Publicidade

Estado de Minas EMPREGO

Profissionais especializados em mídias sociais são disputados pelo mercado

Não há espaço para amadores, mas para o trabalhador que domina as redes sociais e entende de pessoas


postado em 29/01/2018 14:58 / atualizado em 29/01/2018 15:58

Gutenberg Almeida, coordenador da especialização em comunicação digital e mídias sociais da Una, diz que está cada dia mais complexo trabalhar com redes sociais(foto: Arquivo Pessoal)
Gutenberg Almeida, coordenador da especialização em comunicação digital e mídias sociais da Una, diz que está cada dia mais complexo trabalhar com redes sociais (foto: Arquivo Pessoal)


“Existem muitas oportunidades de trabalho envolvendo mídias sociais e de uma forma mais ampla há muita demanda por profissionais de comunicação digital de uma forma geral. Como as mídias sociais estão acessíveis para um grande volume de pessoas e tem sido cada vez mais adotadas como ferramentas de prospecção e relacionamento para empresas, acredito que o mercado continuará aquecido. Para algumas funções já existe excesso de profissionais, para outras encontrar alguém qualificado e com potencial de crescimento é raro.” A análise é do professor Gutenberg Almeida, coordenador da especialização em comunicação digital e mídias sociais da Una, que reforça: “Mercado em alta atrai a atenção das pessoas, algumas se preparam estudando pela internet, com apoio de livros, fazendo cursos de curta duração ou cursos de pós-graduação como o que eu coordeno. Outras já vão na base da tentativa e erro, utilizando os recursos sem planejamento, sem uma visão ampla de negócios e sem considerar algo fundamental: o comportamento humano.” Segundo ele, sem entender de pessoas, é pouco provável ter sucesso nas mídias sociais. “Outro grande desafio é o senso de urgência de algumas empresas, que pressionam os profissionais a fazer trabalhos que tragam resultados de curtíssimo prazo, o que por vezes leva a soluções e táticas imediatistas que não se sustentam.”

 

"Na minha percepção, mais do que dominar ferramentas e tecnologias, é preciso habilidade de comunicação, visão crítica, capacidade analítica e interesse genuíno por compreender o comportamento das pessoas"

Gutenberg Almeida

 


Ao falar em tecnologia, a primeira ideia é de velocidade. Então, surge a dúvida se a academia consegue acompanhar o mercado. Gutenberg Almeida tem certeza de que é possível: “Para isso, a instituição de ensino precisa estar com o radar ligado e ter flexibilidade curricular para fazer os devidos ajustes. Para 2018, teremos três mudanças na matriz curricular do curso em relação a 2017. Mas fazer isso dá trabalho, é preciso buscar por professores que estejam em sintonia com as demandas do mercado. Muitas vezes, faço o caminho inverso e garimpo profissionais de mercado com potencial para ser professor”.

 

Gutenberg Almeida avisa que está cada dia mais complexo trabalhar com mídias sociais diante de um mercado competitivo. “No cenário ideal, as empresas deveriam ter equipes de mídias sociais, com profissionais especialistas em cada uma das principais áreas: redação, design, métricas, mídia paga e relacionamento. Mas a maioria tem estruturas reduzidas, o que faz com que o profissional se esforce para atender a múltiplas demandas. Na minha percepção, mais do que dominar ferramentas e tecnologias, é preciso habilidade de comunicação, visão crítica, capacidade analítica e interesse genuíno por compreender o comportamento das pessoas.”

