Conteúdo para Assinantes

Continue lendo ilimitado o conteúdo para assinantes do Estado de Minas Digital no seu computador e smartphone.

price

Estado de Minas Digital

de R$ 9,90 por apenas

R$ 1,90

nos 2 primeiros meses

Utilizamos tecnologia e segurança do Google para fazer a assinatura.

Assine agora o Estado de Minas digital por R$ 9,90/mês. Experimente 15 dias grátis >>

Estado de Minas

Vida de sucesso

Empresário grego veio jovem para o Brasil e abriu empresa que está na terceira geração


postado em 07/04/2019 05:09

(foto: Jair Amaral/EM/D.A Press)
(foto: Jair Amaral/EM/D.A Press)

Apesar de ter tido uma adolescência difícil na Grécia em consequência das guerras mundial e da civil que se instalou em seu país por anos, Simeon Papazoglu enfrentou medos e inseguranças, veio sozinho para o Brasil aos 18 anos e venceu. Começou a vida como “sacoleiro” vendendo roupas pelas cidades do interior de Minas Gerais. Assumiu uma loja montada pelo pai, que não ia muito bem, e expandiu a empresa, chegando a ter três andares do comércio no Centro da cidade. Há alguns anos expandiu abrindo lojas de rua e começou um novo negócio voltado para o público AB. Desde que perdeu sua única irmã na Grécia, nunca mais voltou ao país onde nasceu, por não ter nenhum vínculo por lá. Ama o Brasil e é grato por tudo o que construiu aqui, inclusive pela família, seu maior amor.

Como era sua vida na Grécia?
Nasci em Atenas, em 1937, meu pai tinha comércio por lá e vivíamos bem. Comecei a fazer o curso na Escola Superior do Comércio, que é um tipo de universidade onde se ensina comercialização. São quatro anos, mas cursei apenas um ano e meio. O ensino e a cultura da Grécia são bem diferentes daqui, e a qualidade do ensino também.

Quando veio para o Brasil?
Vim aos 18 anos, para comer.

Como assim?
Vim para o Brasil para comer, e fiquei porque gostei. Depois da 2ª Guerra Mundial, enfrentamos a guerra civil que destruiu tudo.  Meu pai tinha indústria de brim que vendia para o interior. A esquerda chegava no interior e dizia “a direita passou por aqui” e queimava tudo, depois chegava a direita e destruía tudo afirmando que tinha sido feito pela esquerda. Destruíram a Grécia, muito mais que a 2ª Guerra Mundial. De 1946 até 1955 foi um país destroçado.

Como viviam?
Da mesma forma que se vive hoje na Venezuela. Como se viveu na Rússia tantos anos? O ser humano se adapta e sofre.

Trabalhava com seu pai?

Não, às vezes ajudava nas minhas férias, eu estudava na Academia Francesa, um colégio integral tipo a Escola Americana. Era bem melhor do que a que tem hoje aqui no Brasil, mas não deixa de ser o Beabá que a gente conhece.

Por que escolheu o Brasil?
História longa. A família toda do meu pai é de Istambul, ele tinha uma irmã que se casou lá um ano antes da 2ª Guerra Mundial. O meu tio saiu de Istambul e foi para Nova York, para depois chamá-la. Estourou então a guerra  e eles ficaram separados por cinco anos. Meu tio entrou na área de restaurantes e foi muito bem-sucedido, depois minha tia foi para lá e ficaram alguns anos nos Estados Unidos. Eles não tinham filhos. Certa vez, decidiram fazer uma viagem turística para a América do Sul, vieram ao Brasil em 1950 e fizeram amizade com um casal de judeus, no Rio de Janeiro, chamado Zaragoza, que fabricava uma camisa famosa na época. Foram juntos conhecer Petrópolis e meu tio viu o potencial que tinha na região por causa da água e das tecelagens. Pensou em se estabelecer lá, mas minha tia sonhava voltar para Atenas, portanto, voltaram à Grécia, compraram muitas propriedades, estavam muito bem de vida quando ocorreu o desastre econômico com a minha família. Nós falimos por causa da guerra civil. Meu tio sugeriu a meu pai ir para o Brasil por causa do amigo que havia feito aqui. Fizeram contato e o Zaragoza nos chamou para vir  para cá. Meu pai e um amigo, também judeu, ficaram decidindo, enrolando muito e eu decidi vir sozinho. Comecei a trabalhar no escritório, juntei dinheiro e comprei uma passagem de terceira classe no navio Júlio César e casquei fora. Logo depois meu pai veio com seu sócio. Fui para o Rio de Janeiro encontrar com o Zaragoza, fiquei impressionado com a vida que ele levava, morava em um apartamento excelente de frente para a praia, em Copacabana. Ele sugeriu que eu fosse para Belo Horizonte, porque a cidade estava em expansão. Acho que ele queria ficar livre de mim. Depois de dois dias, peguei o ônibus e vim para BH, onde tinha uma colônia grega muito grande. Todos os gregos ainda estavam mal-arrumados porque tinham pouco tempo de Brasil também. A classe dominante na época eram os sírios e libaneses.

