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Sonho concretizado

A paixão por ensinar e pela terra de seus avós se transformou na escola de inglês


postado em 02/12/2018 05:03

(foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)
(foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)



Marly Magalhães Nunes de Vasconcelos, mais conhecida como Babi Vasconcelos, nasceu na cidade do Serro. Veio para Belo Horizonte aos nove anos de idade e sempre se encantou com as histórias de seus bisavós ingleses, o que gerou na pequena menina o sonho de conhecer o país que parecia tão distante e a língua inglesa. O sonho se tornou realidade. Em uma viagem de intercâmbio aos Estados Unidos, decidiu abrir uma escola de inglês e foi em Nova York que encontrou o nome, unindo suas maiores paixões: línguas e ensino. Este ano o Greenwich School completa 45 anos, atua em diversas áreas: educacional e turística.

 

 

Ninguém te conhece como Marly. De onde surgiu o apelido que se transformou em nome?
Desde que eu nasci, Magda, minha irmã mais velha, me chamou de nenê Babi, ninguém sabe por quê. Ela tinha apenas um ano e meio. Aí, tirou o nenê e ficou o Babi. Virou uma marca registrada. Se alguém me chamar de Marly vou custar a saber que é comigo. No colégio e faculdade, quando entrava era Marly, o primeiro conhecido que chegava e me chamava pelo apelido, acabou, todo mundo passava a me chamar de Babi. Certa vez, uma funcionária da empresa chegou e  disse que estava recebendo uns documentos em nome de uma tal de Marly, e não sabia quem era. Morri de rir e me apresentei a ela.

Passar a infância no interior marcou sua vida?
Nasci no Serro, a cidade do queijo, um lugar cheio de montanhas e igrejas. Isso me formou, e tenho certeza que é exatamente por isso que sou tão sonhadora e tão religiosa. Sou muito católica.

Por que vieram para Belo Horizonte?
Meu pai, Paulo Nunes de Miranda, que ainda está vivo, com quase 95 anos, lúcido, é advogado e foi convidado por seu colega e amigo Jair Leonardo Lopes, para montar a refinaria Gabriel Passos. Convite aceito, nos mudamos e meu pai trabalhou lá e na Petrobras até se aposentar. Em Belo Horizonte, estudei no Colégio São Paulo, das irmãs angélicas, por causa da nossa raiz religiosa. Fiquei muito amiga das freiras, viajava sempre com elas. Passava alguns dias no Rio de Janeiro com a mãe da Madre Superiora. Nunca fui muito quietinha, fazia muita bagunça, mas também fazia amizade fácil e era muito estudiosa. Sempre gostei de línguas e era craque em português, inglês e latim. Eu era a melhor aluna de latim, e dava aula para minhas colegas. Também fazia inglês fora do colégio. Por isso eu sempre tive uma tendência muito forte para a área de humanas.

Essa eu acho que todos querem saber. Onde estudou inglês?
No ICBEU, uma escola que está aí até hoje. Sempre quis aprender inglês por causa dos meus bisavós que eram ingleses. Conheci minha bisavó, que eu chamava de vovó Sinhá, e meu grande amor era minha avó Maria, que morreu há 20 anos e até hoje sou apaixonada por ela. Nós escutávamos as histórias da vinda para o Brasil, da vida deles na Inglaterra. Desde que me entendo por gente falava “vou aprender essa língua e vou visitar este país um dia”. Quando nos mudamos para Belo Horizonte, a primeira coisa que meus pais fizeram foi me colocar em uma escola de inglês, porque no Serro não tinha.

Fez intercâmbio no exterior?
Naquela época não existia o intercâmbio tão evidente como hoje, estruturado, apesar de já existir o Rotary e o American Field, mas eram programas longos de um ano, e nem passava pela minha cabeça porque tinha certeza que meus pais não deixariam. Uma professora do ICBEU fazia um programa para levar os alunos para um curso de três meses nos Estados Unidos, nas universidades durante o período de férias dos alunos. Cheguei em casa toda feliz com o programa, mas meu pai disse um sonoro não. Eu tanto fiz que ele acabou deixando. Fui para a University South Florida, em Tampa. Tínhamos aula pela manhã, atividades à tarde e nos finais de semana viajávamos. Foi maravilhoso. No final, fechamos a temporada com uma viagem à Nova York e passeando por lá chegamos a Greenwich Village. Foi ali que nasceu o nome da minha escola de inglês.

