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Estado de Minas

Defesa não refuta confissão, mas age para dividir culpa com Macarrão


postado em 06/03/2013 07:07 / atualizado em 06/03/2013 07:11

Se, na condição de goleiro, Bruno Fernandes de Souza já teve nas mãos o resultado de inúmeras decisões, ele entra hoje no salão do júri do fórum de Contagem, na Grande BH, acuado e com o próprio futuro dependendo de seu posicionamento. Principal réu no processo sobre o sumiço e assassinato de Eliza Samudio, o atleta deve ser ouvido nesta quarta e contar sua versão para o caso. Tudo indica que não mais negará a morte. Até porque o balanço do segundo dia de júri não pode ser comemorado pela defesa, especialmente no que se refere ao testemunho da ex-mulher, Dayanne dos Santos, que complicou a situação do acusado: afirmou que Bruno e seu braço direito, Luiz Henrique Romão, o Macarrão, recomendaram que ela mentisse à polícia, indicou que o ex-jogador sabia o tempo todo da trama e que conhecia o policial aposentado José Lauriano de Assis Filho, o Zezé, agora investigado por participação no crime. Já o promotor Henry Wagner, com base no testemunho, afirmou que está preparado para acusar Bruno de estar presente no momento em que Eliza foi entregue a seu executor.


A expectativa, diante dos últimos acontecimentos, gira em torno de o quanto Bruno admitirá sobre sua participação ou conhecimento do crime. Fontes ligadas à acusação ventilaram ontem que o ex-jogador pode estar disposto a dar evidências que indicariam o executor de Eliza, apontado nas investigações como sendo o ex-policial Marcos Aparecido dos Santos, o Bola. Defensores disseram ontem que o cliente está disposto a fazer revelações, mas negaram a possibilidade de confissão, embora com menos ênfase do que na véspera. Hoje, enquanto orientam o testemunho, os advogados manterão os olhos no Tribunal de Justiça, onde pode ser julgado mais um pedido de habeas corpus. Por outro lado, a defesa se movimenta para reforçar a participação de Macarrão no assassinato. Um indicativo de que Bruno não pretende assumir sozinho a condição de mentor e mandante, e de que ainda aproveitaria para dar o troco no ex-braço direito, o primeiro a admitir que a vítima foi levada para a morte com o conhecimento do então chefe.

O depoimento de Dayanne foi prestado longe dos olhos de Bruno, que havia sido levado de volta à Penitenciária Nelson Hungria. Julgada por sequestro e cárcere privado do filho de Eliza, Bruninho, ela indicou que o goleiro e Macarrão agiram em sintonia no que dizia respeito ao destino de Eliza. Reforçando depoimento que havia prestado à polícia a pedido de sua família, Dayanne sustentou que o réu tentou sem sucesso mantê-la afastada do sítio onde estava a vítima.
A mulher confirmou que esteve com Eliza na propriedade e que viu quando Macarrão chamou a ex-amante do goleiro para ir embora. Ainda segundo Dayanne, foi Bruno quem lhe pediu que cuidasse do bebê, depois que a mãe da criança deixou o sítio. Macarrão e o ex-marido a teriam orientado para que negasse o fato à polícia, caso fosse perguntada.

OLHOS ESBUGALHADOS

Dayanne contou que o primo de Bruno Jorge Luiz Lisboa Rosa, então menor de idade, também estava no carro em que Eliza foi retirada do sítio com Macarrão. Segundo suas palavras, o goleiro havia dito que daria um apartamento à ex-amante, e que tudo já estava acertado entre os dois. Dayanne acrescentou que estava presente quando Macarrão e Jorge voltaram à propriedade apenas com o bebê. “Jorge estava com os olhos deste tamanho, esbugalhados. Perguntei onde estava a mãe do menino, mas ele estava assustado e não respondia.” O testemunho é coerente com o primeiro depoimento de Jorge, que afirmou ter presenciado a execução de Eliza.

Dias depois, ao se encontrar com Bruno no Rio de Janeiro, Dayanne teria ouvido do atleta que Eliza estava “armando”, para acusá-lo de sequestro. De volta a Minas, Dayanne teria recebido ligação de Macarrão, informando que a polícia estava atrás dela no sítio. A mulher afirmou ter ido até a propriedade, onde não encontrou ninguém, porque todos tinham sido levados para a delegacia.

Em outros contatos, Macarrão teria passado orientações sobre o que fazer com o bebê Bruninho e avisado que o policial aposentado José Lauriano de Assis Filho, o Zezé, faria contato para dizer para qual delegacia o grupo havia sido levado. O homem, apresentado pelo braço direito de Bruno como “um amigo” do grupo, ligou e passou o telefone da unidade.

Questionada pela promotoria, Dayanne informou ter sentido cheiro de queimado e visto fumaça no sítio, no dia em que Eliza deixou a casa, logo depois que Macarrão e Jorge voltaram com o bebê. Ela afirma que perguntou a Bruno do que se tratava. Ele teria respondido que estavam queimando lixo. Dayanne confirmou, porém, que o lugar apontado pelo primo de Bruno, em reconstituição, não era o espaço destinado à queima de lixo na propriedade. O testemunho reforça a informação de que a mala com os pertences de Eliza foi queimada no dia em que ela desapareceu.

Outras afirmativas de Dayanne que comprometem Bruno dizem respeito ao seu relacionamento com o ex-marido e deste com Bruninho. A ex-mulher admitiu já ter trocado agressões com o companheiro. Sobre a criança, disse que o goleiro quis trocar o nome do menino, porque “não admitia em hipótese alguma que o nome dele fosse dado ao bebê”. As palavras vão na contramão do esforço da defesa, que tentou demonstrar que o sonho do jogador era ter um filho homem e que, por isso, ele não teria motivos para querer se livrar da criança.

O promotor questionou ainda se a carta escrita por Dayanne, afirmando que havia prestado depoimento sob pressão psicológica, foi redigida sob orientação de alguém. Ela respondeu que o advogado Ércio Quaresma, que a representava, foi quem sugeriu que ela escrevesse a declaração. A ré negou, porém, que tenha de fato sofrido pressão ou constrangimento. Dayanne informou também que o advogado foi uma indicação de Macarrão. Questionada, negou saber se Quaresma e Bola seriam amigos há décadas.

A defesa de Bruno minimizou o resultado do depoimento de Dayanne, afirmando que seu testemunho não trouxe fatos novos ao processo. Já o promotor sustentou ter se tratado de uma confissão e afirmou que cruzamentos de telefonemas indicam que a ré recebeu uma ligação do celular do primo de Bruno, originada do local onde Eliza estava sendo entregue para ser executada.

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