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Estado de Minas

Cotistas têm notas menores pela primeira vez em 5 anos na UFMG

Pontuação de corte de calouros que usaram ação afirmativa foi menor que a necessária para a ampla concorrência em todos os cursos. Para educadores, isso indica sucesso do sistema


postado em 17/02/2017 06:00 / atualizado em 17/02/2017 07:56

(foto: Arte EM)
(foto: Arte EM)
Pela primeira vez em cinco anos, desde a implantação da Lei das Cotas, os alunos que usaram a ação afirmativa para entrar na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) tiveram pior desempenho que os estudantes da ampla concorrência. Na edição 2017 do Sistema de Seleção Unificada (Sisu), a nota de corte dos cotistas em todos os cursos – a pontuação mínima para os candidatos serem aprovados – foi menor que a dos calouros não-cotistas. Ou seja, não fosse a ação afirmativa, nenhum desses alunos entraria na universidade mais disputada do país este ano.


Em medicina, a diferença da nota de corte da ampla concorrência com a dos cotistas foi de 60 pontos. A pontuação mais baixa foi dos alunos da modalidade 1 (os que cursaram o ensino médio integralmente em escola pública e se declararem negros, pardos ou indígenas, com renda familiar mensal de até 1,5 salário mínimo per capita). O curso teve a maior nota mínima de toda a UFMG – foram necessários 811,7 pontos para garantir uma cadeira na modalidade ampla concorrência. É dele também o primeiro lugar geral da instituição, com 857,64 pontos. Em ciências econômicas, a diferença foi de quase 100 pontos. Enquanto pela ampla concorrência o mínimo foi de 769,66 pontos, na modalidade 1 foi preciso pelo menos 679,1 para ser aprovado.

O pró-reitor de Graduação da UFMG, Ricardo Takahashi, pondera que a diferença entre notas de corte de cotistas e não-cotistas varia entre 5% e 10%. “Trata-se de uma diferença pequena na nota de ingresso, que não vem se traduzindo em diferença de desempenho”, afirma. Ele ressalta que, até o momento, estudos feitos pela instituição não mostram qualquer distinção no desempenho acadêmico de alunos que entraram por uma modalidade ou outra durante os quatro ou cinco anos de faculdade.

Em anos anteriores, os cotistas tiveram desempenho igual ou superior ao dos candidatos da ampla concorrência no ingresso para vários cursos. A política de cotas ampliava a chance dos estudantes de escola pública em cursos tradicionais e muito concorridos, como medicina, direito, arquitetura e urbanismo e comunicação social. Mas, em outros houve notas bem altas, mostrando que esses alunos passariam independentemente de ação afirmativa. No primeiro ano, por exemplo, a nota de corte deles superou o dos alunos que entraram pela ampla concorrência em física (diurno), enfermagem e ciência da computação.

Na seleção deste ano, os cotistas só superaram os demais concorrentes em duas modalidades de dois cursos. A nota máxima de biblioteconomia foi de cotista da modalidade 4 (alunos que cursaram o ensino médio integralmente em escola pública e que tenham renda familiar mensal superior a 1,5 salário mínimo per capita): 741,96. Na ampla concorrência, a maior nota foi 721,24. Em sistemas de informação, a maior nota também foi na modalidade 4: 784,50 – a nota máxima de quem não entrou pela política de cotas foi 772,10.

Para Ricardo Takahashi, as cotas estão cumprindo seu papel de inserção dos alunos da escola pública. “A ideia de cotas só faz sentido se a exigência para ingresso por meio delas for um pouco menor que a exigência para ingresso pela ampla concorrência. Ao que parece, quando as cotas chegaram a 50% do total de vagas, em 2016, elas efetivamente passaram a cumprir esse papel, que não estava completamente atingido com os patamares menores de reserva de vagas. De 2016 para 2017 (anos em que o percentual de reserva de vagas foi de 50%) a diferença é pequena”, diz.

Gerente pedagógico do site Descomplica, um curso on-line de preparação para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), Maurício Martins concorda. De acordo com ele, quando a nota das cotas é maior que a da ampla concorrência, a ação afirmativa não está atendendo o objetivo para o qual foi criada, de possibilitar a inserção no ensino superior de quem não teve acesso à melhor formação. “A definição das cotas é diminuir as distorções, aumentando a possibilidade dos alunos que não conseguem concorrer nas mesmas condições”, diz. Ele afirma que não conhece quaisquer outros casos de cotistas que têm desempenho melhor que os demais candidatos. “A média de quem usa o benefício é infinitamente menor para entrar em outras universidades”, relata.

Disputa mais acirrada

A explosão da pontuação necessária para entrar na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) é um dos pontos que chamam a atenção na edição 2017 do Sistema de Seleção Unificada (Sisu). Em 2013, quando a Federal ainda adotava o vestibular, a menor nota dos cotistas em medicina, por exemplo, foi 709,04 e dos não-cotistas, 685,3. No Sisu 2016, o mínimo necessário para se tornar calouro já havia saltado de 750,02 para quem usa a ação afirmativa e 805,74 para os outros estudantes. Em 2017, a nota de corte aumentou 1,6 ponto e seis pontos, respectivamente. O pró-reitor de Graduação da UFMG, Ricardo Takahashi, destaca que o aumento em relação a 2013 ocorreu instantaneamente já em 2014, quando a UFMG aderiu ao Sisu, fazendo o número de inscrições praticamente triplicar em relação ao ano anterior. No mesmo período, o mínimo em matemática saltou 79 pontos entre cotistas e praticamente 44 entre os candidatos da ampla concorrência.

Segundo Takahashi, se por um lado o aumento do número de candidatos, por si, já eleva a concorrência e as notas de corte, por outro, o fato de os candidatos já saberem de antemão suas notas permite visualizar “uma prévia” da nota de corte que será necessária para ingressar em cada curso.

(foto: Arquivo EM - 11/12/1971)
(foto: Arquivo EM - 11/12/1971)
 

NOSSA HISTÓRIA

Vestibular na arquibancada

A UFMG foi a universidade mais concorrida do país nesta primeira edição do Sisu, com 171.825 inscrições para as 6.279 vagas nos cursos de graduação. A disputa explodiu depois que a Federal aderiu ao Sistema de Seleção Unificada. Em 2013, último ano do tradicional vestibular na instituição, o processo seletivo reunia cerca de 80 mil estudantes. Por um número menor, até o estádio do Mineirão foi usado para aplicação das provas, como registrado nesta foto da década de 1970, do acervo do Estado de Minas. A carteira escolar era a arquibancada, com o número do candidato marcado no cimento; a mesa, uma prancheta de compensado. De 1970 a 1977, durante a ditadura militar, o vestibular era feito no Gigante da Pampulha, cuja capacidade para mais de 100 mil torcedores até o início dos anos 2000 foi reduzida para 62 mil depois da reforma. Fosse nos dias atuais, seriam necessários quase três estádios para acomodar tantos candidatos a uma vaga na maior universidade de Minas.

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