Cena do filme 'Por dentro [Goiânia]', de Gustavo Silvestre e Larry Machado

Na performance, "Por dentro [Goiânia]", de Gustavo Silvestre e Larry Machado, espectador faz um passeio poético pela capital de Goiás

Larry Machado/Divulgação

Foi em 1968 que o filósofo e sociólogo francês Henri Lefebvre (1901-1991) cunhou o termo “direito à cidade”. Inspirado por movimentos ao redor do mundo que lutavam pelos direitos civis, liberação sexual, oposição ao conservadorismo e contra a guerra no Vietnã, ele dizia que as ruas das cidades haviam se “convertido no locus de reprodução das relações capitalistas”.

Para ele, portanto, a vida das pessoas estava regulada pelo cotidiano, de forma que elas consumiam o próprio tempo no trajeto de casa ao trabalho e vice-versa, “sem possibilidade de lazer, encontros e manifestações de desejos”. Contudo, Lefebvre acreditava que era justamente nas ruas que a “resistência poderia constituir formas de superação” desse modelo.

É compartilhando esse mesmo sentimento que o Grupo Contemporâneo de Dança Livre (GCDL) concebeu a mostra “Move Concreto! Videodança pela cidade”, que terá sua segunda edição realizada entre 1º e 17 de março, em formato híbrido.

O evento consiste em rodas de conversa com artistas de diferentes naturalidades, oficinas de coreografia e exibição de video- danças performadas em espaços públicos.

“Nós queremos levar ao público a linguagem da dança nos espaços públicos, que é bem diferente da dança feita para o palco italiano, para um teatro ou um local protegido, por assim dizer”, explica Duna Dias, uma das fundadoras do GCDL e curadoras da mostra. Também integram a curadoria do evento Astergio Pinto, Leonardo Augusto e Luísa Machala.

Ao todo, serão exibidos 31 filmes de performances – 16 no Cine Humberto Mauro e 15 no Sesc Palladium. Todos eles, no entanto, estarão disponíveis no canal de YouTube da companhia a partir de 2 de março.

Cidades

“Esses filmes foram feitos a partir de questionamentos acerca das cidades contemporâneas, de questões políticas e sociais que envolvem também relações dos diversos corpos com a arquitetura e com o viver na cidade. Era nosso desejo falar de questões como: o que é um corpo na cidade? Quais cidades são essas pelo Brasil? Como é viver em Manaus, ou em Belo Horizonte, ou numa cidade do interior da Bahia?. Tudo isso gera reflexões e filmes”, destaca Dias.

Entre os filmes concebidos a partir de tais questionamentos está “Por dentro  [Goiânia]”, de Gustavo Silvestre e Larry Machado. Na performance audiovisual, o espectador faz uma espécie de passeio poético pela capital de Goiás, conhecendo a cidade pelo ponto de vista dos diretores e as transformações que vão ocorrendo nela.

Outro destaque é “Carniça caviar”, de Marília Storck. O pequeno filme apresenta Florianópolis sob a perspectiva de cidade em disputa, com seu crescimento improvisado. "Aqui, neste lugar, eu chego a acreditar que cada espaço foi milimetricamente projetado para ser desagradável", ressalta a artista em sua obra.

“São poucos grupos e companhias brasileiras que têm pesquisas e investigações com foco nos espaços públicos”, afirma Duna Dias. “É claro que temos a herança das danças populares, essas manifestações que seguem em resistência, mas na dança contemporânea essa abordagem não é muito comum. As poucas pessoas que ainda pesquisam o assunto têm migrado para o audiovisual, o que é muito interessante, porque é uma nova linguagem, que é muito específica dentro do audiovisual”, emenda.

A decisão de criar a mostra, portanto, foi para mostrar essa abordagem particular e singular que existe nas produções audiovisuais. A primeira edição, realizada de maneira remota entre setembro e outubro de 2020, contemplou apenas artistas de Belo Horizonte e região metropolitana. Neste ano, o escopo foi ampliado para  contemplar artistas de todo o país.

“Na última edição, nós conseguimos ter um panorama de como a dança nos espaços públicos era tratada aqui na região. Agora, queríamos ver como é tratada Brasil afora”, conta Dias.

