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Estado de Minas

Comida pronta se torna alternativa na quarentena

Empresas que trabalham com comida pronta para o consumo, fresca ou congelada, ganham novos clientes neste período de isolamento e mostram que receitas podem ter sabor e saúde


postado em 26/04/2020 10:30 / atualizado em 26/04/2020 11:37

Almôndegas ao sugo com purê de espinafre (Oca Alimentos)(foto: Fernando Cruz/Divulgação)
Almôndegas ao sugo com purê de espinafre (Oca Alimentos) (foto: Fernando Cruz/Divulgação)
Muito antes de o delivery se tornar alternativa na quarentena, negócios em Belo Horizonte já trabalhavam com entrega de comida pronta, seja fresca ou congelada. O serviço sempre atraiu o público que busca praticidade e uma alimentação mais saudável, mas agora chama a atenção também de quem não quer (ou não pode) sair de casa. Neste período de isolamento, as empresas aproveitam para mostrar que pratos prontos não precisam ser sem graça. Preparos artesanais e temperos naturais deixam as receitas mais nutritivas e saborosas.
 
Domingo é dia de produção e entrega na Ingrediente da Vez. Ana Sandim optou por vender comida feita no dia, para chegar bem fresca à casa do cliente. Ela monta o cardápio seguindo a sazonalidade dos ingredientes e faz as compras de carnes, verduras e legumes na véspera. Em consequência, além do frescor, os pratos quase não se repetem. “Este é o nosso segredo, a comida não se repete no mês, então toda semana tem algo diferente”, destaca a chef, que trabalha na cozinha de casa. Os pratos duram cinco dias na geladeira ou dois meses congelados.
 
Bobó de grão-de- bico na miniabóbora (Capim da Serra)(foto: Florence Zyad/Divulgação)
Bobó de grão-de- bico na miniabóbora (Capim da Serra) (foto: Florence Zyad/Divulgação)
 
O cardápio se divide em quatro categorias: comida de vó (pratos mais caseiros), vegano (sem ingredientes de origem animal), low carb (baixo consumo de carboidratos) e low carb ovolactovegetariano (para os que não comem carne). Ana tenta sempre desdobrar uma mesma receita em quatro versões para os diferentes públicos. “Trabalho a mesma ideia de construção de prato, seguindo os mesmos processos e a mesma estética, mas com ingredientes diferentes.”

Por exemplo, o arroz à piamontese com filé de frango é preparado da forma tradicional na categoria comida de vó. Utiliza couve-flor em vez de arroz para quem segue a dieta low carb (cogumelos ou legumes substituem o frango para ovolactovegetarianos). Já os veganos têm a opção de comer um arroz cremoso sem creme de leite. “Não sou nutricionista, mas estudo muito para fazer as substituições e testo muito antes de entregar a comida para o cliente”, informa.
 
Arroz de couve-flor ao forno com carne moída e tomatinho confit (Ingrediente da Vez)(foto: fotos: enan Lameu/Divulgação)
Arroz de couve-flor ao forno com carne moída e tomatinho confit (Ingrediente da Vez) (foto: fotos: enan Lameu/Divulgação)
 
 
Ana tem fascínio pela comida vegana, justamente por ser mais desafiadora e estimular mais invenções. “Lembro-me de quando decidi fazer um penne ao funghi, mas não queria usar 'creme de leite' vegano industrializado. Então, desenvolvi um creme à base de inhame e leite de coco que tem brilho e cremosidade impressionantes. Dá gosto de ver a comida”, descreve. Nesta categoria, já surgiram outros pratos, como lasanha de abobrinha com molho de lentilha e fricassê de abobrinha.

Há três anos no mercado, a chef não observa aumento significativo da demanda, mas uma mudança de perfil dos clientes. “Perdemos muitos clientes que trabalhavam em empresas e foram para home office, mas ganhamos clientes dos grupos de risco que almoçavam em restaurante e não estão saindo de casa para nada”, contabiliza. Outro público também tem feito mais pedidos nas últimas semanas: quem não tem tempo para cozinhar em casa e encomenda para a família inteira.
 
