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Estado de Minas

Cotas levam mais alunos ao exterior

Lei das Cotas leva alunos de escolas particulares a buscar vaga em universidades do exterior. Instituições de ensino estrangeiras estão de olho nos estudantes brasileiros


postado em 30/09/2012 07:13 / atualizado em 30/09/2012 07:18

Stephany Badaró conclui o ensino médio este ano e em 2013 trocará a vida acadêmica no país por um curso de graduação no exterior (foto: Juliana flister/Esp. EM) )
Stephany Badaró conclui o ensino médio este ano e em 2013 trocará a vida acadêmica no país por um curso de graduação no exterior (foto: Juliana flister/Esp. EM) )
A promulgação da Lei das Cotas para as universidades e institutos técnicos federais, reservando 50% das vagas nessas instituições para alunos que tenham cursado todo o ensino médio em escola pública, está aumentando o interesse de estudantes de colégios particulares em fazer a graduação em universidades de renome dos Estados Unidos, Canadá ou em países da Europa. Empresas de consultoria que trabalham no encaminhamento de brasileiros que desejam fazer o curso superior no exterior informam que a entrada em vigor da nova lei se tornou um motivo a mais para que vestibulandos optem pelo sonho de deixar o país e estudar fora.

Segundo Bernardo Cozzi, sócio da empresa de consultoria Daquiprafora e coordenador do escritório de Belo Horizonte, a Lei das Cotas já figura nas conversas sobre o interesse dos vestibulandos mineiros em fazer graduação fora do país. Ele conta que agosto – quando a lei foi aprovada pelo Senado e sancionada pela presidente Dilma Rousseff – foi o mês com maior quantidade de programas fechados. “Para conhecer esse candidato e identificar seu perfil, procuro entender quais são os motivos que o levam a querer estudar fora e quais são seus interesses. A maioria cita a experiência de vida e a formação acadêmica diferenciada. Quando são atletas, falam do incentivo das universidades no exterior. Mas, agora ouço que as cotas estão pesando nessa decisão. Não posso afirmar que é por isso, mas em agosto meu telefone não parou”, conta Bernardo, que acompanha os estudantes por aproximadamente 15 meses, preparando sua apresentação para as instituições estrangeiras.

Entre os estudantes que optaram pela graduação fora do país está Stephany Badaró, de 17 anos, aluna do 3º ano do Colégio Edna Roriz. Ela desistiu do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e se programa para embarcar em 2013 para os Estados Unidos. A adolescente diz que a mãe, receosa com a mudança, sugeriu que ela ficasse, mesmo que só conseguisse passar no curso de relações internacionais em uma faculdade particular, mas que a decisão está tomada.

“Estava estudando forte para o vestibular e tinha condições de passar na Federal, mas a lei tornou o processo ainda mais concorrido, porque quem não faz parte das cotas terá que estudar ainda mais. Acabou que esse foi o empurrãozinho para uma vontade que sempre tive de estudar fora em algum momento da minha vida e tentar um caminho diferente. Fiquei com aperto de deixar de fazer a UFMG, mas acho que estou cheia de oportunidades, mais do que se ficasse aqui”, diz ela.

A disputa mais acirrada por causa das cotas também foi fundamental para que Ana Paula Garcia, de 17, decidisse sair do Brasil e estudar fora. Ela cursa o 3º ano no Colégio Santo Antônio e, preocupada com a concorrência, convenceu o pai – formado em medicina na UFMG – de que seria uma ótima oportunidade fazer engenharia fora do país. “Se eu não passasse este ano, ia ficar ainda mais difícil no ano que vem, porque a lei prevê ampliação gradativa do número de beneficiados pelas cotas. Já estudo bastante, pelo menos quatro horas por dia quando não tenho aulas o dia inteiro, e teria que me dedicar ainda mais”, acredita.

Candidato a uma vaga em ciências da computação, Bernardo Xavier, de 17, diz que a Lei das Cotas foi a gota d’água para sua decisão. Aluno do Colégio Edna Roriz, ele chegou a fazer inscrição para a UFMG, mas desistiu porque acha que o vestibular requer tempo e dedicação. Interessado em estudar na Universidade de Stanford, na Califórnia, ou no Massachusetts Institute of Technology (MIT, em Massachusetts), ele fará os exames do Scholastic Aptitude Test (SAT), equivalente ao Enem, dia 6, mas decidiu encaminhar sua candidatura apenas em 2014, para se preparar melhor. “É um pesar ter que sair do Brasil. Nada como estudar perto de casa, mas as cotas pesaram sim. Como estou buscando universidades mais competitivas, quero fazer um trabalho melhor”.