Qual foi seu trabalho inicial aqui?
Na luta pela sobrevivência entrei para o comércio. Pegava calças e camisas em confecções e saía para vender. Na época tinha um tecido chamado bember – que usamos para forro de paletó barato –, lustroso, parecido com cetim. Daquele que quando o sol bate ele brilha... O dinheiro da época era o cruzeiro e vendíamos a 50 cruzeiros cada camisa. Na primeira lavagem ela encolhia de10 a 15 centímetros. Eu vendia muito em Pedro Leopoldo, ia de jardineira, estrada de terra. Fiz amizade com um mecânico e ele me deixou colocar as camisas na marquise de sua oficina, e como eram muito coloridas, chamavam a atenção. Vinham uns caras a cavalo e compravam as camisas. Eu voltava uns 15 dias depois e vinha o mesmo cara, com a camisa parecendo um top. Eu olhava aquilo e pensava “é hoje que eu apanho”. Ele não batia, queria outra. O único hotel da cidade era da família Tanure, e a filha dele se tornou nossa maior cliente uns 30 anos depois. Passei a ir ao Rio de Janeiro para trazer mercadorias e vender aqui. Um certo dia o fornecedor disse que teria que pagar a mercadoria à vista. Saí de lá com lágrimas nos olhos, porque não sabia o que fazer, porque não tinha o dinheiro. Aí descobri um senhor em São Paulo e passei a ir lá pegar as mercadorias. Meu pai já estava aqui no Brasil, comigo em Belo Horizonte. Ele e o sócio abriram uma loja na Tupinambás com Curitiba, mas não foram bem-sucedidos e o sócio saiu.

E você e seu pai continuaram?
Sim. E ficamos no mesmo endereço. As coisas foram melhorando e a nossa loja – que sempre foi dentro de um prédio – se firmou. Passamos a vender toda espécie de produtos, desde enxoval a brinquedos e utilidades domésticas. Chegamos a ter três andares de loja, mais de 50 vendedores. Na época do Natal ficávamos abertos das 7h30 às 21h, e era movimento o tempo todo.

Como fez para tornar uma loja fechada tão conhecida?
Foi o boca a boca das pessoas. Os clientes diziam “vai naquela loja lá que tem a fulana que atende bem, que vende bons produtos”, e as pessoas iam porque sua amiga é mais confiável que qualquer anúncio. Os clientes chegavam, encontravam bons produtos e bons preços, e falavam para os amigos. Essa rede é poderosíssima.

Depois de tantos anos “fechado” em um prédio, o que o levou a montar loja de rua?
Debaixo do nosso prédio tinha uma loja de rua para vender. O representante da Lupo me desafiou, disse que se eu abrisse uma loja de rua, eu ganharia no primeiro mês R$ 200 mil, que se isso não ocorresse que ele me daria o dinheiro e ficaria com a loja. Diante disso, decidi abrir. Mas fiz diferente, abri duas lojas, uma da Lupo e outra da Decopa. Ganhamos mais do que ele tinha dito tanto na loja da Lupo (que dei para minha nora) quanto na Decopa. Como compramos o imóvel, não tínhamos que pagar aluguel. Como deu certo, decidimos abrir outras, porém só abrimos lojas em imóveis próprios, exceto em shoppings, porque aí não tem jeito. Hoje, temos seis lojas da marca. A da Savassi foi uma experiência, porque íamos abrir uma Lupo lá e decidimos abrir a de enxovais. Nessa época já era mais light, não tinha mais aquele movimento grande na loja do Centro.

Lá vendeu muito?
Naquele tempo, o que o Centro chegou a vender sozinho não vendíamos nas outras cinco lojas que eu tinha. Hoje, é diferente, temos dois esteios, a Trussardi/Karsten e a Kacyumara – uma fábrica menor de enxoval, em Americana, SP – que é a maior fornecedora da Decopa.

Por que o nome Decopa?
Foi um nome que eu inventei, porque no início só trabalhava com vestuário, é a sigla de Depósito de Confecções por Atacado.

Como conheceu sua mulher?
Maria Lúcia trabalhava no edifício Vila Rica – onde era a Decopa –, na loja de calçados do irmão. Ela embaixo, eu em cima, e ficamos nos conhecendo. Começamos a namorar e nos casamos em 1969. Tivemos três ótimos filhos – mérito dela na criação –, o Constantino, que é engenheiro; o Jorge, que está comigo nas lojas, pegou o abacaxi; e a Melissa, que é médica, e tem o COMG – Centro Oftalmológico de Minas Gerais. Neste capítulo dos filhos tenho visto largamente aí fora mil problemas onde não deveria existir e nenhum problema onde deveria existir, mas graças a Deus nunca tive problema com meus filhos, isso é uma bênção. Probleminhas todo mundo tem, faz parte da vida, mas problema mesmo, nenhum. Além dos filhos, tenho um genro e duas noras, e a regra continua. Tenho sete netos, sem problemas.

