
Entre as duras tarefas diárias, que incluíam limpar bem os banheiros, varrer a poeira do chão e entregar documentos na empresa em Itapecerica, cidade do Centro-Oeste mineiro, a 178 quilômetros de Belo Horizonte, Jonas D’Alessandro, de 24 anos, se permitia mergulhar na narrativa atraente e viajar junto aos personagens dos livros de Machado de Assis e José de Alencar. “Sou apaixonado por literatura. Meu sonho era fazer faculdade de letras e lutei por isso”, conta. Órfão de pai, com a mãe semianalfabeta que tinha três filhos para criar, jamais poderia contar com o auxílio da família. “Juntei cada moeda que tinha e vim para Belo Horizonte. Trabalhei numa livraria e depois fiquei seis meses num cursinho, até passar na UFMG”, conta. O bônus de 10% na nota, por ter estudado a vida inteira nas escolas públicas de Itapecerica, não foi decisivo para coroar seus esforços. “Passei em nono lugar. Mesmo sem o bônus, conseguiria uma vaga no curso noturno”, calcula.
Jonas entrou na primeira turma beneficiada pelo sistema de bônus e cotas da UFMG em 2009, e se forma no ano que vem. Num suspiro, relembra todas as dificuldades e percalços. Mas não derrama uma lágrima. Talvez a frase do ídolo Machado de Assis, que escreveu que “lágrimas não são argumentos”, traduza um pouco a dureza com a qual precisou se revestir para enfrentar a vida. A história de Jonas ilustra outra realidade que demonstra como o sistema de bônus tem sido limitado e não consegue contemplar os que realmente necessitam de políticas afirmativas para ingressar no ensino público superior. De acordo com a UFMG, 33,27%, das vagas da universidade foram ocupadas por pessoas que receberam bônus. Porém, somente 10,26% precisaram desse incentivo social para passar. Ou seja, dois terços dos aprovados são alunos que passariam mesmo sem benefícios destinados a incluir minorias e estudantes de escolas públicas.
E esse índice tem caído. Em 2009, primeiro ano dos bônus, a proporção de candidatos que precisaram do mecanismo para ser aprovados na universidade foi maior, chegando a 12,53%. Porém, de acordo com a pró-reitora de Graduação da UFMG, Antônia Vitória Aranha, a entrada dos beneficiários do bônus elevou significativamente o número de egressos do ensino público na universidade. “A escola pública era sub-representada. Em 2008, menos de 30% dos alunos eram provenientes do ensino público. Nos vestibulares de 2009 a 2012, época de vigência dos bônus, o íncide subiu para 45%.”
Uma das soluções que a pró-reitora propõe para reduzir a fuga dos candidatos com direito a bônus é fazer uma campanha, com o apoio do governo de Minas, para divulgar a universidade e as formas de ingresso. “Temos que quebrar esse imaginário de que a UFMG é uma torre de marfim e que os alunos de escolas públicas não conseguem passar. Eles não podem deixar de tentar”. Além da alta concorrência do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), Antônia Aranha avalia que programas de inclusão no ensino superior privado, como o Prouni e o Fies, podem estar colaborando para a queda de candidatos. “Aumentamos vagas noturnas, para facilitar a vida do aluno que trabalha. Do ponto de vista das políticas, não há explicação. Nossa expectativa era de que houvesse um boom de matrículas”, conta.
DESPREPARO Para a diretora da Faculdade de Educação (FAE) da UFMG, Samira Zaidan, o que se observa de forma geral nos candidatos às universidades públicas que fizeram ensino médio em instituições federais ou estaduais é mesmo um grande despreparo. “Que há defasagem, disso não há nenhuma dúvida. De maneira geral, podemos analisar como sendo uma dificuldade do ensino médio. O tipo de prova do vestibular também atrapalha. Muitas vezes são provas muito teóricas ou que exigem conhecimentos aprofundados”, afirma. Além disso, as condições de trabalho dos professores, segundo ela, são melhores na rede particular. “O salário dos professores, as condições de trabalho e o que é oferecido é muito superior na escola privada. Isso sem contar o acesso à cultura que o alto poder aquisitivo propicia”, disse.
É PRECISO MELHORAR
Diante dos especialistas e da cúpula das universidades, que culpam a falta de qualidade do ensino médio pela baixa aprovação nos sistemas de cotas e por desencorajar a competição, mesmo com a ajuda de bônus no vestibular, a Secretaria Estadual de Educação de Minas Gerais admite que a melhoria do ensino público é um “grande desafio”. A pasta informa que o problema não é exclusivo do estado, citando um relatório da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), que alerta que o ensino médio “merece alta prioridade e seus objetivos e funções devem ser redefinidos para o século 21”. No estado, segundo a secretaria, as recomendações da Unesco começaram as ser colocadas em prática este ano. “Está sendo desenvolvido em 11 escolas da Região Norte (de Belo Horizonte) o Reinventando o Ensino Médio, que prevê maior articulação entre os conhecimentos oferecidos em aula e a criação de oportunidades para os jovens. O foco é a criação de áreas de empregabilidade.”
Outra estratégia seguida pela secretaria para tentar melhorar o nível dos estudantes é a formação continuada dos profissionais da educação. “Esse objetivo está sendo perseguido por meio da Magistra, escola de desenvolvimento profissional, inaugurada no inicio deste ano. A instituição está promovendo a capacitação permanente dos profissionais da educação, garantindo melhores condições para a prática do magistério.”A Secretaria de Educação rebateu a informação de que o número de alunos de escolas públicas aptos a bônus tem se reduzido na UFMG, alegando que das 6.607 vagas da federal neste ano, 2.122 (32,12%) foram preenchidas por alunos que pelo menos cursaram o 3º ano do ensino médio em escolas públicas. A secretaria não quis comentar o desempenho fraco dos candidatos a cotas da Uemg, alegando não dispor desses dados.