 

Para o professor, na disputa por uma vaga de trabalho, os profissionais de comunicação conseguem sair na frente. Os publicitários se destacam pela criatividade, os jornalistas dominam a arte de gerar conversas por meio da produção de conteúdos, os profissionais de marketing têm visão de negócio apurada e sabem identificar as demandas dos consumidores. Já pessoas da área de tecnologia da informação podem apresentar maior capacidade analítica e de integração de softwares. 
Gutenberg Almeida enfatiza que o desejo por se manter atualizado deve estar no DNA das pessoas que desejam atuar de forma profissional em mídias sociais. Mas ele alerta: “Não adianta ter cursos, certificações, milhares de horas assistindo a palestras pela internet se o profissional não testar os canais digitais, plataformas de comunicação e novos recursos. Mais do que saber o que está ocorrendo no mercado, é fundamental saber por que está acontecendo e quais os possíveis impactos das mudanças em seu trabalho e nas estratégias das empresas nas mídias sociais”.

 

Domínio técnico, conhecimento, informação e criatividade estão sempre conectados (foto: Arquivo Pessoal)
Domínio técnico, conhecimento, informação e criatividade estão sempre conectados (foto: Arquivo Pessoal)


ESTÁGIO Em ano de eleição, com menos dinheiro para as campanhas, quem domina as mídias sociais, certamente, será bem requisitado nesse mercado. Para Gutenberg Almeida, “nosso currículo é vivo, feito por cada interação que temos nas mídias sociais. Para despertar o interesse de empregadores e de potenciais clientes (para quem trabalha como freelancer) é imprescindível ter os próprios canais digitais bem cuidados, não precisa estar em todas as mídias sociais, mas nas que escolher precisa ter uma atuação consistente. Outra forma útil, especialmente para quem não tem muita experiência ou está em busca do primeiro estágio/emprego, é fazer trabalhos voluntários ou autorais. Escolha uma ONG para apoiar ou produza conteúdo digital sobre um tema que goste: pode ser sobre orquídeas, robôs, séries de TV, carros, turismo etc. Pode ser sobre qualquer assunto. O importante é saber que nosso portfólio pode valer mais do que diplomas ou certificações.”


Com a #opoderdasconexões, o professor da Una acredita que as mídias sociais sejam um caminho sem volta. Para Gutenberg Almeida, essa área, seja para quem já está no mercado, deseja mudar de setor ou buscar outra formação, é indicada para quem tem noção da importância dos relacionamentos e acredita no potencial da internet: “Estude sobre o comportamento humano nas mídias sociais e plataformas digitais de comunicação. Não vai ser fácil, precisará de dedicação, paciência, mas é uma área de oportunidades para quem gosta de gente.”

 

 

 

Disputados pelo mercado 


André Miceli, coordenador de MBA em comunicação e marketing digital da FGV e Faculdade Ibis, diz que a demanda surge, mas demora um tempo para ter a mão de obra(foto: Arquivo Pessoal)
André Miceli, coordenador de MBA em comunicação e marketing digital da FGV e Faculdade Ibis, diz que a demanda surge, mas demora um tempo para ter a mão de obra (foto: Arquivo Pessoal)
Alta demanda e baixa capacitação em mídias sociais fazem dessa área uma das mais promissoras no mercado de trabalho atual e do futuro. Mesmo aquecido, a falta de profissionais capacitados é um entrave para as vagas oferecidas. A falta de formação técnica e exigência de características como proatividade, independência, veia criativa, além do conhecimento em tecnologia, matemática, administração e comunicação, a tornam um desafio para os trabalhadores e dor de cabeça para os empregadores. A conta oferta e demanda não fecha. No entanto, é um segmento em plena expansão e, se pensarmos no ano eleitoral, a procura por esse profissional será ainda maior. Quem domina as técnicas e as ferramentas para atuar com Facebook, Instagram, Twitter, sites e outros canais na web é disputado e tem poder de escolha e seleção neste momento em que passamos pela quarta revolução Industrial, a revolução tecnológica, que transformará fundamentalmente a forma como trabalhamos, vivemos e nos relacionamos.


