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Estado de Minas

Obra discute aspectos financeiros e legais dos Beatles após o fim do quarteto

Livro e revela as fragilidades dos roqueiros mais populares da história


postado em 21/11/2012 08:09 / atualizado em 21/11/2012 08:27

Ringo Starr, Paul McCartney, George Harrison e George Martin durante lançamento do álbum Anthology em 1995(foto: AP Photo)
Ringo Starr, Paul McCartney, George Harrison e George Martin durante lançamento do álbum Anthology em 1995 (foto: AP Photo)

A liderança espiritual de John, o comprometimento profissional de Paul, a quietude mística de George e o ar comedido de Ringo. É mais ou menos nesses termos que o jornalista Peter Doggett, em atividade há três décadas, define os rapazes de Liverpool, que fizeram dos Beatles uma fábrica de sonhos, um espelho do idealismo jovem dos anos 1960 e da liberação da mente por meio de filosofia oriental, música experimental e, sim, de ácido e outras drogas.

Dessas coisas, muita gente já sabe — e até já escreveu sobre. Mas em A batalha pela alma dos Beatles (Nossa Cultura), uma crônica musical de fôlego, o autor reflete sobre os momentos menos divulgados e pesquisados da cronologia da banda inglesa: as crises internas no fim da década de 1960, as ilusões utópicas, a atitude relaxada em relação ao repertório, as carreiras solo levadas com dificuldade e as fraquezas de garotos incapazes de ler um contrato antes de assiná-lo ou terminar um relacionamento sem dar faniquito.

Em pouco mais de 500 páginas, Doggett escreve uma espécie de levantamento crítico e informativo do que aconteceu ao Fab Four após o lançamento do Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band — dos vários discos clássicos de 1967, talvez o mais revolucionário e relevante para a estética roqueira dos últimos anos daquela década. Em 1968, a gravação de The Beatles (o álbum branco) já adiantava rupturas entre Paul e John e certo distanciamento de George e Ringo. Apesar da intensa cobertura da imprensa americana e britânica, o jornalista procura elucidar elementos que receberam tratamento superficial tanto em periódicos da época quanto em outros registros posteriores sobre a banda. 

Criancices e intrigas
No cerne de A batalha… — o que talvez afaste não fãs e atice os beatlemaníacos —, estão as discórdias em torno da divisão dos direitos autorais das canções e das empresas geradas a partir da Apple Corps, empreendimento de pretensões “subversivas”, criado para burlar a cobrança de impostos e servir de exemplo de revolta contra o sistema capitalista. “Tive que lidar com muito material financeiro e legal, do qual, provavelmente, usei 1% nas minhas notas. Processos e ações não são tão interessantes para o leitor comum, mas foram uma parte importante da história. Então, o desafio foi trazer esses objetos e eventos chatos à tona e dar a eles uma dimensão humana, para mostrar que algo que um advogado disse ou que uma cláusula de contrato mostrava teve um enorme impacto nas pessoas por trás dos Beatles”, detalha Doggett, em entrevista ao Correio. 

Além das questões empresariais, que os músicos simplesmente legavam a amigos, o jornalista, na profusão de depoimentos e polêmicas, perfila John, Paul, George e Ringo em suas várias metamorfoses pessoais e artísticas pós-Beatles. “Foi uma história difícil de contar. Como um fã de longa data do grupo, houve vezes em que eu queria intervir na narrativa e dizer a um ou outro dos Beatles para não fazer o que eles fizeram”, revela. 

Sem dúvida, o autor ou qualquer outro aficionado ficaria louco da vida para interferir em episódios como o da mudança temporária de Lennon e Yoko Ono para a casa de Paul McCartney e sua nova namorada, Francie Schwartz, quando eles moravam perto dos estúdios de Abbey Road, em 1968. Um belo dia, os hóspedes notaram um bilhete perto da lareira. Abriram e leram: “Você e sua prostituta japa acham que são grande m…”. Estupefato, o casal vê McCartney aparecer na sala, dizendo: “Ah, isso foi só uma brincadeirinha”.


A BATALHA PELA ALMA DOS BEATLES
De Peter Doggett. Tradução: Ivan Justen Santana. Nossa Cultura, 512 páginas. R$ 69,90.


Quatro perguntas // Peter Doggett

Você faz um exame minucioso dos Beatles nas fases mais difíceis e instáveis. Qual foi a importância de falar sobre assuntos tão delicados?
O livro não faz um favor aos Beatles, sendo eles artistas e seres humanos, ou finge, como muitos livros e documentários fazem, que tudo foi um conto eternamente feliz sobre música e fama. Nada pode tirar o impacto dos discos e o prazer perene que eles ainda dão a milhões de pessoas. Mas, se você remove os aspectos dolorosos da história, tudo o que sobra é mito, o que distorce a realidade. Quis demonstrar que eles eram quatro músicos muito talentosos e, também, como o resto de nós, seres humanos falhos. O que eles fizeram nos Beatles mudou o mundo, mas teve efeitos adversos pelo resto de suas vidas. À maneira de cada um, todos eles passaram pelo calvário durante o término do grupo e desde então lutaram para lidar com o legado que criaram nos anos 1960. 

Quais foram as partes mais desafiadoras da pesquisa?
Provavelmente, o aspecto mais difícil na escrita do livro foi ter a certeza de que tratei todo mundo de maneira justa e igual. Não quis tomar partido — para não cair na armadilha de assumir que uma pessoa (John, Paul ou Yoko) devia ser culpada. Então, fiz um esforço para repassar os acontecimentos do ponto de vista de todos os participantes. Como resultado disso, há momentos em que todos os Beatles emergem como heróis, e outros em que são vilões. Também quis dar um tratamento mais justo a personagens geralmente considerados como bodes expiatórios, como Yoko e Allen Klein, agente da banda no fim dos anos 1960.

E quais foram as descobertas mais férteis sobre a psiquê de cada um deles?
O mais interessante foi a ideia de que mesmo que eles tenham agido como crianças mimadas entre si, cada um deles manteve o conceito de que, juntos, criaram algo importante nos anos 1960, algo que permaneceria e que representaria a natureza humana em seu estado mais idealista. Eles tinham fé na ideia de que paz e amor eram as coisas mais importantes na vida (como em All you need is love e Give peace a chance). E, ao mesmo tempo, tratavam muito mal um a outro. Por último, o fato de que eles sobreviveram juntos à loucura dos anos 1960, o que os ajudou a manter alguma amizade nos anos seguintes, quando teria sido mais fácil simplesmente ter se afastado. 

Por que ler — e escrever — sobre os Beatles é ainda algo tão compulsivo?

Essa história pode ser contada de tantos jeitos, e é eternamente fascinante. Por quê? É quase como um conto de fadas: quatro jovens se juntam e criam algo muito maior do que eles mesmos, e que duraria para sempre. É uma história tão incrível, humana e otimista, que acho que as pessoas têm vontade de abraçá-la e não soltá-la mais, como um livro favorito da infância. De um modo estranho, John Lennon estava certo quando disse, em 1966, que os Beatles significavam mais para os jovens do que Jesus: os Beatles se tornaram quase uma religião, com centenas de acadêmicos (eu incluído!) incansavelmente dando atenção às menores partes da mitologia, da mesma maneira que teólogos ainda discutem cada detalhe da Bíblia.

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