Já sabia que queria abrir uma escola?
Andando por Greenwich Village vi as pessoas pintando, tocando violão na rua, fazendo música. Ali nasceu o meu desejo e eu disse que queria ter uma escola de inglês e que se chamaria Greenwich. Eu tinha 17 para 18 anos e quando cheguei no Brasil disse para meu pai que queria ser professora de inglês e abrir uma escola. Na Petrobras tinha uma área de teste vocacional e ele me levou para ver qual a minha aptidão – acho que ele queria que eu fosse advogada. Enquanto respondia o questionário ficava pensando o que eu estava fazendo ali se já sabia o que queria. Quando terminou o profissional disse que minha aptidão era para humanas. Poderia ser letras, direito. Mas eu queria ser professora. Eu brincava com minhas bonecas e com meus primos de dar aula de inglês para eles.

Você gosta de dar aula?
Tenho verdadeira paixão. Fiz letras, tenho orgulho de dizer que sou professora. Sou empresária hoje? Sou, mas em consequência de ser professora. Amo dar aula. Me coloque em uma sala de aula que eu não lembro de mais nada. Quando estava no meio do curso conheci o dono do Yazigi, Berardo Nunan. Ele me convidou para dar aulas em sua escola, me treinou como professora. Foi lá que conheci o meu marido Fernando, que era professor também e estudava medicina. Como parte do treinamento fui assistir uma aula dele. Foi amor à primeira vista.

Quando realizou seu sonho?
Enquanto dava aula no Yazigi e cursava letras já estava organizando tudo para abrir o Greenwich. Olhando casa para alugar, etc. Na época, tinha uma pessoa que trabalhava no Yazigi que viu a minha movimentação e propôs sociedade. Aceitei, mas disse que o nome já estava escolhido. Abrimos a escola no dia 24 de dezembro de 1973, foi um presente de Natal. Eu dava aula o dia inteiro, a melhoria do negocio vinha do meu trabalho e à medida que o dinheiro entrava, investíamos em equipamentos. Não tínhamos muita preocupação com o administrativo e financeiro. Hoje, qualquer empresa que abre tem preocupação de planejamento de negócio estratégico. Naquela época não tinha isso, mas minha cabeça já pensava algumas coisas que nem sabia o que era. Eu queria que a minha empresa fosse ética, tivesse compromisso e fosse humanística. Lembro muito disso. Hoje, sei que isso são os valores da empresa. Quando separei a sociedade, fui estudar planejamento estratégico, e o professor disse que já tinha os valores. Sobre o meu negócio, não queria ensinar uma língua, mas dar à pessoa algo que aumentasse sua autoestima, dar uma ferramenta para a pessoa ser melhor, que a leve para caminhos inesperados.

Há quanto tempo rompeu
a sociedade?
Há 20 anos, quando o Greenwhich tinha 25 anos.

Como foi recomeçar sozinha?
Com certeza não é fácil largar uma história, e continuar a história de uma forma diferente. Toda sociedade é como se fosse um casamento. Temos que deixar de lado muitas coisas que queremos, aceitar coisas que talvez a gente não acredite muito, para poder ficar juntos. Quando me senti sozinha, vi que poderia fazer todas as coisas que queria e ainda não tinha podido executar, foi um misto de sentimos. Ao mesmo tempo que me sentia livre para fazer tudo aquilo que não tinha conseguido fazer até então, sentia também que eu estava sozinha. Mas tive um apoio muito grande da minha família. Meu marido é médico, e mesmo sem estar no negócio, me ajudou muito. Meu filho mais velho, o Bruno, estava com 18 anos, mas tinha tanta maturidade, que entrou aqui e mergulhou no trabalho. Conhecia todas as nossas dificuldades, sabia inglês fluentemente, tinha uma vivência internacional muito grande, e poderia ajudar bastante.
Quando largou a sala de aula?
Há 15 anos mais ou menos, porque sempre mantive pelo menos uma turma, pois acredito que quando exigimos do professor, temos que ter a mão na massa. Mas chegou uma hora que a empresa me consumia muito e tive que abrir mão desse tempo.

Doeu muito?
Doeu, mas até hoje eu entro em sala de aula para ver como as coisas estão e quando vejo estou tomando o lugar da professora. Já aviso para elas, porque é chato fazer isso, mas eles já sabem. Às vezes, quando fico sabendo que algum professor vai atrasar, corro e cubro a ausência até ele chegar. Eu me transformo dentro da sala de aula.

