomia Tiradentes, me chamou para ajudá-lo na recuperação da imagem do festival, que estava em declínio. Preciso dizer que penso que Minas Gerais deve muito ao Ralph, não só por ele ter criado o festival, mas também por ele ter ajudado a gastronomia mineira a ter uma projeção nacional, e posso dizer até mundial. Fui, então, trabalhar no festival e, além da beleza natural e o patrimônio histórico de Tiradentes, pude perceber pela primeira vez e fiquei absolutamente encantado com a cadeia produtiva da gastronomia: uma região, um produto, um produtor, o mercadinho, os restaurantes e o consumidor final. Diferentemente de uma cidade grande, em uma cidade pequena como Tiradentes você consegue perceber isso.

Fez muitas mudanças no festival? Quais e por quê?
Sim, fiz várias mudanças no festival. Quando percebi essa cadeia produtiva da gastronomia e o que ela estava ocasionando em Tiradentes, o número de restaurantes e a projeção que a cidade atingiu, com sete mil habitantes e restaurantes estrelados, resolvi mudar a característica do festival que era "internacional/atração" para "Brasil/educação". Para isso, fizemos a primeira expedição pelo país pesquisando essa cadeia produtiva nacionalmente.

O que o levou a montar o Fartura?
Foi observando o festival de Tiradentes, quando consegui enxergar a cadeia produtiva da gastronomia como um todo, em uma cidade pequena de 7 mil habitantes, seja o cozinheiro, o restaurante ou até o uso doméstico. E percebi que a gastronomia, além do valor cultural, tem um valor social e um valor econômico, e isso impulsiona a vida de várias pessoas. Pensei que isso poderia ser feito em escala nacional e foi assim que surgiu a ideia do projeto.

Como foi a expansão desse projeto?
Tivemos uma experiência de sucesso ao levar conteúdos ricos para o Festival Cultura e Gastronomia Tiradentes. Começamos, então, a fazer filmes, livros, produzir mais material, nos constituindo como uma plataforma, o que nos trouxe alguns prêmios de comunicação. Com esse cenário e com a expertise de produzir um festival numa cidade história – o que exige muito conhecimento, muitos detalhes – decidimos levar a ideia para outra cidade. Foi aí que criamos a marca Fartura, que simboliza exatamente a riqueza que o Brasil tem na gastronomia. No segundo semestre de 2014, fizemos o primeiro Fartura em Belo Horizonte. Quando terminou o evento tínhamos mais de 10 propostas para realizar o Fartura em outras cidades. Então, em 2015, escolhemos Fortaleza para fazer um novo festival, devido ao rico cenário gastronômico do Nordeste, e também por conta do parceiro local, que foi o Grupo Jangadeiros, do senador Tasso Jereissati. Nos anos seguintes tudo começou a acontecer – fomos para São Paulo, Porto Alegre, Belém, Brasília, Lisboa.

Quando começaram as expedições, qual o objetivo e como elas ocorrem? Quantos locais já foram visitados?
Para abordar essa questão da educação, começamos a fazer viagens pelo Brasil pesquisando essa cadeia produtiva da gastronomia. Temos a honra de dizer que somos o único projeto que viajou o país inteiro, visitamos os 26 estados e o Distrito Federal registrando tudo em vídeo, foto e texto. O que a gente pesquisava era levado pro festival, como o jacaré do Mato Grosso, as frutas do Nordeste, o exotismo da Amazônia. Através dos cozinheiros, produtores, palestras. Ou seja, mostrar para quem frequentava o festival um Brasil que pouca gente conhecia à época.

Este ano, onde foram as expedições?
Em 2019, tivemos expedições no Mato Grosso, onde conhecemos um bolo de arroz feito, ainda hoje, com banha de porco, peixes pantaneiros e um requeijão feito em uma comunidade remota no fogão a lenha. E no Paraná, onde visitamos uma criação de porcos mouros, uma produção de orgânicos na mata atlântica e um projeto público no qual são instaladas caixas de abelha sem ferrão em praças e museus de Curitiba, para a obtenção de mel.

Quando foi lançado o primeiro livro? As vendas são boas?
A coleção Fartura – Expedição Brasil Gastronômico tem cinco volumes, sendo que o primeiro e o segundo ganharam o Prêmio Jabuti e premiações internacionais. Cada um contempla uma série de estados brasileiros com histórias, personagens, ingredientes e, é claro, receitas de cada território. O primeiro foi lançado em 2013 e o volume cinco, que completou todos os estados do Brasil, foi lançado este ano. Dentro do cenário atual da economia do Brasil e com o crescimento das redes digitais, podemos dizer que as vendas estão muito boas, os volumes 1 e 2 estão esgotados. Os volumes 3, 4 e 5 ainda estão à venda.

