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Estado de Minas MEMÓRIA

Livros abordam as roupas dos modernistas e ideias do jovem Mário de Andrade

Carolina Casarin analisa paixão de Tarsila do Amaral e Oswald de Andrade por moda. Yussef Campos reúne textos do autor de 'Macunaíma' escritos em 1921 e 1922


24/01/2022 04:00 - atualizado 24/01/2022 02:07

Mário de Andrade em quadro pintado por Lasar Segall
Mário de Andrade discute a estética modernista em "Inda bebo no copo dos outros" (foto: Lasar Segall/Reprodução)
 
Presente no livro de ensaios “Modernismos 1922-2022”, com reflexões sobre o centenário da Semana de Arte Moderna de 1922, comemorado em fevereiro deste ano, Carolina Casarin diz que sua contribuição para o volume organizado por Gênese Andrade, que será lançado pela Companhia das Letras na próxima sexta-feira (28/1), é extrato do projeto no qual ela vinha trabalhando desde 2014, fruto de sua tese de doutorado.

“O guarda-roupa modernista” chegará às livrarias na sexta-feira, também pela Companhia das Letras. A partir de fotos e documentos da época, além de peças de roupa, cartas, retratos, autorretratos e textos literários, Carolina Casarin examina os figurinos mais icônicos para analisar as relações entre indumentária e a imagem social projetada pelas figuras de proa do modernismo.

Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral, membros da alta sociedade paulistana, conheciam muito bem o valor da moda e das aparências em seu processo de afirmação como artistas tanto no Brasil quanto na Europa.
 
Tarsila do Amaral com vestido xadrez de Paul Poiret em frente a seu quadro Morro da Favela
Tarsila do Amaral usa modelo do estilista Poiret na foto que inspirou 'O guarda-roupa modernista', ensaio de Carolina Casarin (foto: Reprodução)
 
 
Professora de história do vestuário, Carolina pesquisava imagens da indumentária brasileira nos anos 1920 quando encontrou uma foto – bastante famosa – de Tarsila do Amaral com vestido xadrez, posando em frente ao quadro “Morro da Favela”.
 
“Busquei a documentação para tentar entender a relação de Tarsila com a moda. Como fiz 'bolsa sanduíche', fui a Paris, onde pude aprofundar muito o entendimento da moda e da alta-costura. Fui descobrindo como a questão da aparência era fundamental para o modernismo. Oswald e Tarsila investiram muito nisso. Na conferência que realizou em 1922, Mário de Andrade usa o adjetivo dinâmico para se referir ao caráter de Oswald. A forma como ele se vestia está de acordo e expressa esse caráter, sua aparência traduzia isso”, diz.
 
“O guarda-roupa modernista” traz material inédito, fruto de extensa pesquisa em vários arquivos no Brasil, na França e na Inglaterra. A documentação foi reunida por Carolina Casarin a partir do Instituto de Estudos Brasileiros, Centro de Documentação Alexandre Eulálio, Instituto de Letras da Unicamp, Museu da Imagem e do Som de São Paulo, Casa de Ruy Barbosa, Museu Nacional de Belas Artes e Museu de Artes Decorativas de Paris, entre outros.
 

MODERNISTAS BY POIRET

 
“O entreguerras foi o auge da alta-costura francesa em todos os sentidos. Fotografavam os modelos, registravam com a data e davam um nome, então é fonte inesgotável de pesquisa, porque a partir disso pude mapear o guarda-roupa da Tarsila. Fiz uma espécie de cotejamento, olhando as fotos do Paul Poiret. Oswald estimulou muito Tarsila a vestir Paul Poiret, que já não era mais o costureiro de vanguarda, o mais moderno em termos de alta-costura, mas ainda desfrutava de muito prestígio”, diz Carolina.

O ensaio que ela assina em “Modernismos 1922-2022” foca especificamente na relação do casal Oswald e Tarsila com a Maison Poiret. “No meu livro vou muito além. Sempre tendo como perspectiva a questão da construção da aparência, falo do Oswald jovem, anterior ao Oswald modernista. Usei muitas fontes – escritas, fotográficas e documentais. O principal são as fotos, mas cruzar fontes faz com que você se cerque melhor em relação à leitura que você faz delas”, explica.

MÁRIO DE ANDRADE E O 'COPO' DOS MESTRES

Se Carolina Casarin se dedica a investigar a aparência de Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral à luz das proposições modernistas, Yussef Campos busca trazer à tona o pensamento de Mário de Andrade expresso nos textos que assinou entre 1921 e 1922. Escritos dispersos em revistas, jornais, periódicos e livros compõem “Inda bebo no copo dos outros”.
 
Doutor em história pela Universidade Federal de Juiz de Fora e mestre em memória social e patrimônio cultural pela Universidade Federal de Pelotas, Campos lembra que Mário de Andrade teve ação contundente como gestor, ajudou a criar o conceito de patrimônio e a lei que regulamenta o tombamento.
 
“Foquei muito no Mário gestor e fiz um recuo, porque as publicações que via dele e sobre ele eram sempre visões retrospectivas. Você tem muitos textos do Mário falando, em 1940, do que ele achava da Semana de 22. Quis pegá-lo naquele contexto em que se desenrolou a Semana de 22. Os textos reunidos no livro são datados de 1921 e 1922, por conta desse desejo de tentar enxergar o exercício dele de buscar uma estética que viria a se chamar modernista”, aponta o autor.
 
A seleção dos textos foi orientada pela decisão de apresentar o pensamento crítico de Mário de Andrade naquele momento, quando tinha de 28 para 29 anos, e navegava por várias áreas da cultura, como historiador da arte, crítico e pesquisador. O organizador de “Inda bebo no copo dos outros” destaca que o capítulo “Mestres do passado” traz Mário falando de seus antecedentes, os autores parnasianos.
 
“Ali é o Mário que ainda bebe no copo dos outros. Esta frase é tirada de um dos textos dele, que criticava os mestres do passado, mas os elogiava ao mesmo tempo. Mário via na ruptura algo inexorável naquele momento da cultura brasileira, mas também dizia que é fundamental esse beber no copo dos outros, essa influência literária brasileira tão forte, tão incisiva”, ressalta.
 
Campos explica que se eximiu de qualquer comentário crítico porque os textos de Mário de Andrade falam por si só. “É um livro do Mário de Andrade. Apenas selecionei os textos e escrevi uma apresentação para justificar, batizada de ‘Nada interessantíssima’, porque não há nada a acrescentar sobre o que ele escreveu. A imagem da capa é uma foto do próprio Mário, da sombra dele, o que tem a ver com o mito da caverna de Platão. É como Mário estava se vendo naquele momento”, explica Yussef Campos.
 
 
 
Capa do livro O guarda-roupa modernista traz os jovens Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral vestindo roupas elegantes
(foto: Cia das Letras/divulgação)
 
 

» O GUARDA-ROUPA MODERNISTA


. De CarolinaCasarin
. Cia. das Letras
. 280 páginas
. R$ 109,90
. R$ 44,90 (e-book)
. Lançamento em 28/1


 
Capa do livro Inda bebo no copo dos outros traz foto da sombra de Mário de Andrade sobre fundo de cor laranja
(foto: Autêntica/reprodução)
 

» INDA BEBO  NO COPO DOS OUTROS


. Organização de Yussef Campos
. Editora Autêntica
. 224  páginas
. R$ 49,80
. Lançamento  em 11/2 


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