O que o Greenwich trouxe de novidade?
Fomos os primeiros a ensinar inglês para crianças. Não existia material adequado aqui no Brasil, e nem mercado. Procurei na família as crianças de 4, 5 e 6 anos, buscava os alunos em casa com meu carro para trazer para a escola. Estudei todos os livros disponíveis na época, pegava o livro e colava etiqueta para tirar o escrito. Naquela época, se falasse com um pai que o filho dele ia estudar inglês e ia ver os escritos, eles falavam que atrapalharia na alfabetização. Hoje, pode mostrar tudo. Então eu escondia os escritos e deixava só as fotos. Comecei em 1973, a ensinar inglês para crianças de cinco anos. Hoje, estão todos aí, no mundo, dominando o inglês. Depois passei para três anos. E atualmente as pessoas já sabem que as crianças têm que ter o contato com outra língua desde cedo.

Como se sente sendo a precursora disso na cidade?
Sinto uma alegria muito grande de ver o resultado disso nos meus alunos, e hoje já estou recebendo os netos deles. Hoje, o ensino para crianças é forte e chegamos na frente, porque entramos em muitas escolas de educação infantil. Temos parceiros de 15 anos. Estamos com um produto bilíngue para entregar dentro das escolas chamado Ingles for the future, que vem sendo construído desde que abri a escola. Há dois anos, montei o modelo de uma escola só para crianças, no Vila da Serra, com projeto da Joana Anastasia. Ali recebemos crianças a partir de um ano e meio. Temos um produto chamado Let’s play, que é brincar em inglês, a realização de um sonho. Se tivesse conseguido fazer isso há 45 anos, seria maravilhoso.

Seus filhos atuam em que área?
Logo que o Bruno entrou decidiu abrir uma distribuidora de livros e passou a vender, ele mesmo, os livros para os alunos do Greenwich, porque tínhamos muitos problemas com o material didático. Ele e o mais novo, André, passaram por todos os setores da escola. Já deram aula, foram coordenadores de unidades. Hoje, estão no Greenwich Tours, que tem turismo com programa educacional e de lazer. E tema a GW Travel Boutique que faz viagens sob medida. O André se mudou para São Paulo e comanda o escritório de lá. Qualquer viagem hoje, o que conta é a experiência que você proporciona para quem viaja. O curso de inglês no exterior é dentro de empresas de interesse dos jovens. Na Disney os alunos são recebidos pelos professores do Disney Institut e entram nos bastidores dos parques para conhecer.

Quais os outros programas do
Greenwich?
Temos o corporativo, através do qual capacitamos os funcionários das empresas.

Como enfrentaram a crise?
Já passamos por tantas crises. Uma das piores foi a do Collor, quando ele reteve o dinheiro de todo mundo. Na época nós tínhamos muitas empresas e o telefone tocava só para cancelamento do corporativo. Parecia que estávamos de luto. Perdemos todas as empresas. Depois as coisas melhoraram aos poucos. Nosso corporativo retornou e é bem forte. Este ano também tivemos muitos cancelamentos, mas depois da eleição as coisas estão melhorando. Parece que as empresas estão mais aliviadas. Cada área da empresa é especial, temos que cuidar com muito carinho e atenção. Amo todos os quatro programas, os dois das crianças, o corporativo e o turismo que é vender sonhos.

Você atua muito na área social. Como e quando se despertou para isso?
Quando fiquei sozinha na empresa comecei a olhar para os lados e ver uma coisa que sempre quis fazer e nunca tinha feito até então, que é um trabalho social. Resolvi ensinar inglês para crianças e adultos carentes, mas se falasse isso daria fila na porta. Fui me capacitar para fazer isso. Procurei o Fernando Alves, presidente da Rede Cidadã, e ele me ensinou muito. Me mostrou que tem que saber como fazer, ter planejamento e organização para ajudar. Procurei instituições para ajudar. Fui ao Sicepot porque eles têm um programa para os filhos dos funcionários de fabrica e eles escolhiam os adolescentes e mandavam para nós. Outra empresa foi o CDL, na época com o Nirlando Beirão, e fazíamos com as creches deles. Atualmente, estamos dando aula para as crianças das obras Pavonianas que muito bem estruturada, que tira jovens das ruas e profissionaliza, e está no mundo todo. Fizemos uma parceria com a Universidade Americana que está em Belo Horizonte, para no futuro essas crianças poderem continuar os estudos. Estamos desenhando esse projeto. Estamos com o Projeto Bom Aluno da Cláudia Ballesteros, que tiram bons alunos das áreas de risco e colocam nos melhores colégios particulares. E atuamos também no projeto Tobe, do Ibmec. Fomos procurados pelos alunos de lá, que atuam com jovens da Rede Cidadã, onde tudo começou. Estou muito feliz. Particularmente ajudo o Padre Fernando, da Igreja de Fátima, com bazar e eventos para arrecadar recursos, e também na Jornada Solidária Estado de Minas.

 


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