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Estado de Minas HISTÓRIA

Estamos vivendo uma nova revolta da vacina?

Onda de desinformação aumenta os casos de doenças na população


postado em 25/04/2019 17:00 / atualizado em 25/04/2019 16:41

Brasil e outros países estão registrando o aumento de mais de três vezes os casos sarampo em relação ao mesmo período de 2018. Segundo a Unicef, a maior causa é a falta de vacinação, pois 169 milhões de crianças não receberam a primeira dose de 2010 a 2017. Desse número, 940 mil estão no Brasil e 2,5 milhões estão no Estados Unidos. 
A diminuição da força das campanhas de vacinação e as
A diminuição da força das campanhas de vacinação e as "fake news" estão fazendo retornar doenças que foram erradicadas. (foto: Adaptado/Ministério da Saúde)

Os órgãos de saúde americanos e brasileiros acusam que há "fake news" proliferando na internet e usuários de redes sociais afirmando que as vacinas não são seguras, impedindo que as campanhas tenham a eficácia desejada. Para combater isso, a cidade de Nova Iorque está impondo multas às pessoas que se recusarem a tomar a vacina tríplice viral para sarampo. A medida tem causado muita polêmica, especialmente entre os judeus ortodoxos que invocam motivos religiosos para não vacinar suas crianças. Esse contexto de falta de confiança nas autoridades se aparenta com um movimento popular que incendiou a cidade do Rio de Janeiro na virada do século XIX para o XX: a Revolta da Vacina. 
A charge da revista O Malho, de 29 de outubro de 1904, parecia prever a revolta que se instalaria na cidade poucos dias depois: nem com um exército, o %u201CNapoleão da Seringa e Lanceta%u201D, como muitos se referiam a Oswaldo Cruz na época, conseguia conter a fúria da população contra a vacinação compulsória.(foto: Leonidas/Acervo Fiocruz)
A charge da revista O Malho, de 29 de outubro de 1904, parecia prever a revolta que se instalaria na cidade poucos dias depois: nem com um exército, o %u201CNapoleão da Seringa e Lanceta%u201D, como muitos se referiam a Oswaldo Cruz na época, conseguia conter a fúria da população contra a vacinação compulsória. (foto: Leonidas/Acervo Fiocruz)

A Revolta da Vacina foi um motim popular que aconteceu entre os dias 10 e 16 de novembro de 1905, na então capital do Brasil, Rio de Janeiro. Ela se deu como uma revolta da população contra a lei que obrigava a vacinação contra a varíola, mas que foi um estopim de uma série de problemas sociais.

Nesse período, com o fim da escravidão e da monarquia, havia um grande número de ex-escravos e imigrantes europeus se encontravam em um movimento migratório em direção ao Rio de Janeiro. Sob forte processo de industrialização, a população da cidade passou dos 522.000, em 1890, para os 811.000 em 1906. Com esse rápido crescimento, a demanda por habitação crescia consideravelmente, de modo que os donos de grandes casarões passaram a dividir seus cômodos, criando pequenos cubículos, que eram alugados para famílias inteiras. Esse foi o surgimento dos cortiços e pensões do início do século.

Quando o presidente Rodrigues Alves assumiu o governo, em 1902, nas ruas da cidade do Rio de Janeiro acumulavam-se toneladas de lixo. Desta maneira, o vírus da varíola se espalhava. Proliferavam ratos e mosquitos transmissores de doenças fatais, como a peste bubônica e a febre amarela, que matavam milhares de pessoas anualmente.

Decidido a sanear e reurbanizar a capital, Rodrigues Alves nomeou o engenheiro Pereira Passos para prefeito e o médico Oswaldo Cruz para Diretor da Saúde Pública. Apesar de necessárias, as obras não foram bem executadas e não houve uma preocupação do impacto social. Ruas foram alargadas e os cortiços foram destruídos, retirando a população pobre de suas moradias, e dando início à favelização dos morros, em condições ainda mais precárias que as anteriores. Como resultado das demolições os aluguéis subiram de preço, deixando a população cada vez mais indignada. 

Em paralelo a essas ações, o diretor geral de Saúde Pública Oswaldo Cruz ficou encarregado de realizar o saneamento urbano, com o objetivo de erradicar a febre amarela, a peste bubônica e a varíola. Primeiro, o governo anunciou que pagaria a população por cada rato que fosse entregue às autoridades. O resultado foi o surgimento de fraudes com  "empresários" construindo criatórios desses roedores para receber os recursos. Havia também uma campanha de saneamento, onde as casas eram invadidas e vasculhadas sem nenhum esclarecimento. 

No ano de 1904, o governo instituiu a lei que fazia com que a vacinação fosse obrigatória, apesar da maioria da população ser contrária. Em conjunção com a lei, Oswaldo Cruz trouxe uma regulamentação ainda mais problemática. O governo passava a exigir comprovantes de vacinação para que as pessoas pudessem matricular seus filhos nas escolas, iniciar novos empregos, viajar, se hospedar na cidade e até mesmo se casar. Quem se negasse a ser vacinado seria multado.

Havia muitos boatos absurdos em torno da vacinação. Um deles dizia que quem se vacinava ficava com feições bovinas, já que havia líquido de pústulas de vacas doentes na composição química da vacina. Além disso, integrantes de classes mais abastadas se recusaram a deixar que vacinassem suas filhas e esposas, pois ficariam "partes a mostra" dos seus corpos para os agentes de saúde. Por fim, a imprensa não perdoava Oswaldo Cruz, ironizando a eficácia da vacina por meio de charges cruéis.
Charges depreciativas das ações de Oswaldo Cruz o tornaram muito impopular.(foto: Acervo Fiocruz)
Charges depreciativas das ações de Oswaldo Cruz o tornaram muito impopular. (foto: Acervo Fiocruz)
Quando a proposta de vacinação obrigatória de Oswaldo Cruz chegou às mãos da imprensa, o povo iniciou a maior revolta urbana do Rio de Janeiro até então. Espalhando-se por vários bairros da cidade, o conflito envolveu uma violenta repressão policial. A revolta popular teve o apoio de militares que tentaram usar a massa insatisfeita para derrubar, sem sucesso, o presidente Rodrigues Alves. Nos seis dias de revolta, 945 pessoas foram presas, 110 feridas, 30 mortas e mais 461 deportadas para o Estado do Acre.

De fato, a falta de tato do governo no esclarecimento acerca da vacina e o contexto de higienização urbana levaram a população a se revoltar, causando um dos principais conflitos populares da história do Brasil. A Lei da Vacina Obrigatória teve seu texto modificado, tornando o uso da medicação facultativo. Em 1908, o Rio foi atingido pela mais violenta epidemia de varíola de sua história, e a população correu para ser vacinada, em um episódio avesso à Revolta da Vacina. Pouco tempo depois, a varíola estava erradicada do país. Eventos como esse demonstram cada vez mais a importância de se conhecer a História para que os erros do passado não se repitam.
 
Artigo de História e Atualidades do Percurso Pré-Vestibular e Enem


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