Bernardo acredita que o que se aprende nas escolas brasileiras é mais do que suficiente para tentar uma vaga em instituições estrangeiras. “Pensei bem e cheguei à conclusão de que se vou passar pelo desgaste do vestibular aqui, para entrar na Federal, tenho capacidade de fazer um curso fora, de melhor qualidade. Não sou a favor das cotas porque elas acabam discriminando também. O ideal seria melhorar o nível dos alunos, em vez de piorar o nível da faculdade.”

Bernardo Xavier está de olho em uma vaga na Universidade de Stanford, na Califórnia, ou no disputado MIT de Massachusetts(foto: Juliana flister/Esp. EM)
Bernardo Xavier está de olho em uma vaga na Universidade de Stanford, na Califórnia, ou no disputado MIT de Massachusetts (foto: Juliana flister/Esp. EM)
OPORTUNIDADES LÁ FORA O consultor Bernardo Cozzi, que se formou em administração e marketing pela Carson Newman College, no Missouri, nos EUA, diz que outro motivo para buscar a formação acadêmica no exterior é a qualidade das universidades. Na América do Norte há pelo menos 80 universidades dos EUA e do Canadá melhor ranqueadas que a Universidade de São Paulo (USP), a melhor do país de acordo com listas internacionais.

“O mineiro era acostumado a crescer pensando na UFMG. Saía só para estudar em Viçosa ou em Lavras. Quando percebe que pode ter nível acadêmico de mais qualidade, com a referência de vida além dos estudos, com quase o mesmo custo que tem no Brasil de moradia, alimentação e universidade particular, o olho já começa a brilhar”, diz.

Ele informa que universidades estrangeiras interessadas em alunos de alto nível já garimpam estudantes por aqui e afirma que os alunos das melhores escolas de BH têm condições de trilhar esse caminho. Os atletas ainda têm chances de conseguir bolsas vantajosas nas instituições de ensino.

“Os custos seriam muito altos não fossem as bolsas. Isso se aproxima da nossa realidade. Quando os pais calculam os gastos que têm com os filhos e avaliam quanto custaria um curso de medicina numa universidade particular, percebem como é viável fazer o curso no exterior. Além de vantagens como o fato de o aluno não precisar definir o curso antes de entrar, fazendo um ano de disciplinas eletivas, e de poder trabalhar dentro do câmpus,” completa Bernardo.

Atleta de natação do Minas e aluna do 3º ano do Colégio Pitágoras Júlia Vido, de 18, se encantou pelos câmpus americanos quando visitou a irmã numa universidade da Louisiana, antes mesmo de entrar no ensino médio. “O mínimo que eu quero aqui é a Federal, mas teria de parar de nadar para poder estudar lá porque os horários não batem. Nos Estados Unidos, poderei conciliar, já que as universidades estimulam o atleta. Não é só o estudo, tem toda uma estrutura e mais a experiência de vida”.

Como ingressar em universidades dos Estados Unidos e Canadá

>> Procurar uma consultoria especializada para identificar o interesse e o perfil do aluno, relacionando as universidades que melhor atendam as expectativas do estudante

>> Reunir o histórico escolar do ensino fundamental e do ensino médio e outros documentos acadêmicos. Se for atleta, apresentar currículo esportivo, ranking e vídeos. Todos os alunos preenchem formulários acadêmicos das universidades

>> Os candidatos são submetidos a uma prova de acesso, o Scholastic Aptitude Test (SAT). Nessa etapa, fazem exames de interpretação de texto, matemática e redação (tudo em inglês). Algumas universidades pedem o SAT 2: avaliação de língua estrangeira e outra matéria entre física, química, matemática ou literatura (todas em inglês)

>> Outra avaliação extremamente importante é o Test of English as a Foreign Language (Toefl): prova de proficiência em inglês

>> A última etapa consiste em redações específicas, cartas de recomendação, formulários de atividades extracurriculares e entrevistas nas universidades

>> O custo médio para estudar no exterior é de US$ 50 mil ao ano. As consultorias negociam bolsas para atletas (que variam entre 70% a 100%) e para os demais (chegando até a 40%).

>> No câmpus, os estudantes têm direito a moradia, alimentação e estudos. Ainda podem trabalhar, ganhando cerca de US$ 400 por três horas diárias de jornada

>> As consultorias cobram de R$ 8 mil a R$ 10 mil para o trabalho de 15 meses

>> Quem se forma no exterior deve validar o diploma na volta ao Brasil. O processo é feito diretamente nas universidades públicas que ministrem curso de graduação reconhecido na mesma área de conhecimento ou em área afim

>> Valores e prazos para a validação dependem de cada instituição, que, ao avaliar a equivalência do curso feito fora do país, pode exigir do candidato exames de complementação

>> Os alunos de medicina devem se submeter ao Exame Nacional de Revalidação de Diplomas Médicos expedidos por universidades estrangeiras (Revalida), aplicado anualmente pelo Instituto Nacional de Pesquisas Educacionais (Inep)

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