Há seis anos, quando descobriu ter uma série de intolerâncias alimentares, a advogada Ana Cristina Dias, sem conseguir encontrar comida saborosa, abriu a Capim da Serra, que trabalha com alimentação saudável. “Ainda existe um preconceito enorme, as pessoas acham que comer saudável não é gostoso, ou só tem folhas. O meu desafio é mostrar exatamente o contrário”, aponta. Como a loja física, no Bairro Lourdes, está fechada, ela volta ao início da empresa, quando só trabalhava com entregas.
 
Arroz, feijão, carne de panela e cenoura (Ingrediente da Vez)(foto: fotos: enan Lameu/Divulgação)
Arroz, feijão, carne de panela e cenoura (Ingrediente da Vez) (foto: fotos: enan Lameu/Divulgação)
 

MENU COMPLETO Na visão de Ana Cristina, a pandemia fez o delivery, que era uma tendência, ganhar força rapidamente. Os pedidos na Capim da Serra aumentaram 50%. “A nossa proposta é justamente oferecer comida fresca, com sabor, feita no dia. Na hora de desenvolver o cardápio, penso em alimentos que vão chegar à casa do cliente ainda gostosos.” A pessoa tem a opção de pedir, no almoço ou no jantar, menu completo com entrada, prato principal e sobremesa, ou só o prato principal.
 
O cardápio é baseado no conceito de plant based. “Não sou vegetariana, mas quis oferecer uma alimentação saudável, o mais natural possível, sem industrializados, rica em frutas, verduras e legumes”, explica. Na Capim da Serra, o PF tem ovo cozido ou frito, brócolis, arroz (integral, vermelho ou negro), feijão, cogumelos grelhados, farofa e vinagrete. Já a feijoada conta com tofu defumado, cogumelos, linguiça de grão-de-bico e de feijão, arroz, vinagrete, couve e laranja. Outras opções são risoto de tomate, feito com azeite e “queijo” de castanha, e moqueca de banana-da-terra com arroz e farofa.
 
Rocambole de frango recheado com muçarela, tomate e manjericão e purê de moranga (Gergelim)(foto: Kiki Santoro/Divulgação)
Rocambole de frango recheado com muçarela, tomate e manjericão e purê de moranga (Gergelim) (foto: Kiki Santoro/Divulgação)
 

Ao alcance das mãos

 Há empresas trabalham com comida congelada, sem perder o foco no sabor. É o caso da Sabor com Amor, da engenheira civil Janaima de Oliveira Araújo, que estudou para ser chef e se especializou em comida low carb. “Hoje em dia, as pessoas precisam trabalhar, dar atenção aos filhos e cuidar da casa ao mesmo tempo. Ter uma comida balanceada, nutritiva e saborosa ao seu alcance, só tirar do freezer e levar ao micro-ondas, ajuda demais”, destaca. Lá, as vendas aumentaram e surgiram novos clientes.
 
Polpeta com creme de espinafre e abóbora cabotiá rústica (Sabor com Amor)(foto: Janaima Araújo/Divulgação)
Polpeta com creme de espinafre e abóbora cabotiá rústica (Sabor com Amor) (foto: Janaima Araújo/Divulgação)
 
 
Na época em que trabalhava como engenheira, como não tinha tempo para cozinhar, Janaima consumia comida congelada, mas achava tudo muito ruim. Então, quis oferecer exatamente o contrário. “O nosso conceito é comida de verdade, com o mínimo possível de processamento, tudo feito de maneira artesanal, sem uso de óleos refinados, para ter sabor de comida caseira”, detalha. A chef se preocupa, inclusive, com a disposição dos alimentos na embalagem.

