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Entre o ajudar e o intrometer


postado em 21/04/2019 05:07

Lembro-me de que logo que me casei uma das nossas atividades preferidas era convidar os amigos para conhecer o apartamento onde morávamos. Havíamos passado alguns anos comprando e guardando móveis e adornos, além dos eletrodomésticos. Curtíamos cada detalhe e sua história. Meu marido, piadista nato, adorava contar como havia escolhido a poltrona da sala.

Reza a lenda que o vendedor queria que levássemos uma de três lugares, mesmo nos vendo insistir que só havia espaço para uma menor. O argumento do vendedor era que meu marido iria se arrepender depois de a primeira noite que ele passasse deitado naquela poltroninha, não por opção, claro, mas porque com certeza chegaria o dia em que eu, sua amada esposa, o colocaria para fora do quarto bem na hora de dormir.

Que o vendedor intentasse nos fazer mudar os planos já tão bem pensados e traçados dava para entender. Afinal, ele vivia de comissão sobre suas vendas. O que custei a entender foi a atitude de duas amigas que, enquanto eu ajeitava na cozinha as guloseimas preparadas para recebê-las, arredavam os móveis para lá e para cá, redesenhando o que eu e meu marido havíamos planejado de comum acordo.

– Achamos que deste jeito fica melhor, disseram confiantes quando retornei para a sala.

Confesso que nessa hora fico sem ter o que dizer. Meio sem graça, sorri amarelo, fingi que estava tudo bem e dei sequência ao delicioso encontro. Claro que antes mesmo que elas cruzassem a esquina de volta para suas respectivas casas, eu e meu marido retornamos com tudo. Nunca se comentou nada sobre esse episódio, tendo ficado óbvio para todos que não aprovamos aquela mexida. Afinal, aquele era nosso jeito e não havíamos pedido a intervenção de ninguém. Esse é o ponto.

Lembro-me disso outro dia quando, na casa de outros amigos, vi uma convidada como eu chegando em determinado canto da casa e dizendo: “Depois venho aqui para dar um jeito neste ambiente. Não está bom!”. Olhei para a dona da casa e vi aquele mesmo sorriso amarelo que dei há 30 anos.

Fato é que as pessoas confundem muito ajudar com intrometer. Nos metemos onde não somos chamados com as melhores das intenções e o pior é que nos ofendemos quando nossa ajuda não é entendida ou bem recebida. Afinal, ajudar nasce de um sentimento dos mais nobres. Precisamos saber perceber quando ela é necessária e desejada.

Aprender a perguntar antes “o que queres que eu faça para te ajudar” pode ser um bom começo. Confundimos colocar a mão na massa com criar demandas inexistentes e desnecessárias a partir daquilo que, escorados em nossa presunção, acreditamos ser o melhor para o outro.


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