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Estado de Minas LITERATURA

Trama de 'Navalhas pendentes' embaralha os limites entre autoria e plágio

Livro de Paulo Rosembaum usa uma editora de best-sellers artificialmente forjados por um algoritmo para falar sobre originalidade e criação literária


27/10/2021 04:00 - atualizado 27/10/2021 00:36

Julio Jeha*
Especial para o Estado de Minas
 
pessoas circulam por escadas rolantes na Feira do Livro de Frankfurt, em 2018
Narrador do livro se chama Homero Arp Montefiore e é contratado pela editora para avaliar manuscritos submetidos à publicação. Na foto, visitantes da Feira do Livro de Frankfurt, em 2018 (foto: Daniel ROLAND/AFP)
Quando um autor se apropria de uma obra preexistente e lhe dá outra forma, outro significado, como fizeram as dezenas de dramaturgos que recontaram a história de Pigmaleão e Galateia, isso é plágio ou é apenas a literatura como ela sempre foi? 
Já na “Bíblia”, o autor do Eclesiastes declarava: “O que foi tornará a ser, o que foi feito se fará novamente; não há nada novo debaixo do sol”. Tal constatação milenar está no cerne do romance “Navalhas pendentes”, de Paulo Rosenbaum, atualizada com algoritmos e mercados globais, inteligência artificial e autores incógnitos.

A literatura fala do ser humano no mundo. A literatura fala de si mesma. Esse aparente paradoxo se dissolve ao pensarmos em qualquer obra de ficção: se é da humanidade que se trata, então toda vez que o texto literário se refere a outro texto semelhante, ele está se referindo, também, à experiência humana. 

Isso se torna claro no romance de Rosenbaum, porque, além de outras questões, trata de originalidade e plágio, mercado e criatividade, memória e ficção, inteligência artificial e o que significa ser humano. Acrescentem-se os conceitos de autorreferência e recursão, e teremos uma obra do nosso tempo que discute a natureza da literatura, mas que se aplica igualmente a outras artes.

MANUSCRITOS

 Rosenbaum tece uma bem-urdida história em torno de uma editora que produz mais best-sellers do que seria razoável, escritos principalmente por Karel F., um autor que ninguém sabe quem é. Quando o personagem Homero Arp Montefiore é contratado para avaliar manuscritos submetidos à publicação, as coisas começam a se complicar. 

Ele desconfia de que algo ilícito está acontecendo no recôndito da editora. A trama se adensa quando uma das maiores casas editoriais do mundo propõe uma fusão com sua congênere nacional. Assassinatos, fugas e desaparecimentos ocorrem, assim como a culpabilização do narrador, que busca entender o que lhe está ocorrendo.

Homero é o nome do narrador de “Navalhas pendentes'', mas também é o do suposto fundador da literatura europeia, de cuja obra deriva tudo o que escrevemos e lemos até hoje. Outra referência literária é Karel, tão incógnito quanto Elena Ferrante, pseudônimo de uma escritora italiana, também autora de best-sellers, tão elusiva quanto o autor brasileiro.

Esse autor, supostamente brasileiro, tem o mesmo nome de Karel Capek, escritor tcheco que escreveu a peça “R.U.R. (Robôs Universais de Rossum)” em 1920, sobre a robotização de operários. Seria coincidência, no enredo, Homero submeter, sob pseudônimo, “A fábrica de robôs latinos” para avaliação da editora? Ou ele está recorrendo ao que já foi feito para criar uma obra para outro mercado em contexto diverso daquele em que a palavra “robô” foi primeiro introduzida?

Talvez a noção que mais ocupe o narrador seja a da memória, que aparece sob diversas formas no texto, associadas quase sempre à recuperação dos eventos que lhe aconteceram e que o incriminam. As referências ao passado se dão também quando ele tenta se reconhecer como indivíduo, numa possível caracterização de si mesmo como uma personagem em uma trama. 

Porém, como hoje sabemos, a memória recria mais do que repete o acontecido. Então, o Homero apresentado ao leitor é verdadeiro, num mundo ficcional, ou é recriado por um processo imaginativo, tal como um autor cria suas personagens? Seria a narrativa de Homero autoficção dentro da ficção?


ALGORITMO 

Essas e outras perguntas vão encontrar respostas no algoritmo encomendado pela editora holandesa, o verdadeiro gerador dos inúmeros best-sellers mundiais. A partir de manuscritos rejeitados, o programa consegue combinar trechos em textos orgânicos que fazem sentido e provocam emoções nos leitores. O algoritmo precisou aprender não apenas sobre logos, mas também sobre páthos para que seus livros pudessem passar por obras escritas por humanos. 

Voltamos aos parágrafos iniciais desta resenha: a combinação de textos preexistentes para dar à luz outros é plágio ou apenas uma releitura, uma reciclagem de elementos do nosso repositório cultural? Shakespeare usou material de autores anteriores para criar suas peças, e não se fala de cópia. Afinal, a significação depende do contexto – nenhum signo tem sentido no vazio.

Essa capacidade recursiva da literatura se alia à de autorreferência no final de “Navalhas pendentes” para surpreender o leitor, que não deveria se espantar em vista do que a narrativa vinha indicando. 

Falar mais revelaria o desfecho que Paulo Rosenbaum dá ao livro. Basta dizer que, a partir da forma do romance de enigma, o autor atualiza a discussão tanto do fazer literário quanto do mercado editorial. E o faz numa narrativa fluida que alia questões éticas e estéticas a denúncias políticas.

*Julio Jeha é professor de literaturas de língua inglesa na Faculdade de Letras da UFMG
capa do livro Navalhas pendentes mostra teclas de máquina de escrever
(foto: Reprodução)

“NAVALHAS PENDENTES”

• Paulo Rosenbaum
• Caravana Grupo Editorial  (328 págs.)
• R$ 62,90
 




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