André Miceli, coordenador do MBA em comunicação e marketing digital da Fundação Getulio Vargas (FGV) e Faculdade Ibis, lembra que convivemos com um histórico de amadorismo na área, quase uma tentativa de erro e acerto, somado à curiosidade. “O tempo passou, os investimentos feitos pelas empresas aumentaram e priorizam players que estão dispostos a investir. Cada vez mais, saber segmentar anúncio é fundamental para o sucesso dos investimentos e com a crise a necessidade é premente. Portanto, não há mais espaço para amadores. No entanto, existe uma zona cinza, de interseção entre a tecnologia e a comunicação.”


Para André Miceli, com jornalistas e comunicadores sociais sendo o principal público, há um vácuo diante da crise no mercado, o que obriga o profissional a ter de se reinventar. E a carência é gigante. “Há gente sem emprego e vaga sem qualificação.” A formação até ocorre, mas o conhecimento e o domínio não vêm na mesma velocidade que o mercado precisa. O professor destaca que o gap é grande. “O setor bancário, por exemplo, sofre com a falta de talento digital e tem um gap de 53%, sendo que a média global é de 55%. No Brasil, o percentual é ainda maior. A demanda surge, mas demora um tempo para ter a mão de obra. Precisamos de mais pessoas com conhecimento digital. O mercado vai crescer, novas tecnologias surgem e tudo passa também por uma questão de amadurecimento.”

HÍBRIDAS André Miceli avisa que o profissional da área tem de dominar a tecnologia, a comunicação e conhecer as demandas da entrada para a formação no trato com as mídias sociais, que são o conhecimento em matemática e em administração. É aquela história – enfatiza o professor –, “vivemos em um mundo de especialistas, mas as especialidades mudam”. Ele usa muito o termo digital, que está impregnado na sociedade do século 21, gostem ou não, queiram ou não, dominem ou não. “Tecnologia e comunicação são características híbridas.”


E o que ainda mexe mais com esse mercado é que, como todos, será afetado pela nova lei trabalhista do governo Michel Temer, que fez mudanças na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), com novas regras e alterações em pontos como jornada, plano de carreira, implantação e regulamentação de novas modalidades de trabalho, como o home office (trabalho remoto) e o trabalho intermitente (por período trabalhado). “Vejo um aumento da economia freelancer e com o profissional tendo marcas próprias, assim como o desembarque no país de alguns fundos de investimentos chegando interessados em startups, não só de iniciativa própria, como já conhecidas. Enfim, mais do que nunca está no jogo o pensamento empreendedor. Tem peso e valor aquele que traz ideias inovadoras e sabe aplicá-las dentro do movimento de disrupção. É preciso exercitar a criatividade, processo que é um exercício.” E, claro, André Miceli lembra que hoje a tecnologia faz parte de qualquer formação, não existe estar fora.

 

Aperfeiçoamento constante

 
Cynara Bastos, supervisora de carreiras do Ibmec-MG, afirma que o profissional tem de estar atento à evolução da carreira e tentar prever qual o passo evolutivo para garantir a qualificação(foto: Ibmec-MG/Divulgação)
Cynara Bastos, supervisora de carreiras do Ibmec-MG, afirma que o profissional tem de estar atento à evolução da carreira e tentar prever qual o passo evolutivo para garantir a qualificação (foto: Ibmec-MG/Divulgação)

O lado do consumidor e o lado da empresa. Do profissional, e do empregador. O cenário do mercado de trabalho para quem domina as mídias sociais é cada vez mais valorizado e cheio de nuances. Na análise de Laís Menini, jornalista, especialista em comunicação organizacional e diretora-executiva da Chá de Conteúdo, empresa que assessora clientes a enxergar o marketing digital como um mundo sem fronteiras com foco e resultado, sem abrir mão do conhecimento, paixão e história, vê dois caminhos. “O do consumidor que, ressaltando o ano eleitoral, busca posicionamento e está inserido porque faz parte deste mundo e é onde a vida acontece. E vejo a movimentação das empresas que buscam especialização constante, face à mudança constante do algoritmo de alcance. O que obriga todos do meio a estudar mais para estar à frente no atendimento aos clientes, entregando resultado com qualidade e a um preço justo. Ainda que muitos digam “é tão simples”. Não é. É uma área que exige trabalho científico, matemático, humano, psicológico e até filosófico por trás. Expertises que fazem o diferencial da nossa empresa.”