Quando voltou à Grécia depois que veio para o Brasil?
Sete anos depois, em 1963, porque meu pai estava aqui, mas minha mãe e minha irmã estavam lá. Quando nossas economias estavam razoáveis, decidimos trazê-las para cá. Fiquei lá dois meses, mas minha irmã não queria vir para o Brasil de jeito nenhum. Ela já tinha 18 anos, mas acabou vindo e foi trabalhar comigo, mas um ano e meio depois minha avó teve ela, lá na Grécia. Graças a Deus não sofreu muito porque teve uma parada cardíaca em decorrência da doença. Minha irmã foi para ajudar, porque eram só minha avô e sua irmã viúva, que viviam juntas. Minha irmã foi para ajudá-las, começou a namorar e se casou por lá. Não voltou mais. Minha mãe ficou aqui até 1983, quando meu pai faleceu. Depois de sua morte minha mãe entrou em parafuso, porque não fazia nada. Não é porque ela caía de amores pelo meu pai, não. Não queria sair de casa, e o médico me disse para tirá-la de casa senão ela ia pirar. Minha irmã veio para passear, e estimulou a mãe para ir passear na Grécia. Ela foi e nunca mais voltou, faleceu lá. Com minha mãe morando lá, o intercâmbio ficou mais frequente. Levava os meninos para ver a avó. Depois que ela faleceu, minha irmã teve um câncer e morreu há 10 anos. Jorge e eu fomos para o enterro. E desde então nunca mais fui e não tenho a menor vontade de ir. Não tenho saudade, nem vontade. Não tenho lembranças boas.

Tomou o Brasil como sua pátria?
No meu conceito, o Brasil é uma terra absurdamente melhor que a de lá. Tudo de bom que eu recebi  na vida, recebi aqui. Não estou falando apenas das coisas materiais, mas tudo. O amor da minha vida, meus filhos, netos, os amigos que fiz ao longo da vida. O que vou fazer na Grécia? Sinceramente, quando chego lá me sinto um estranho.

Tem negócios e propriedades na Grécia?
Tenho algumas propriedades que rendem aluguel, apesar do caos que está lá atualmente. Teve um tempo em que estava melhor. Meu cunhado cuida de tudo para mim, e ele vive com aquilo. Ele tem 88 anos. Não tenho mais ninguém da família na Grécia, a não ser ele. Minha irmã não teve filhos, meu cunhado é filho único e minha mãe era filha única. Meu pai tinha quatro irmãos, dois homens e duas mulheres. O irmão dele tinha duas meninas, ambas morreram solteiras e novas. Minhas duas tias se casaram e não tiveram filhos. Às vezes minha mulher brinca que eu tenho que cobrar royaltes. Não tenho vínculo nenhum com a Grécia.

Qual seu hobby?
Pescaria. Tem poucos lugares do mundo em que não pesquei. Gosto tanto que o Jorge, que também gosta muito de campo, comprou uma fazenda e eu fiz três açudes grandes cheios de peixes. Não são peixinhos não, são peixes, só para eu pescar, e reunir com os amigos e jogar conversa fora.

Qual o lugar mais bacana em que você pescou?
O mais bacana chama Jardines de La Reina, um arquipélago a 70 milhas de Cuba, cheio de ilhas. O segundo é Fernando de Noronha. Mas tem pescarias de rio onde pescamos piraíbas. Ano passado, fiz uma pescaria fantástica em uma tribo indígena no Rio Juruema, chamado Salto Augusto. Fiquei dois dias com os índios. O cacique tem uma Land Rover vermelha. Maravilhoso o local, com cachoeira. Meu genro é mais doente do que eu com pescaria, e ele organiza as viagens. É uma higiene mental, esquece-se de tudo, nada te aborrece. Gosto muito de mar e praia, então junta a fome com a vontade de comer.

O que o levou a atuar no segmento luxo, com a Trussardi?
A Karsten comprou a Trussardi. Dois irmãos que eu conhecia há mais tempo, porque eram os donos da Dudalina, e eu já trabalhava com a Karsten há muitos anos. Quando se mostraram disposto a abrir o mercado para a Trussardi, o Jorge, meu filho se interessou. Foi iniciativa e desenvolvimento dele. Não é minha praia, gosto de comércio mais popular.

Quais os planos futuros?

Hoje estamos bem, estáveis, somos a única firma comercial sadia de Belo Horizonte que se encontra na terceira geração. Se a situação mudar e surgir algo interessante, quem sabe. Mas eu já estou mais para não ter nada, nem a Decopa. Estou passando tudo para meu filho Jorge, já está fazendo a reforma no escritório do Centro e fará uma ampliação na loja da Trussardi em Lourdes, onde é o escritório dele, atualmente. Agora estão com linha de lingerie e praia e abrirão espaço para esses produtos na loja. O meu intuito é trabalhar de segunda a sexta-feira, na parte da manhã, onde o patrão vai me conceder três cafés de uma hora cada, ou seja, trabalhar uns 15 minutos. Parte do meu tempo eu dedico ao Projeto Assistencial Novo Céu, que trabalha com crianças com paralisia cerebral, amo o trabalho e asssumi ali uma diretoria. Quero mexer com mercado financeiro, aplicações, que é uma coisa de que eu gosto muito. Os números são minha afinidade.


Publicidade