Gênero

Pelo material recebido, a curadora conta que majoritariamente questões de gênero e sexuais – tendo, obviamente, a relação do corpo com a cidade – são tendências, revelando o espírito do momento.

Limitar-se, contudo, à exibição das performances sem nenhum tipo de contextualização poderia desacreditar o valor da mostra. Exatamente por isso, o evento conta com ações formativas, que vão desde mesas-redondas com pesquisadores e dançarinos contemporâneos até oficinas que exploram o vídeo como ferramenta de composição coreográfica.

“A gente acredita que, para que se tenham as obras, os espetáculos e os filmes, é necessário ter uma ação de formação. E serve para a gente como uma pesquisa do entendimento da área”, afirma Dias.

“Existem muitas produções audiovisuais que trazem a linguagem da dança; no entanto, elas são pouco acolhidas nos festivais de cinema, sendo exibidas, normalmente, só em festivais de dança. Por isso, acredito que poder ocupar espaços como o Cine Humberto Mauro e o Sesc Palladium já é um primeiro passo para modificar a maneira como a videodança é tratada e acolhida”, conclui.

MOVE CONCRETO! ViDEODANÇA PELA CIDADE

Entre 1º e 17 de março, com oficinas e bate-papos on-line e exibições de videodanças no canal do YouTube do Grupo Contemporâneo de Dança Livre. Amanhã , exibição de 16 performances no Cine Humberto Mauro (Av. Afonso Pena, 1.537, Centro), às 19h e às 21h. No dia 16, exibição de 15 videodanças no Sesc Palladium (Rua Rio de Janeiro, 1.046, Centro), às 20h. Gratuito. Informações: https://moveconcreto.com/


Programação

Oficinas

2/3, 19h: Oficina Libras I – Na dança, com Uziel Ferreira
3/3, 19h: Roda de conversa: Dançar e resistir, com Vanessa Hassegawa
4/3, 10h: Coreo-Lab # 2/4, com Tatianne Castillo Reyes
5/3, 10h: Oficina Solos INvencionistas de casas, “DENDICASA” e em outras casas, com  Kadu Fragoso
11/3, 10h: CORPO.MOVIDeO – dançArquiteturAudiovisual; Edição Santê – recortes urbanos em corpos inteiros – Cib Maia
12/3 10h: Improvisações videográficas, com Bianca Sanches

Bate-papo

14/3, às 18h30: Conversas – Mulheres na tela, com Loretta Pelosi e Luana Diniz
14/3, às 20h: Bate-papo com Eliatrice Gischewski e Marília da Nova Storck
15/3, às 18h30: Bate-papo com Dorottya Czakó e Rebeca Lima
15/3, às 20h: Bate-papo com Bia Vinzon e Sauane Costa 
17/3, às 18h30: Bate-papo com Clarice Costa Ferreira e Janaina Santos

Exibições

Cine Humberto Mauro (1º/3):
»Sessão 1, às 19h (Exibição das performances: 
“Carniça caviar”, “Parasita”, “Retalhos”, “Câmera homem: Vigia”, “Mandíbula”, “Casa corpo prisão morada”, “...fora de todas as casas, de todas as lógicas” e “Corre bixa corre”)
»Sessão 2, às 21h (Exibição das performances: “Cidades invisíveis intermediárias à Bagneux”, “Aduba”, “Por dentro [Goiânia]”, “Catiço”, “Flor da lua”, “Ruína do futuro” e “Cru”)

Cine Sesc Palladium (16/3):

»Sessão 1, às 20h (Exibição das performances: 
“Não há nada aqui”, “Sou todo preto”, “Hologramar-se”, “Vamos para a costa?”, “Sonido”, “Do verbo gestar”, “O canto da urbe”, “A espera”, “Divina”, “Voo sobrevoo”, “Ijó asè erê”, “Fulamuna/existir”, “É tempo de glamour, baby!”, “Corrida contra o tempo” e “Entre borboletas e a escuridão”)

Exibições virtuais de videodança – Todas as performances disponíveis no canal do YouTube do Grupo Contemporâneo de Dança Livre de 2 a 16/3