Janaima ficou conhecida pela comida low carb, que utiliza farinha de oleaginosas, carnes mais “gordas” e gorduras saudáveis (abacate, óleo de coco e azeite). Mas a Sabor com Amor também trabalha com uma linha funcional, sem glúten ou lactose. Nas receitas, entram outras farinhas, tubérculos, grãos integrais, carnes magras e só azeite. Por último, a confort food. “Segue uma linha bem saudável, não tem nada frito, mas pode ter um pouco mais de calorias. É para quem não está preocupado em emagrecer.”
 
Para quem tem preconceito com comida congelada, a nutricionista Catarina Sica, da Oca Alimentos, diz: “Produzimos em maior quantidade, mas é como se fosse em casa. O nosso produto é totalmente artesanal (fazemos até o molho de tomate) e não tem nenhum tipo de aditivo químico”. O uso de tecnologia ajuda a garantir a qualidade dos pratos. Por causa do forno combinado, óleo e manteiga nem entram na fábrica. Já o ultracongelador congela o núcleo da comida em menos de 40 minutos, impedindo a formação de cristais de gelo e preservando nutrientes.
 
Desde o início do isolamento, as vendas da Oca Alimentos triplicaram. “Para o nosso negócio, foi uma oportunidade. Muitos clientes dispensaram as cozinheiras, estão mais dentro de casa, não almoçam na rua e estão procurando pratos congelados equilibrados e saudáveis.” Entre os mais pedidos estão almôndegas ao sugo com purê de ricota com espinafre; creme de moranga com frango desfiado; estrogonofe de frango com ricota e arroz sete grãos e tilápia ao sugo com banana-da-terra assada.
Na primeira semana de isolamento, uma avalanche de pedidos.

A advogada Luisa Gontijo, fundadora da Gergelim, conta que a demanda triplicou, mas agora as vendas se estabilizaram. “Antes, 90% dos pedidos vinham de mulheres jovens que fazem dieta. Agora temos clientes mais velhos e mais homens, que não têm tempo de cozinhar e querem sair o mínimo possível de casa”, analisa.
 
A produção ocorre três vezes por semana e o estoque sempre tem novidades. Uma das mais recentes é o fettuccine de cenoura com molho de queijo (muçarela e parmesão) e frango grelhado. Entre os pratos mais pedidos, almôndegas de carne com molho de tomate pelati e legumes assados, fusili integral ao pesto com cubos de frango e escondidinho de batata-doce com molho à bolonhesa de carne. “A nossa proposta é fazer comida saudável e saborosa, com gostinho de comida de casa.” 
 
Risoto de quinoa 
Ingrediente da Vez

Ingredientes
250g de mix de quinoa branca e vermelha; 1 litro de fundo de legumes; 1 colher de sopa de azeite; 30g de manteiga; 1 cebola roxa bem picada; 30g de alho-poró picado; 60g de cenoura ralada; 60g de abobrinha ralada; 3 dentes de alho; 125ml de vinho branco; 30g de lascas de amêndoas; folhas de hortelã a gosto; sal e pimenta-do-reino a gosto; tomatinhos confit a gosto.

Modo de fazer
Lave a quinoa em uma peneira fina umas três vezes e leve para cozinhar com o fundo de legumes por cerca de 15 a 20 minutos. Verifique o ponto, pois os grãos devem estar al dente. Após o cozimento, lave a quinoa em água corrente e reserve. Este processo elimina a saponina, substância presente na semente que deixa um leve amargor, se não bem lavada. Em uma panela, derreta a manteiga com um fio de azeite e refogue a cebola e o alho, colocando os legumes e o alho-poró em seguida. Acrescente o vinho branco e deixe reduzir pela metade. Adicione a quinoa e misture. Desligue o fogo, tempere com sal e pimenta-do-reino a gosto. Finalize com as lascas de amêndoas e as folhas de hortelã. Sirva com tomatinhos confit. Para uma receita vegetariana, basta substituir a manteiga por mais azeite. 

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