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Estado de Minas

Tema da redação do Enem 2014 divide opiniões

"Publicidade infantil em questão no Brasil" causou surpresa e alvoroço em muitos candidatos


postado em 10/11/2014 06:00 / atualizado em 10/11/2014 07:53

Fabrício Guerra gostou do tema proposto pelo MEC(foto: Jair Amaral/EM/DA Press)
Fabrício Guerra gostou do tema proposto pelo MEC (foto: Jair Amaral/EM/DA Press)
No segundo e último dia do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), sem dúvida o destaque ficou por conta da redação. O tema, “Publicidade infantil em questão no Brasil”, causou surpresa e alvoroço em muita gente. No entanto, segundo especialistas e os próprios candidatos que estão acostumados a prestar o exame, a tendência era mesmo tratar dos direitos humanos. Em 2012, o Enem lançou na redação um tema sobre o movimento migratório para o Brasil, enquanto que no ano passado foi a Lei Seca. No câmpus da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas), no Coração Eucarístico, em Belo Horizonte, um dos locais de maior concentração de inscritos na capital, o burburinho era grande após o encerramento das provas.


Enquanto o amigo Rodrigo Geraldo afirmou que a ideia era evasiva(foto: Jair Amaral/EM/DA Press)
Enquanto o amigo Rodrigo Geraldo afirmou que a ideia era evasiva (foto: Jair Amaral/EM/DA Press)
Houve até quem interpretasse de maneiras diferentes, como os amigos Fabrício Guerra, de 21 anos, aspirante a uma vaga para o curso de gastronomia, e Rodrigo Geraldo Olivella, de 31, que quer estudar engenharia mecânica. Enquanto Fabrício aprovou a escolha e escreveu sobre a legislação e iniciativas de autorregulamentação publicitária para as crianças, Rodrigo entendeu de outra maneira e fez um texto sobre a exploração da mão de obra infantil em propagandas, teatro e telenovelas. “Achei o tema bem tranquilo e interessante e comecei as provas exatamente pela redação, porque ela pesa mais e eu estava com a cabeça mais fresca”, explicou Fabrício. Já o amigo disse que esperava outros temas mais polêmicos e atuais como a falta de água, o militarismo, a política ou o vírus do ebola. “Não gostei desse tema. Achei evasivo, dava margem para várias interpretações e não dava para explorar um debate”, frisou.


Paulista de Marília e morando em BH desde 2013, Fernanda Paes, de 19, já garantiu uma vaga em direito em duas faculdades particulares, mas fez o Enem para tentar a UFMG. Assim como boa parte dos candidatos, ela achou as provas de química e física, no sábado, mais complexas, e as de biologia, matemática e geografia, ontem, também complicadas. Assim como a maioria dos inscritos, Fernanda não esperava que fosse escrever sobre um assunto como publicidade infantil. “Mas acho que consegui analisar bem essa questão e falar sobre como a propaganda pode afetar a criança, sua formação, o que pode e o que não pode, e ao mesmo tempo conciliar essa coisa da liberdade de expressão e a proteção à criançada”, destacou.


Bruna Lúcia, de 18, que quer ser farmacêutica, foi uma das primeiras a concluir as provas e a deixar o câmpus da PUC e também acabou sendo surpreendida com o tema da redação. “Acho que ninguém acertou. Nunca iríamos imaginar que uma coisa dessas seria abordada. Os próprios cursinhos estavam trabalhando assuntos bem diferentes dentro da sala de aula. Foi uma pegadinha e sinceramente não sei se consegui desenvolver bem”, lamentou.


MAIS POLÊMICA No câmpus da UFMG, na Pampulha, o tema da redação também virou assunto obrigatório depois das provas e dividiu opiniões. Para Maria Laura Tergilene, de 17, não poderia ter sido melhor. Recentemente, ela fez um trabalho sobre publicidade infantil no curso técnico de gestão empresarial do Sebrae e construiu a argumentação tendo como referência a legislação das propagandas voltadas para as crianças. Muitos candidatos esperavam que o tema fosse relacionado às manifestações de junho de 2013 ou à Copa do Mundo. Foi o caso de Natália Lavínia, de 19, que levou duas horas para fazer a redação. “Prefiro português e redação. Matemática estava bem difícil”, disse, esperando ter uma boa nota para ingressar no Pronatec ou tentar o Fundo de Financiamento Estudantil (Fies).


Mônica Gomes da Silva, de 19, nunca pensou nos impactos da publicidade no público infantil. “Felizmente não é um tema muito difícil, então consegui encontrar uma explicação”, disse. A candidata gostou dos temas abordados na prova de português, com questões sobre blogs e até mesmo o funk. No segundo dia foi bem menor o número de pais que aguardaram os filhos durante as cinco horas e meia de prova. A esteticista Marize Godinho, de 44, manteve-se firme à espera de Michele Godinho, de 18, apesar da longa duração do teste. “Ela é muito dedicada e estuda em uma escola muito boa. Estamos confiantes”, argumentou.

Postura de cidadão

Segundo o professor e coordenador da área de linguagens do Colégio Chromos, Rodrigo Fonseca, a redação do Enem 2014 cobrou uma “postura cidadã do candidato”. Assim como nos últimos anos, o tema abordado – Publicidade infantil em questão no Brasil – teve a ver com direitos humanos e sociais e esteve “dentro do usualmente cobrado no exame”. Fonseca considerou a redação “tranquila” para alunos capazes de desenvolver um texto acerca de questões éticas e cívicas.


Contudo, o professor destacou que estudantes que não se prepararam corretamente e esperavam temas triviais como Copa do Mundo e eleições não tiveram “a mesma condição dos demais e foram capazes apenas de fazer uma redação mediana”. “O Enem não dá mais margem para o candidato apostar em chutes”, diz. Ele comentou que os estudantes poderiam desenvolver os textos com base em práticas publicitárias indutórias, investimentos em educação e também nas relações familiares.

O assunto coloca o mercado publicitário e as entidades de defesa dos direitos da criança em lados opostos. Em abril, o Diário Oficial da União publicou a resolução 163 do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda), que considera “abusiva” a publicidade dirigida ao público infantil e redireciona a comunicação mercadológica para os adultos, fato que não foi bem aceito no meio da publicidade e propaganda. (Marcus Celestino)

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