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Estado de Minas LITERATURA

Romance escrito em 1929 pelo 'Guimarães Rosa russo' é traduzido no Brasil

Primeira tradução para o português de 'Tchevengur', de Andrei Platônov, será lançada nesta quinta-feira (18/11) em Belo Horizonte


17/11/2021 04:00 - atualizado 17/11/2021 07:38

O escritor russo Andrei Platônov
(foto: Reprodução)
O romance “Tchevengur”, de Andrei Platônov, foi escrito entre 1927 e 1929, mas só foi publicado integralmente em seu país de origem quase 60 anos depois, em 1988. 

Numa história de longos hiatos, somente agora, quando se completam 70 anos da morte de seu autor, o livro ganha a primeira tradução no Brasil – aliás, como observa uma das tradutoras, a russa radicada no Rio de Janeiro Maria Vragova, que assumiu a empreitada ao lado de Graziela Schneider, trata-se da primeira vez que a obra chega à comunidade lusófona. 

O lançamento em Belo Horizonte ocorre nesta quinta-feira (18/11), das 17h às 19h, na Livraria da Rua.

Único romance finalizado por Platônov, “Tchevengur” discute dialeticamente a utopia soviética comunista nos anos 1920. Nascido nos arredores da cidade de Voronezh, em 1899, o escritor ingressou no departamento eletrotécnico da politécnica ferroviária após a Revolução Russa, em 1918. 

Esse contato com o universo ferroviário na Rússia revolucionária teria, posteriormente, grande influência na sua obra literária. Breve, entretanto, foi seu tempo de filiação ao Partido Comunista — as críticas feitas aos “revolucionários oficiais” em um artigo satírico tiveram como consequência sua expulsão, em 1921.

CENSURA

A partir disso, suas obras foram sistematicamente censuradas ou completamente depreciadas pela crítica literária de seu país. Isso é o que explica, segundo Vragova, o limbo a que sua produção esteve relegada ao longo do século passado. 

Uma das sócias da editora e produtora cultural Ars et Vita, com sede em Belo Horizonte e que responde pela publicação do livro, ela diz que Platônov escreveu vários romances e contos – infantis, inclusive, no final da vida, quando, em razão da censura sofrida no regime stalinista, não podia publicar mais nada –, mas nenhum, a não ser “Tchevengur”, foi levado a cabo.

“Na minha opinião e na de grandes pesquisadores e escritores, como Alexandre Soljenitsin (1918-2008), vencedor do Nobel de Literatura (em 1970), ‘Tchevengur’ é um dos livros mais importantes da literatura russa e mesmo mundial do século 20, porque aborda vários aspectos importantes do universo dos livros e do mundo, de uma forma geral, com uma linguagem muito rica”, destaca a tradutora. Ela aponta que justamente essa “linguagem muito rica” foi o que se colocou como maior desafio no trabalho de tradução.

COMPARAÇÃO 

“Acho que o autor com quem mais se pode comparar Platônov é Guimarães Rosa”, diz, sublinhando o fato de que, assim como o escritor mineiro, o russo tinha um modo de escrever e de construir frases e textos muito específico e singular. 

“Quando eu dizia que estava fazendo essa tradução, me perguntavam se era possível. Algumas pessoas brincavam que era preciso, primeiro, traduzir para o russo. Todo mundo ficava de boca aberta quando eu dizia que seria lançado no Brasil”, comenta.

Ela ressalta que o fato de ser a primeira tradução para o mundo lusófono também se constituiu num desafio.  “Eu não tinha em que me basear. Com outras traduções, você pode ver como o tradutor resolveu alguma questão, mesmo em se tratando de idiomas de nações diferentes. A linguagem dele é o principal desafio para qualquer tradutor”, diz, acrescentando que o trabalho demandou três anos.

Ela ressalta a fundamental colaboração tanto de Graziela quanto de Francisco de Araújo, que cuidou da pesquisa prévia e do cotejo. “Sou russa, estava traduzindo para uma língua que não é a minha, por isso resolvemos fazer esse trabalho a quatro mãos, com a Graziela. E também foi muito importante o trabalho do Francisco, porque essa é uma tradução que demanda uma grande preparação, que envolve pesquisas sobre a vida e a obra do autor”, aponta.

Vragova destaca que um ponto importante relativo à obra são as ilustrações. O volume traz 29 obras criadas especialmente pela artista visual Svetlana Filippova, uma das maiores animadoras e ilustradoras do cenário contemporâneo russo. Esse rico material iconográfico é um atrativo a mais para o lançamento amanhã, já que será exibido em forma de exposição. 

“Estaremos presentes eu e o editor da Ars et Vita, Gustavo Carvalho, que é brasileiro mas fala russo. Nossa ideia é fazer leituras de trechos do romance em português e em russo, só para o público ter a noção da sonoridade na língua original”, diz.
Capa do livro 'Tchevengur'
(foto: Reprodução)

“Tchevengur”
De Andrei Platônov
Tradução: Maria Vragova e Graziela Schneider.
Editora: Ars et Vita (584 págs.)
R$ 102 (à venda no site da editora)
Lançamento em Belo Horizonte nesta quinta-feira (18/11), das 17h às 19h, na Livraria da Rua (Rua Antônio de Albuquerque, 913, Funcionários).


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