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Estado de Minas

Bom gosto que vem do berço

Paixão e entusiasmo movem empresária na condução de negócio voltado para decoração


postado em 10/02/2019 05:04

(foto: Marcos Vieira/EM/D.A Press)
(foto: Marcos Vieira/EM/D.A Press)



Estudante do curso de decoração da antiga Fuma, Maria Augusta Zuquim Nunes, ou Guta, como todas a conhecem, já trabalhava na Quality Decorações – isso antes da mãe, Stelinha Soares, uma das primeiras decoradoras de Belo Horizonte, adquirir a loja. Herdou dela não só o bom gosto e savor faire, mas a competência para gerir o negócio em um mercado que passou por grandes transformações com o advento da tecnologia e de novos hábitos de consumo.Guta é testemunha dessas mudanças, conheceu os profissionais pioneiros da cidade, ao mesmo tempo em que sabe atrair os novos nomes que vão aparecendo, sem perder de vista o perfil da empresa voltada para o estilo clássico. Movida a paixão pelo trabalho, ela está sempre em busca de novidades, frequenta as principais feiras do segmento no país e no exterior, garimpando fornecedores nacionais e internacionais de mobiliário e adornos diferenciados. É esse movimento e dinamismo que garante a continuidade da Quality, há 36 anos no mercado.

 

 

Qual a receita para manter uma
empresa por tanto tempo e continuar sendo uma referência no mercado de decoração de Belo Horizonte?

Se tivesse uma receita era até muito fácil. Garra, determinação, prazer e paixão pelo trabalho são o que me guia. Continuo tendo o mesmo entusiasmo de quando comecei. Ao lado de tudo isto, existe uma pesquisa constante, mesmo quando estou viajando a lazer continuo ligada, com o olhar direcionado para a loja. Esta dedicação vale a pena quando você vê o cliente voltar, o que significa que conseguimos fidelizá-lo. E quando a gente percebe uma outra geração frequentando a loja ficamos mais felizes ainda. É o reconhecimento maior.

Sua mãe foi uma das primeiras
a investir neste setor. Como
isso aconteceu?
Meus pais se casaram muito cedo e foram morar, por seis anos, em Itabirito, onde meu avô tinha uma fábrica de tecidos. Quando se mudaram para Belo Horizonte, meu pai já tinha se formado em arquitetura e abriu uma construtora. Com os filhos crescidos, ela, que tinha feito um curso de artes e decoração no Rio de Janeiro, resolveu trabalhar como decoradora e contou com muito apoio da Crisálida Boerger. Um dia, em conversa com a Beth Magalhães Cruz, dona da Quality, veio a proposta para a compra da loja, na época funcionando na Savassi. Ela, que já era cliente e amiga da Beth, achou que era uma boa oportunidade e acabou comprando.

Como era o panorama da decoração na época?
Na época, a decoração tinha pouquíssimo recurso. Não havia tecnologia, luminotecnia, automação, trabalho de gesso, nem curso de decoração profissional. Era importante ter uma vivência, conhecimento, bom gosto. Poucos decoradores atuavam na cidade, como Crisálida Boerger, Ildeu Koscky, Lúcia Ferola. Eles eram mais arrumadores de casas. Minha mãe começou a fazer casas lindas e deslanchou. Como não havia muitos recursos, o trabalho tinha de ser bom para aparecer. Outra coisa: as casas eram para ser vividas, mas também eternas.

Como ela fazia para divulgar
o trabalho?
Quando o trabalho finalizava, a dona da casa, toda orgulhosa, oferecia um chá para as amigas conhecerem a decoração e ela convidava suas futuras clientes em potencial. Era a forma de divulgar, já que não havia fotógrafos, revistas, mídias especializadas, nada na época. Como tudo era feito sem pressa, convivia-se longo tempo com os clientes e minha mãe fez grandes amigas assim. Uma pessoa que a ajudou muito foi Zilda Couto, para quem ela decorou a boate, um acréscimo que já era bem moderno, reformulou a casa, mantendo os padrões do decorador anterior, e fez a sala de jogos. Esta foi uma divulgação muito boa.

E ela continuou sendo decoradora
depois de comprar a loja?
Não, a partir do momento emque comprou a loja, em 1983, deixou de ser uma decoradora de sucesso para se tornar uma comerciante de sucesso. Ela achava, como também achamos até hoje, que as duas coisas são incompatíveis, não queria fazer concorrência com os decoradores. Mantemos a mesma filosofia. Na loja não fazemos projetos, não vendemos obras de arte, quadros ou tapetes. Nem temos espaço e competência para isso. Pensamos que quem está buscando esses itens precisa ir em lojas específicas. Os decoradores e arquitetos são nossos parceiros, os queremos perto da gente para atendê-los bem no que precisarem.

E como era a Quality no início?
A gente ainda mantém a mesma proposta do início de ser uma butiquezinha, tanto no que diz respeito ao tamanho quanto aos produtos que oferecemos. Fazemos um garimpo de móveis, adornos e objetos personalizados para ter nosso diferencial e não seguir um mesmo padrão para as casas. Mesmo quando surgiu o estilo muito contemporâneo, não quisemos perder a nossa essência, o nosso perfil. Sempre fomos uma loja clássica e assim somos conhecidos até hoje. O clássico é chique, bonito e vai ser sempre valorizado.

