Publicidade

Estado de Minas ATUALIDADES

A maldição do petróleo


postado em 27/06/2015 14:13 / atualizado em 29/06/2015 12:59

Os países com grandes reservas de petróleo enfrentam um paradoxo. Ao mesmo tempo em que é desejável ter um recurso tão valioso, a abundância de reservas pode levar ao desprezo em relação a outras formas de produzir riqueza.

O dinheiro do petróleo tende a formar ou ajudar regimes autoritários. As divisas obtidas com o petróleo costumam ser muito elevadas. Essa distorção gera dois efeitos diretos, conhecidos como “doença holandesa”. O petróleo acaba drenando os investimentos e a mão de obra de outros setores. Além, disso, há uma valorização da moeda local, que barateia as importações. Alimentos, roupas e máquinas produzidos internamente acabam ficando mais caros e as empresas fecham as portas. Tudo isso aconteceu na Holanda, que passou a exportar gás natural nos de 1970. O resultado final é que, com a agricultura e as fábricas sendo afetadas, a economia fica mais dependente do petróleo. Na média, quando se olha para a participação do Estado na economia, em países exportadores de petróleo o Estado controla uma fração do PIB 50% maior que em outras nações. Essa concentração gera um desequilíbrio de poder, em que os governos se tornam ricos e poderosos demais na comparação com os seus cidadãos.

Plataforma petrolífera no mar Cáspio.(foto: (FNA/Divulgação))
Plataforma petrolífera no mar Cáspio. (foto: (FNA/Divulgação))
 

Quando há uma alteração para baixo no preço do petróleo os países que dependem dele sofrem uma rápida mudança na política externa. Quando havia muito dinheiro, os governantes mostravam menos cooperativos com outros países e eram avessos às organizações internacionais. Eles sentiam que não precisavam obedecer às regras nem demonstrar para os demais que seus países ofereciam um ambiente seguro para os investidores de outras regiões. Na percepção de mundo deles, não havia interesse em atrair investimentos. Com a mudança do cenário esses países são obrigados a mudar de postura.

Outro ponto interessante a ser destacado são os gastos militares. Há uma forte relação entre receitas do petróleo e militarização. Países ricos nesse recurso natural gastam muito dinheiro ampliando sua estrutura bélica. Quanto mais eles acumulam, mais imprudentes ficam em relação às decisões sobre seus gastos militares, e esse é um dos sintomas da maldição do petróleo. A descoberta de reservas também costuma ser usada para alimentar o sentimento nacionalista, o que justificaria o investimento em armas para proteger a nova riqueza do país.

Sistema de defesa de mísseis russos das forças armadas do Irã: militarização em detrimento do desenvolvimento social e econômico.(foto: (FNA/Divulgação))
Sistema de defesa de mísseis russos das forças armadas do Irã: militarização em detrimento do desenvolvimento social e econômico. (foto: (FNA/Divulgação))
 

Para escapar dessa maldição é importante ter uma empresa petrolífera altamente profissional, que não seja administrada por políticos. Também é preciso impedir uma excessiva intervenção estatal, como a que tem acontecido recentemente no Brasil. Outra forma de se precaver é estimular setores diferentes da economia, para reduzir a dependência do petróleo. Nações com múltiplas fontes de renda são capazes de contornar com mais facilidade momentos como este, de queda de preço dos hidrocarbonetos.

Sérgio Limonta Barbosa é professor de História do Percurso Pré-vestibular e Enem.

 

Fonte: ROSS, Michael. The Oil Curse. 2012.

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade