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Estado de Minas

Autor premiado é banido de vestibular em Minas

Pais e professores de cursinhos de Viçosa consideram livro de Dalton Trevisan impróprio para candidatos a uma vaga no Coluni. Acadêmicos e estudantes protestam contra medida


postado em 05/09/2012 06:00 / atualizado em 05/09/2012 07:47

Coluni, em Viçosa, foi eleito o melhor colégio público do país de acordo com o Enem 2011. Alunos prometem fazer moção de repúdio na segunda(foto: Beto Magalhães/EM/D.A Press - 14/9/11)
Coluni, em Viçosa, foi eleito o melhor colégio público do país de acordo com o Enem 2011. Alunos prometem fazer moção de repúdio na segunda (foto: Beto Magalhães/EM/D.A Press - 14/9/11)


O livro Violetas e pavões, do autor curitibano Dalton Trevisan, dividiu alunos, pais e professores de Viçosa, na Zona da Mata mineira, e se tornou o personagem da discórdia do vestibular do Colégio de Aplicação da universidade federal da cidade, o Coluni. A obra constava no edital do processo seletivo como leitura obrigatória para a prova de português e literatura, mas foi banida do exame depois dos protestos de pais, docentes de cursinhos preparatórios e até de instituição religiosa.

A coletânea de 22 contos, publicada em 2009, é apresentada bem ao estilo do escritor, com linguagem picante, diálogos incomuns e muito erotismo, e narra um universo de crimes, sexo e drogas, o que chocou os moradores de Viçosa, levando pais a proibirem a leitura e professores se recusarem a trabalhar o tema em sala de aula. A decisão foi tomada em reunião do Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão (Cepe) da Universidade Federal de Viçosa (UFV), ocorrida na segunda-feira. O comunicado sobre a retirada do livro foi publicado ontem na página do Coluni e causou revolta em professores e estudantes da instituição.

Diretora de um cursinho, Lúcia Duque Reis conta que havia decidido não trabalhar o livro em sala de aula. “É uma coisa absurda para crianças de 13 e 14 anos. Se fosse educativo, tudo bem, mas é um linguajar sujo, debochado”, diz. “Esses temas são trabalhados em aula, mas não da forma como é escrito no livro. Não estamos fugindo do assunto, mas essa não é a maneira correta de o aluno aprender sobre sexualidade. Não somos contra o que ele diz, mas a forma como diz.”

Até o reverendo Elben Lenz César, da Igreja Presbiteriana, se manifestou. “Aquilo é uma agressão. Esses meninos são adolescentes ainda. Mandei até uma carta para a reitora”, diz. O designer gráfico Altamiro Soares Saraiva Filho, de 54 anos, pai de uma aluna de 15, candidata a uma vaga no Coluni, diz que ficou chocado quando a filha leu para ele trechos do livro. “Mandei-a parar”, conta. “Não sou contra esse tipo de leitura e quem quiser comprar que compre. Mas impuseram aos menores ler um livro pornográfico. Na internet tem essas situações, mas podemos evitar em casa o acesso dos filhos. Minha filha ficou indignada, ela nunca viu esses termos”, relata.

Entre os alunos e ex-alunos do Coluni e professores do colégio e da UFV a reação também é de indignação, mas pela retirada do livro. Os estudantes organizam uma moção de repúdio à decisão do Cepe. “O Coluni é conhecido pela liberdade de expressão dos alunos religiosa e sexual. Isso é privar os adolescentes de uma leitura que está se tornando um clássico da contemporaneidade. São questões do cotidiano que não adianta esconder. Não adianta falar que meninos de 14 anos não ouviram falar sobre isso”, diz o universitário Fagner Toledo, que se formou no colégio.

Docentes

Capa do livro proibido no processo seletivo(foto: Reprodução/Editora Record)
Capa do livro proibido no processo seletivo (foto: Reprodução/Editora Record)
Segunda-feira, os professores se reúnem para decidir se vão interpor recurso junto ao Cepe ou se farão moção de repúdio também. A professora de língua portuguesa do Coluni Renata Rena Rodrigues diz que a escolha do livro se deu em função da atualidade dos temas. Ela afirma que o conselho tomou a decisão baseada em relatos da reitoria e consultou a banca responsável pelo exame de seleção apenas informalmente. “Não é à toa que o Coluni é o melhor colégio público do Brasil, pela pluralidade e o trabalho de respeito à diversidade, com discussão dos problemas atuais do mundo. Acreditamos que o adolescente pode abstrair as informações das quais não precisa e formar a opinião dele. O objetivo é explorar a temática, não incentivar as práticas.”

A professora observa que há apenas alguns contos com linguagem mais forte, mas é preciso uma leitura atenta: “Quem ler só alguns trechos deslocados vai realmente se assustar e perguntar que banca é essa”. “Foi uma decisão unilateral do Cepe e enxergamos isso como censura.” O Departamento de Letras está formulando documento para questionar o conselho sobre em qual parecer se basearam para retirarem a obra do processo. Renata garante que a polêmica está só começando.

Nas redes sociais também já há manifestações. A professora Maria Carmen Aires Gomes, chefe do Departamento de Letras da UFV, postou em seu perfil no Facebook: “O meu post hoje será mais uma vez de protesto. Desta vez, manifesto total repúdio à ação autoritária (e nem tão surpreendente) do Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão (Cepe) da Universidade Federal de Viçosa, pela retirada do livro Violetas e Pavões, de Dalton Trevisan, da prova de seleção do Coluni (aquele eleito o melhor colégio do Brasil, justamente porque seus alunos são críticos, e os professores extremamente capacitados), sem se importar com a legitimidade acadêmica de tal objeto literário e muito menos com a importância de tão renomado autor”. Ela se diz ainda perplexa, porque a decisão não passou pelo crivo do departamento e nenhum professor foi consultado.

Pressão

O pró-reitor de Ensino da UFV, Vicente Lelis, admite que a pressão da comunidade levou o Cepe a tomar a decisão, mas garante que os professores da universidade foram consultados. “Temos que reconhecer a qualidade da obra e não podemos tolher a liberdade de expressão e de pensamento. A universidade não é contra a discussão do tema, mas o conselho entende que deve ser tratado pelos docentes do ensino fundamental com os textos que eles escolherem”, diz. A Editora Record foi procurada, mas não respondeu.

 

 

Saiba mais

O Vampiro de Curitiba

Nascido em Curitiba, em 14 de junho de 1925, Dalton Trevisan é um dos mais conhecidos contistas brasileiros contemporâneos. Com um texto direto e de apelo popular, iniciou-se na literatura na década de 1940. Transformou as ruas e pontos conhecidos de sua cidade em cenário para histórias e personagens. Sua obra mais famosa é o Vampiro de Curitiba, publicado em 1964. Curiosamente, pelo fato de nunca se deixar fotografar e se recusar a dar entrevistas, passou a ser chamado de o Vampiro de Curitiba, herdando o nome do personagem, um homem à procura de sexo e afeição. Este ano, foi agraciado com o Prêmio Camões, maior reconhecimento que pode ser concedido a um autor da língua portuguesa.

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