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Estado de Minas entrevista/Ângela Imaculada Loureiro de Freitas Dalben Secretária municipal de Educação de Belo Horizonte

As lições que vieram à tona


21/11/2021 04:00 - atualizado 22/11/2021 09:57


A pandemia evidencia abismos que existem entre as classes sociais. Quando se pensa nos processos educacionais, as diferenças de acesso às novas modalidades de ensino também são indicativos de quem tem ou não boas condições de vida. Enquanto alunos da rede particular de educação rapidamente se adaptaram ao modelo híbrido e ensino remoto, nas escolas públicas o processo foi muito mais complicado, mesmo pelo perfil socioeconômico. São lições que o coronavírus traz à tona, dizendo muito sobre o que precisa ser transformado na realidade da educação no país. Em entrevista ao Estado de Minas, a doutora em educação e secretária municipal de Educação de Belo Horizonte, Ângela Imaculada Loureiro de Freitas Dalben, fala sobre o tema.

Ângela Dalben
Ângela Imaculada Loureiro de Freitas Dalben é secretária municipal de Educação de Belo Horizonte (foto: PBH/ Divulgação)


"As escolas, no mundo, precisaram se reinventar e encontrar um caminho que fosse capaz de atingir os estudantes, considerando a realidade vivida de cada um, uma vez que o ambiente de aprendizagem passou a ser a residência de 
cada estudante e não mais o ambiente escolar”


Enquanto alunos da rede particular de educação rapidamente se adaptaram ao modelo híbrido e ensino remoto, nas escolas públicas o processo foi muito mais complicado.
Alguns desafios se apresentaram para a educação como um todo, não somente para a rede pública. Nenhuma rede se preparou antecipadamente para, de maneira abrupta, sem planejamento prévio, ter as atividades presenciais interrompidas. Toda a educação básica no Brasil era regulamentada, até então, para se dar de modo presencial. O contexto do ensino remoto se apresentou como uma questão emergencial em que não havia especialistas nesse formato de atendimento nem na rede privada, nem na rede pública. As escolas, no mundo, precisaram se reinventar e encontrar um caminho que fosse capaz de atingir os estudantes, considerando a realidade vivida de cada um, uma vez que o ambiente de aprendizagem passou a ser a residência e não mais o ambiente escolar, devidamente preparado para isso. É fato que a rede privada, em sua grande maioria, teve maior facilidade para adentrar a casa das famílias de maneira mais imediata, considerando a maior facilidade de acesso a equipamentos tecnológicos, mas só isso não é garantia de efetividade no processo de ensino e aprendizagem. Outros desafios relativos à necessária mediação e interação direta do professor com os estudantes se apresentaram tanto na rede privada quanto na rede pública.

Quais são os principais desafios para ter equidade na educação?
Muitos desafios estão colocados para as populações mais vulneráveis e eles não se referem somente à educação, são problemas sociais e que necessitam de ações intersetoriais. Mas é fato que refletem e impactam diretamente na educação. Assim, a superação desses desafios deve considerar a necessária articulação intersetorial que viabilize ações de garantia da saúde, da assistência social, do lazer, de educação, numa perspectiva de educação integral dos sujeitos. A pandemia evidenciou problemas que já existiam antes dela. Fragilidades educacionais, sociais, desigualdades econômicas de toda ordem. Essa necessidade de igualdade nos processos de interação trouxe a dimensão clara da equidade, isto é, para quem tem menos era importante oferecer mais. Fizemos isso desde o início e estamos ainda tentando trabalhar nesta linha. A atual administração municipal tem o lema: governar para quem precisa. Professores foram cuidados assim como os estudantes. Uma coisa é certa: a educação está diretamente afetada por condições relativas aos valores culturais das famílias, às possibilidades de atendimento adequado às crianças pelos familiares, com mais ou menos tempo para o cuidado com as atividades escolares e outras. Isso exige que o poder público esteja bastante atento ao que as famílias precisam. Penso que, apesar de tudo, estamos conseguindo atender à diversidade de dramas que são vividos pelas famílias, buscando ações intersetoriais e trabalho colaborativo.

Quem via a internet como solução rápida para o aprendizado se deparou com uma assustadora realidade.
A internet, em muitos casos, garantiu o acesso e a comunicação mais efetiva entre escola e família, e a interação direta entre professores e estudantes. Mas o processo de ensino e aprendizagem não ocorre de maneira espontânea somente considerando os aparatos tecnológicos. Não é possível transportar para as residências a sala de aula das escolas e toda a potencialidade que a escola representa e oportuniza. Assim, nas aulas virtuais não se estabeleceu o ambiente ideal para o processo de ensino e aprendizagem, que envolve a interação direta entre professores e estudantes, entre estudantes e estudantes, além do ambiente preparado para o desenvolvimento das aulas planejadas. A interação virtual também dificulta a mediação direta do professor junto a cada estudante, considerando principalmente que, nem na formação inicial dos professores para a educação básica e nem na formação continuada, a utilização do ensino remoto foi considerada, uma vez que não havia nem mesmo previsão legal para isso antes da pandemia. Assim, mesmo nas redes em que a internet foi utilizada para aulas síncronas diárias, o processo de ensino e aprendizagem também enfrentou desafios similares.
 
As estratégias traçadas para mitigar os prejuízos da pandemia no ensino brasileiro não foram suficientes e demonstram uma “cultura nacional de despreparo”. Você concorda?
O Brasil amargou na pandemia a falta de um Sistema Nacional de Educação, a exemplo de uma estrutura como o SUS na saúde. A educação brasileira é fragmentada em todos os sentidos. Sobrevive apesar da descontinuidade de projetos e programas de governos ano a ano. Todos os dias temos projetos que são criados e projetos que são descontinuados, além de recursos cortados. Acaba sendo um desrespeito ao cidadão, porque educar para a vida social e o entendimento do contexto e do mundo é a base da sobrevivência de qualquer sociedade. Temos hoje uma Base Nacional Comum Curricular (BNCC), ainda temos metas a cumprir do Plano Nacional de Educação (PNE), mas pouco sentimos a prioridade destes eixos na política nacional. A sensação vivida pela educação como área e eixo de ações políticas na pandemia foram de total desarmonia. Muitas pessoas se manifestando e dando palpites, sendo vistos como entendedores ou especialistas, mas muitas vezes somente defensores de propostas pessoais, o que acabou por provocar mais atropelos.

 
Que lições ficam da pandemia para transformar a educação no país?
A solução para o drama vivido pela escola durante a pandemia não se resolve apenas com inclusão digital ou tecnologias. Elas auxiliam e são aliadas nestes novos tempos, com certeza. Mas a grande questão estará no reconhecimento da situação de cada estudante. Precisamos entender o significado disso para cada um e quais conhecimentos, valores, habilidades e atitudes foram definitivamente incorporados. Fazer um balanço desses conhecimentos, reconhecer, entender os sentidos e significados. Precisamos fazer um diagnóstico profundo para intervir corretamente. Não é continuar a trabalhar como se não tivesse acontecido uma pandemia e que a escola continuasse a mesma. Não. Estamos diferentes, a escola está diferente e todos os seres humanos estão diferentes. É fundamental entender que a escola ensina conhecimentos de vida, contextualizados para uso na vida. Todos os recursos didáticos devem, então, diante deste diagnóstico, ser usados para cumprirmos o papel de ensinar aos estudantes o que precisam e devem saber. Cumprir o papel de formar gerações. A escola provou a sua importância na pandemia. Provou à sociedade que ela é essencial.


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