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Estado de Minas LITERATURA

'Contos de fuga' aborda personagens em conflito com o mundo

Livro de estreia de Clarissa Menicucci foi escrito durante a pandemia e inspirado em experiências da autora


25/12/2021 04:00 - atualizado 25/12/2021 07:23

Clarissa Menicucci sorri num bosque com lago
Em seu livro de estreia, Clarissa Menicucci reúne 12 contos sobre personagens que se sentem desencaixados no mundo (foto: Newton Ulhôa/Divulgação)
Personagens desencaixados, que refletem uma condição da própria autora, que, por sua vez, encontra na criação desses personagens uma forma de organizar e dar sentido à vida. Assim pode ser definido, em poucas palavras, o recém-lançado livro “Contos de fuga”, que marca a estreia de Clarissa Menicucci na literatura. 

A obra, cuja escrita foi impulsionada pela pandemia e pelas experiências que ela proporcionou nos últimos dois anos, reúne 12 narrativas curtas, distintas entre si, mas com este elemento em comum: os personagens fora de esquadro.

Clarissa diz que a escrita sempre a acompanhou, desde a adolescência, quando já compunha poemas e contos. Jornalista que trabalha com produção de conteúdo, ela conta que os textos sempre estiveram presentes em sua vida profissional e pessoal, mas nunca de uma forma organizada, que pudesse, por exemplo, gerar um livro.

“Sempre tive que trabalhar muito, virei mãe, tenho dois filhos, e 2020 foi um ano completamente atípico. Eu vinha trabalhando na área cultural, que sofreu muito, e fui demitida, me vi dentro de casa com duas crianças pequenas em meio a essa distopia que é a atual realidade brasileira, essa coisa pesada, difícil de digerir”, diz.

Ela destaca que, em meio a tantas adversidades, foi graças à literatura que conseguiu organizar a vida pessoal. “Eu me entreguei à literatura de uma forma ampla, li muito, alfabetizei minha filha e escrevi loucamente”, conta. Durante um ano, ela também participou de um curso de escrita criativa, onde se produziam e se compartilhavam textos.

ANTOLOGIA 

Clarissa já tinha publicado um conto em uma antologia, intitulada “Conta gotas”, organizada pelo escritor paulista Tiago Novais e lançada em 2020, e diz que esse seu primeiro livro individual é fruto da “coragem” que teve para se colocar como escritora. Ela explica que o título alude precisamente a uma tentativa de escape de um cenário conjuntural tão adverso.

“Vem de uma necessidade que tive de sobrevoar um pouco a realidade do Brasil e falar de outras coisas. Gosto de pensar na fuga como possibilidade de encontro também. Quando a gente foge de algo com que não consegue criar vínculo de identificação, a gente está buscando se encontrar com alguma outra coisa. Essa realidade agressiva do Brasil de hoje, sem sentimentos humanos básicos, eu quis sobrevoar isso e me encontrar em outros sentimentos e outras possibilidades. A escrita tem esse papel para mim”, diz ela.

Sobre a característica comum aos personagens de seus textos, ela diz: “Sempre achei que as pessoas que se sentem encaixadas no mundo ou são loucas ou só desinteressantes. O desencaixe é inerente ao ser humano. Tenho desconfiança de quem está plenamente encaixado, não tem angústias. Eu tenho, e a escrita é uma tentativa de elaborar isso. Meus personagens refletem essa condição, esse desencaixe num mundo que não é confortável para quem pensa muito”, diz.

Segundo a autora, as fontes de inspiração para cada um dos 12 contos se equilibram entre a observação e a reflexão, se relacionam tanto a fatores externos quanto a inquietações internas. Ela aponta que alguns contos são relatos íntimos de situações que viveu, ao passo que outros giram em torno de personagens construídos a partir de pessoas reais. As instituições públicas, como a que trabalhou, são, conforme ressalta, ótimos ambientes para a criação de histórias, porque são um mundo de personagens possíveis.

“Tem um conto no livro, ‘A tabela perfeita’, que fala sobre esse burocrata-padrão das instituições públicas, que fica tão preso às normas e padrões que acaba se deslocando do sentido humano e social que justifica a existência da instituição pública. Ele vira uma tabela de orçamentos, se preocupa mais com isso do que com a realidade”, aponta. “E vários dos contos trazem um ponto de vista mais feminino mesmo, porque o mundo já tem pontos de vista masculinos demais.”

Agora que se lançou no universo da literatura, Clarissa diz que tomou gosto e pretende seguir adiante. Ela já tem engatilhado um livro infantil, intitulado “Meu primo gigante”, para ser lançado no primeiro semestre do próximo ano, pela Crivo Editorial. “A maternidade é um negócio muito forte na minha vida, e acho que a gente se aproximou mais dos filhos nesse período de pandemia. Acabo misturando minha vida com minhas histórias”, afirma.

Sobre o enredo de sua próxima obra, ela conta que, quando engravidou do segundo filho, a mais velha ficou com muito ciúme e criou um amigo imaginário, que era um gigante. “Ela parou de falar com a gente e ficava só conversando com esse amigo imaginário gigante durante toda a minha gravidez. E ela era tratada por ele como uma bebezinha, porque queria manter esse posto. Escrevi ‘Meu primo gigante’ a partir disso, com toda a fantasia de um livro infantil”, diz, destacando que as ilustrações são de Newton Pimentel de Ulhôa.
Capa do livro 'Contos de fuga'

“Contos de fuga”
Clarissa Menicucci
Editora Urutau (96 págs.)
R$ 40
À venda no site da Editora Urutau


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