Para Laís Menini, o maior desafio para as marcas que lidam com as mídias sociais é o posicionamento. Precisam ter um conteúdo interessante, saber o que há de novo para contar às outras pessoas de forma criativa. Papel de agências de conteúdo. E para o profissional, além de entregar tudo isso, “o desafio é que a área muda o tempo todo e tem de acompanhar. Hoje, há formações com currículo básicos da academia e o restante é por conta de cada um. Ou seja, ir atrás, participar de eventos e palestras, cursos on-line, enfim, buscar conhecimento e não só de forma linear. Não só na faculdade ou num MBA. Há informações valiosas na rede e pode-se adquiri-las com facilidade. Agora, tem de dar o primeiro passo”, afirma.


Laís Menini acredita que nem sempre as marcas precisam estar em todas as mídias (Instagram, Facebook, YouTuber, Twitter...) e, para ela, o profissional também não é obrigado a dominar todas elas. “Acho discutível. Escolhi me especializar em blogs e sites. Ainda que jornalistas sejam especialistas em generalidades, acredito que o melhor caminho é definir um foco, uma ferramenta para ser tornar referência e, claro, entender um pouco de todas. E, acima de tudo, é importante gostar de marketing digital para saber vender para o outro.” A concorrência, avisa ela, é grande, “há muita gente boa no mercado e muitos procurando aprender na prática. É preciso ter referências porque também existem desencontros de expectativas, ou seja, oferta e demanda alta, mas seu sobrinho que domina o Facebook não saberá administrar a página de sua empresa. E no fim, o mercado é que vai selecionar.”

PERFIL Já Cynara Bastos, supervisora de carreira do Ibmec-MG, lembra que os primeiros registros de procura pelo profissional de mídias sociais é de 2003, e como analista. E, desde então, pesquisas só indicam crescimento na área. “Isso ocorre porque as empresas perceberam que têm de se relacionar de maneira diferente com o cliente.” Quanto ao profissional, não basta dominar Facebook e Instagram, as exigências são bem maiores: “A procura por aquele que tenha boa redação, consciência crítica, desenvolvimento intelectual, que saiba lidar com gestão de dados e resultados no monitoramento das iniciativas da rede. E percebo cada vez mais chances de atuar no setor de profissionais de áreas diversas, e não só quem tem formação em comunicação, jornalismo, marketing, relações públicas, publicidade. Até porque, o empregador busca também características distintas. Já vi vaga sendo preenchida com veterinário no cargo de redator”.


Cynara Bastos enfatiza que o profissional que vai trabalhar com mídias sociais precisa entregar um perfil que o diferencie com as seguintes habilidades: “Criatividade, curiosidade, discernimento, pensamento estratégico e, muito importante, dominar a língua inglesa, além, claro, do conhecimento técnico das ferramentas”. Um alerta que a supervisora faz é que “toda área que tem um boom e demanda de oportunidade há os curiosos, que se jogam e aprendem sozinhos, e quem busca qualificação. Há iniciativas, mas ainda não há graduação na área, mas cursos técnicos, de extensão. Por isso, é fundamental que o profissional, independentemente da área, fique atento à evolução da sua carreira e tente prever qual o passo evolutivo para garantir evolução e qualificação.”

 

Vale destacar, lembra Cynara Bastos, que quem trabalha em áreas que lidam com a tecnologia, pela velocidade e frequência das mudanças, tem de estar frequentemente atualizado, preparado para as críticas e com conhecimento além do Google analytics e big data, mas noção de sociologia, antropologia, filosofia até. E não pode fazer nada mais ou menos porque será substituído. “Portanto, não é trabalho para amador, exige-se profissional sério, qualificado, porque ele irá lidar com exposição de marcas, empresas e pessoas na rede.” 

 

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade