Continue lendo os seus conteúdos favoritos.

Assine o Estado de Minas.

price

Estado de Minas

de R$ 9,90 por apenas

R$ 1,90

nos 2 primeiros meses

Utilizamos tecnologia e segurança do Google para fazer a assinatura.

Assine agora o Estado de Minas por R$ 9,90/mês. Experimente 15 dias grátis >>

Estado de Minas

Admirável mundo novo

Com mais de 40 anos de carreira, artista plástica de Belo Horizonte transfere pinturas para o meio digital e leva as suas estampas para uma gama maior de produtos, de casa a vestuário


postado em 16/06/2019 04:11

As pinturas de Rita Lessa estão estampadas em produtos como roupas, toalhas de mesa e almofadas(foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)
As pinturas de Rita Lessa estão estampadas em produtos como roupas, toalhas de mesa e almofadas (foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)



Rita Lessa vive um momento de virada na carreira. A artista plástica mineira, que gosta de se definir como “propositora de coisas”, decidiu digitalizar as suas pinturas para que possa utilizá-las com mais agilidade em diferentes produtos, sejam roupas, tapetes, louças ou móveis. Além disso, ela passa a receber os clientes em seu mais novo espaço, a Casa Less, no Bairro Serra, em Belo Horizonte, onde mostra todas as possibilidades do seu trabalho, que tem mais afinidade com os tecidos.


Por mais de 30 anos, a artista pintou um a um os seus produtos, em um ritmo acelerado, mantendo um volume de produção surpreendente para quem trabalha praticamente sozinha. Muitos até achavam que Rita tinha um corpo de funcionários, mas ela conta apenas com a ajuda de costureiras. “Até que, nos últimos anos, já senil, idosa e velhinha, comecei a pensar no futuro. Como quero crescer este volume de produção, me questionei: como posso me beneficiar do advento da digitalização?”, conta.


Mostrando-se antenada com as tecnologias, Rita entendeu que precisava migrar para o meio digital e criou um bureau de estampas. Só assim seu trabalho não ficaria limitado e ela conseguiria alcançar mais suportes. “Estou celebrando um passo muito necessário na minha carreira, que é chegar a um formato em que posso dar escala ao meu trabalho. Falo que estou inaugurando para mim mesma um admirável mundo novo, é quase ficção científica”, comenta.


O processo de digitalização começou há mais de três anos. A artista teve o cuidado de garantir que os arquivos fossem fieis às pinturas originais, considerando cores, texturas e proporções. Além disso, era preciso encontrar as bases ideais para cada um dos produtos. “Me surpreendo com o resultado”, confessa. Rita descobriu, por exemplo, um tecido impermeável dupla face, fácil de limpar e que não amassa, utilizado na produção de jogos americanos e passadeiras.


Nada melhor do que uma casa inteira para mostrar as novidades, que não são poucas. Construído no fim da década de 1940, o imóvel, que fica na Rua Oriente, abriga todo o trabalho de Rita, inclusive experimentações. Há produtos em todos os cômodos, o que reforça a multiplicidade da artista. “Mais do que nunca, os autores contam as suas histórias e o que você faz diz ao outro de lifestyle. Espero que esta casa me ajude a falar de um jeito de viver e apontar referências”, pontua.
A sala de estar é composta por sofás, almofadas e tapetes que estampam desenhos de Rita, além de telas feitas com colagem de tecidos. A mesa está pronta para receber os convidados, com louças, jogos americanos e a sua famosa passadeira em formato de folha de bananeira, que já se espalhou pelo mundo. “Já perdi as contas de quantas fiz e para onde foram. Inicialmente pensei para a mesa, mas já viraram peseira de cama, quadro, enfeite para sofá, já ganharam autonomia.”


Ainda na sala, observa-se uma arara com itens que a artista prefere dizer que são “vestíveis”, em vez de roupas, porque não se considera uma estilista. Alheia à grade de numeração, ela sempre gostou de fazer peças de tamanho único, que podem vestir homens e mulheres, grandes e pequenos. “Faço vestidos e camisas que não vão sair de linha. Não sigo sazonalidade e também não acredito em ímpeto novidadeiro”, comenta Rita, que não se preocupa em lançar coleções.
Nas roupas, as pinturas se transformam em estampas. As camisetas, por exemplo, carregam desenhos digitalizados e escritos de autoria de Rita. “Sou interessada por modelos limpos, em que as estampas possam aparecer.” E ela acrescenta: “Sou muito contaminada pela rua, o popularesco, o reles cotidiano. Adoro comércios populares, adoro mercado.” Chama a atenção o colete feito com cobertores, que tem em detalhes uma estampa do próprio cobertor.


Rita quer que a casa tenha vida de verdade. Ela, que gosta muito de cozinhar, pretende receber pessoas na cozinha, na varanda para ouvir no fim de tarde e até hospedar alguns clientes (“poucos, porque só tenho um quarto”). No quarto de hóspedes, com cama montada, destaca-se um lustre com 4,5m de tecido pendurado aleatoriamente, feito em parceria com a A. de Arte. É assim que a artista pensa em trabalhar, unindo as suas estampas à expertise de diferentes parceiros.

FRUTAS No outro quarto, os clientes podem ver o mostruário de estampas, que é numeroso. Os desenhos de Rita são mais abstratos, com muitas formas geométricas, o que não significa que ela não se expresse de outras formas. “Gosto de figuração também, inclusive sou muito conhecida pelas frutas”, ressalta a artista, que ultimamente tem dado destaque ao caju. Sobre as cores, mais neutras, ela ainda está descobrindo novos caminhos. Diz que chegou ao vermelho há pouco tempo.
No terceiro quarto, Rita montou o ateliê propriamente dito, com a mesa de trabalho e rolos de tecidos. Lá, a artista conta que as suas estampas podem virar papel de parede e, se o cliente quiser, ela se dispõe a escrever alguns versos no local. Diante da parede que funciona como mostruário, ela fala sobre a sua relação com as palavras. “Desde menina gosto de escrever. E hoje sou uma velhinha grafiteira: escrevo em tapumes e muros.” Rita ainda conta que vai publicar livro de poesia este ano.


Até mesmo a garagem foi ocupada e se transformou em galeria de arte. É onde Rita expõe os seus quadros com pinceladas que têm um quê de Amilcar de Castro e Lygia Pape, seus grandes mestres. A artista ainda exibe no andar de baixo da casa seus enormes painéis de tecidos, que são uma paixão antiga. “Tenho gosto brutal pelos tecidos. Pelo fato de ter uma mãe costureira exímia, que tinha uma costura perfeita, ia muito a casa de tecidos e ficava pirada pelo toque e cheiro”, relembra.
Na garagem, Rita também mostra as suas recentes experimentações com cimento. “Tenho interesse por novos materiais e o cimento tem uma plasticidade semelhante à da tinta”, observa. As telas com cimento são monocromáticas e têm textura craquelada.


Ter uma casa-ateliê não é exatamente uma novidade para Rita. Por 10 anos, ela teve um espaço parecido em Bichinho, distrito de Tiradentes, que tinha nos fundos um pasto e um riacho, onde recebeu turistas de todo o mundo. O conceito era o mesmo, uma casa inteiramente montada, com todo o trabalho concentrado. A artista ficou sem casa por três anos, até decidir se fixar em BH. “Espero que a casa reúna meu trabalho, que é múltiplo, diverso e amplo, mostrando que há unidade nisso, e de maneira elegante.”


Publicidade