E os filmes? Qual a receptividade do premiado recentemente?
Toda expedição que fazemos é registrada e depois temos curtas- metragens com histórias surpreendentes e lindas imagens. Alguns deles são emocionantes, como foi o caso do Mestre da Farinha, que conta a história de seu Bené, do Pará, que não tem escolaridade, mas é considerado um doutor no ofício de produzir a farinha de mandioca. Ele recebeu dois prêmios em Portugal, no Festival ART&TUR, um dos mais importantes de lá. Ganhou o Best South American Film e o People's Choice Awards na categoria documentários. Este segundo foi de voto do público, o que mostra que a receptividade foi ótima. Ele foi realizado por Leandro Miranda e Luiza Fecarotta, com produção de Adriana Benevenuto.

Quando abriu os canais eon-line, quais são?
Logo após os dois primeiros anos da Expedição Fartura, começamos a compartilhar o conteúdo pesquisado. Hoje, temos um site (farturabrasil.com.br) que concentra todas as informações das nossas expedições, programação dos festivais, vendas do livro e muitas receitas do Brasil inteiro. Temos também um canal no YouTube com vídeos muito bonitos e produzidos das nossas viagens, com histórias muitos inte- ressantes. E as redes sociais – Facebook e Instagram, nas quais interagimos com o nosso público e fazemos a cobertura de todos os eventos e festivais.

O que despertou seu interesse em fazer o Fatura em Portugal?
A ideia central de ir para Portugal foi estreitar os laços com nossas origens. Descobrir em quais elementos o Brasil se apropriou da culinária portuguesa e os incorporou na nossa cozinha, e vice-versa. Nosso objetivo é gerar trocas entre os dois países, mostrar ao público a gastronomia do Brasil. E queremos promover discussões para provocar iniciativas de trânsito de ingredientes, trocas de experiências, culturas e negócios.

Como foi a receptividade lá por parte dos parceiros, chefs e público?
Foi maravilhosa, descobrimos que temos muito em comum com os portugueses e eles nos receberam de braços abertos. Os chefs de ambos os países tiveram a oportunidade de trocar experiências e isso foi importante para todos. O público é muito curioso em experimentar a nossa gastronomia, levamos ingredientes do Pará, de Minas Gerais, do Ceará. Basta dizer que tivemos, entre os dias 14 e 17 de novembro, o festival em Lisboa com os bate-papos esgotados, uma visita significativa na mostra audiovisual, almoços e jantares esgotados e com fila de espera. Foi um sucesso absoluto.

Pretende levar o Fartura para outros países?
Temos propostas para fazer o festival nos Estados Unidos e na Espanha e mais recentemente recebemos um convite para ir à França. Mas, a orientação para 2020 é aguardar. O tamanho em que chegamos, sendo a maior plataforma de gastronomia do Brasil, versus as adversidades econômicas que o país enfrenta nos exige a manutenção do número de festivais.

Quantos festivais realizou este ano?
Em 2019, foram oito festivais Fartura. Completamos todas as regiões do Brasil: Belém, Brasília, São Paulo, Tiradentes, BH, Porto Alegre, Lisboa e Fortaleza. Tivemos um público de mais de 90 mil pessoas, cerca de 545 atrações gastronômicas, 120 atrações artísticas. Foram mais de 220 mil pratos servidos, 65 toneladas de alimentos.

Quais os planos e novidades do projeto para 2020?
Ao mesmo tempo, sempre gostamos de inovar. Então, para 2020, a ideia é fortalecermos nossa comunicação, aproveitar melhor o nosso conteúdo. Teremos três novos canais de distribuição desse material, e posso adiantar que um deles será uma parceria com uma importante revista de gastronomia do país, que vamos anunciar em breve.

Qual você considera o melhor, em termos de consistência, estrutura e sabor?
Essa é uma pergunta muito frequente e que desperta a curiosidade do público. É muito subjetivo, cada pessoa tem seu gosto, seu repertório. O que posso dizer, com tranquilidade, é que junto com a excelente gastronomia de Minas Gerais, sua origem e tradição, somado ao povo mineiro, supercaloroso, Minas é o melhor lugar para se comer. Não é à toa que Belo Horizonte entrou, recentemente, para a Rede de Cidades Criativas da Unesco, na área de gastronomia.
 


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