O fim das turmas de nível médio divididas por ênfase em áreas do conhecimento – ciências humanas, exatas ou biológicas – tem como pano de fundo a reformulação da última etapa da educação básica, iniciada este ano na rede estadual de Minas Gerais. Além da retomada do currículo tradicional, com 12 disciplinas, a Secretaria de Estado de Educação (SEE) criou um projeto voltado para alunos que não estão focados apenas nos vestibulares, mas têm interesse na formação profissionalizante. O “Reinventando o ensino médio” será implantado como piloto, esta semana, em 11 escolas de Belo Horizonte.
O projeto prevê a criação de um horário extra de estudos para incluir matérias voltadas para o mercado de trabalho. Nas 11 escolas onde o programa será testado, além das disciplinas tradicionais do currículo básico do ensino médio (matemática, português, física, química etc.), os alunos terão aulas no 2º e 3º anos com foco em três áreas: turismo, comunicação aplicada e tecnologia da informação. Todas as unidades de ensino incluídas na nova proposta são da Região Norte de Belo Horizonte. Entre elas, está a Escola Estadual Paschoal Comanducci, no Bairro Jaqueline, que reuniu diretores e professores nos últimos dias para estudar as mudanças.
Na instituição de ensino, com mais de 200 alunos nos dois anos finais do ensino médio, foi definida a criação de um sexto horário de estudos e as aulas, que antes eram encerradas às 11h30, se estenderão até as 12h20. “O projeto contribui para a permanência dos alunos por mais tempo na escola e ainda abre possibilidade de contato das turmas com áreas de emprego importantes para o futuro dos jovens”, explica o diretor Ermelindo Martins Caetano. Segundo ele, o projeto vai “aposentar de vez” o modelo de ênfase em áreas do conhecimento na unidade de ensino. “Não vamos precisar fazer transição e, a partir deste ano, todas as oito turmas de 2º e 3º anos já começarão com o novo currículo”, comemora.
Alternativa de formação
Caso a iniciativa seja aprovada nas 11 escolas piloto, ela será estendida a outras 100 unidades do interior de Minas no ano que vem. A partir daí, os estudantes poderão escolher entre 16 opções de formação, como webdesign, reciclagem, manejo de recursos naturais, recreação cultural e empreendedorismo e gestão. O projeto é visto como uma das apostas para reduzir as taxas de evasão escolar. De acordo com levantamento do governo estadual feito no último ano, 42% dos estudantes que concluem o ensino fundamental em Minas não chegam ao nível médio e 40% dos que estão nessa etapa da educação abandonam as salas de aula ao longo dos três anos do curso.
“O programa procura dar um novo significado para o ensino médio, garantindo conteúdo necessário para os que pretendem seguir para a universidade e dando uma chance de pré-profissionalização que os prepare melhor para o mercado de trabalho. Temos que pensar em alternativas, pois os jovens passam oito horas por dia dentro de uma lan-house e não querem passar uma manhã na escola”, diz a secretária de Estado de Educação, Ana Lúcia Gazzola.
Três perguntas para...
Eduardo Mortimer, especialista em educação e professor da Faculdade de Educação da UFMG
1) O projeto de ênfase curricular no ensino médio em Minas deu errado?
Há uma questão de fundo a ser analisada: o ensino médio deve ser uma etapa da educação básica ou deve oferecer uma diferenciação para o estudante? Em alguns países desenvolvidos, os dois anos finais da educação são voltados para a especialização. No Brasil, nunca se deu importância para os jovens que vão parar naquele grau de ensino. A educação é organizada em função do aluno que vai disputar o vestibular. O projeto de ênfase não deu certo em Minas porque o estado adotou o modelo de maneira isolada e provas como o Enem são nacionais e continuam com programas carregados de disciplinas.
2) O sr. apoiou a implantação da ênfase no currículo do ensino médio em 2009?
Apoiei, porque ela assumiu o caráter de preparação para os cursos superiores apenas nos dois últimos anos do ensino médio. Até o 1º ano, o aluno teria formação como cidadão, com conhecimento contextualizado, como ocorre em países desenvolvidos. A partir daí, a concentração seria em certas disciplinas para aprofundar o conhecimento de acordo com o interesse do aluno. Mas, na prática, isso não foi observado. Considero positivo que todo o país seja submetido à mesma prova, como o Enem, pois ela dá dimensão nacional ao currículo da educação. O problema é que a maioria das universidades têm processos seletivos que vão além do Enem. E aí vem uma pergunta crucial: quando os alunos de escola pública se preparam para a segunda etapa do vestibular da UFMG? A rede gratuita não cumpre esse papel.
3) O fim da ênfase curricular e a oferta de mais disciplinas deve melhorar a qualidade do ensino médio?
A escola brasileira passa por uma crise que é a da falta de financiamento e investimentos. É difícil falar em qualidade quando faltam dedicação exclusiva do professor a uma única escola, políticas de valorização da carreira e ações que favoreçam a maior permanência do alunos na escola. Outra questão importante é que acredito que há uma certa resistência às mudanças na escola.
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Minas terá projeto voltado para profissionalização dos alunos
Além da volta do currículo completo, começa nessa segunda-feira em 11 escolas de BH projeto piloto voltado para estudantes interessados em se profissionalizar. Eles terão horário extra
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