Quando você entrou no negócio?
Na verdade, entrei no negócio antes de a minha mãe comprar a loja. Estava fazendo decoração na Fuma e sentia que tinha que trabalhar para ter mais do que a escola oferecia, pelo menos na minha época. Na decoração você necessita de vivência, precisa viajar, visitar museus, ter uma cultura ampla. A prática é muito importante e aprendi muito assim. Já trabalhava com a Beth, na Quality, na Savassi, e isso facilitou demais a transição.

Da Savassi vieram para o Lourdes?
Sim, e ninguém entendeu, porque a Savassi estava no auge do comércio e Lourdes era estritamente residencial, mas já havia problemas de estacionamento na região. A casa onde estamos,  há 26 anos, foi comprada na época do Collor, ficou fechada um ano, mas tinha estacionamento na porta. Além do mais, usufruímos muito do trânsito de pessoas que moram no bairro, elas andam muito a pé, e fizemos vários clientes assim. Fomos pioneiras do comércio de rua lá.

E como era esta relação mãe e filha no trabalho?
Trabalhamos juntas 26 anos com ótimo relacionamento. Nunca houve nenhum estresse. Minha mãe sempre confiou muito em tudo que eu fazia, me dava carta branca nas decisões, o que me deu uma grande oportunidade de crescimento.

Novos profissionais foram chegando. Como conhecê-los e atraí-los?
Por meio das mídias sociais. O mercado muda muito, temos uma escola de decoração que solta de 50 a 60 profissionais por ano. São eles que movimentam esse mercado. Para se ter uma ideia, quase ninguém entra na loja sem um profissional ao lado. Tem muita gente boa chegando, bons decoradores e arquitetos e temos o maior interesse em atraí-los com produtos diferenciados.

Entre eles, detecta algum novo talento?
Muita gente talentosa, mas, como lojista, prefiro não citar alguém específico.

Existe algum decorador ou arquiteto com quem você se identifique?
Um grande talento nacional e até internacional, que admiro muito é o Sig Bergamin. Acho que ele retrata bem nossa cultura, nossas cores, usa o nosso artesanato. Consegue com todo o seu conhecimento misturar tudo com sucesso. Claro que isso não é à revelia, mas fruto de muito estudo. Sig não fica preso a modismos, aliás tenho horror dessa palavra, sempre falo que decoração é tudo que você gosta bem colocado.

O que é um bom projeto para você?
Um bom trabalho é o que o cliente fica satisfeito. A casa tem que refletir o seu espírito, sua presença, e não a do decorador. Às vezes, ele fica insatisfeito com o resultado, mas se usou uma boa proporção, bons produtos, e o cliente ficou feliz, é o que importa. Significa que o cliente conseguiu, com a orientação do profissional, impor seu estilo e personalidade.

Como você faz a seleção de produtos?
Sempre visito as feiras nacionais e internacionais. Aqui tem a Abimad, a maior feira de móveis do Brasil. Lá fora, a Maison & Objet, em Paris, a High Point, nos Estados Unidos, e a Feira do Móvel de Milão. É lá que estão os melhores fornecedores e os lançamentos que informam e atualizam. O objetivo não é copiar ou virar escravo dessas tendências. São propostas que norteiam, trazem uma reciclagem para o mercado, fazem o produto girar. Sou importadora também, trabalho com réplicas de móveis provençais franceses, todos confeccionados com madeira maciça, encavilhados, alguns têm até furinhos imitando cupins. A gente não encontra esse móvel aqui porque há uma carência de mão de obra nacional, marceneiros, entalhadores.

Você compra pensando nos clientes. Pessoalmente, do que você gosta?
Claro que meu gosto interfere nas compras, mas a vantagem é que sou compradora e vendedora, estou na loja todos os dias. Então sinto o que o cliente gosta. Não adianta comprar algo que eu ame e que não vai ter giro. Pessoalmente, gosto do clássico, gosto de mistura, de casa cheia, com adorno, com cor, gosto de tapete, quadros, adoro prata de lei, como a minha mãe. Todas as minhas coisas têm uma história, ou comprei numa época especial ou ganhei de uma pessoa especial. Tiraram a prata da decoração, tiraram o tapete oriental, tiraram o móvel mineiro, que fica lindo e chique misturado com o contemporâneo. Acho que essas são peças eternas. A casa contemporânea, com pisos frios, precisa de algo para aconchegar. O tapete oriental sempre tem seu lugar, ele dá personalidade, uma austeridade importante na casa.  Porém, estou sentindo que está havendo um retorno dos clássicos, dos azuis chineses, das cadeiras de estilo...


As mostras de decoração ainda são importantes para captar clientes?
Certamente. Participamos da Casa Cor e da Modernos Eternos, além do evento que o Renato Tomasi faz, que agora vai se chamar Design Week Festival. As mostras são vitrines, uma forma de mostrar nossos produtos através de profissionais que nos escolhem como parceiros e de agradecer a parceria deles. Além do mais, agregam muito público. São os convidados desses profissionais, os convidados dos promotores e os nossos convidados. Ainda há muitos eventos que ocorrem dentro delas. Dificilmente, a gente sozinho conseguiria trazer tanta gente e aparecer na mídia.

Sua loja faz parte de algum grupo fomentador de vendas?
Sim, do Clube Design, composto por 11 empresas, cada uma em um segmento. Temos reuniões periódicas, trocamos informações importantes, ficamos a par do que está acontecendo no mercado  e de quem está atuando nele arrojadamente.


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