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Estado de Minas AGENDA CULTURAL

Saiba por que BH é a cidade queridinha de artistas para estrear espetáculos

Capital mineira tem sido o ponto de partida de turnês nacionais de shows e peças, desde a reabertura de espaços culturais ao público


25/10/2021 04:00 - atualizado 25/10/2021 07:38

Sentada numa cadeira, Zélia Duncan abraça o violão
A cantora Zélia Duncan iniciou por BH, no fim de semana passado, a turnê de 'Pelespírito' (foto: Denise Andrade/Divulgação )

Com o avanço da vacinação e a retomada das atividades presenciais, recente e ainda em curso, Belo Horizonte parece confirmar uma alardeada vocação para receber as estreias nacionais de shows, turnês e espetáculos em geral.

Na última sexta-feira, Zélia Duncan mostrou pela primeira vez, no Cine Theatro Brasil Vallourec, o show “Pelespírito”, com o qual vai circular pelo país. Também no fim de semana passado, na sexta e no sábado, Tom Cavalcante deu o pontapé inicial em seu espetáculo “Todos os Toms” na capital mineira, no Teatro Feluma. Há duas semanas, foi em BH que Lenine se apresentou pela primeira vez com seu filho, Bruno Giorgi, no show “Voz, violão e produção”.

A lista que registra estreias nacionais em BH neste curto período de tempo, a partir da flexibilização das medidas restritivas de combate à COVID-19 até agora, se estende com Nando Reis, Flávio Venturini, o espetáculo “ Pá de cal (Ray-lux) ”, da Cia. Teatro Independente – que chegou a ter duas exibições no Rio de Janeiro, antes da pandemia, mas cumpre sua primeira temporada completa no CCBB-BH –, e a série Prudential Concerts, que debuta no Palácio das Artes, no próximo dia 3 de novembro, com Diogo Nogueira acompanhado por orquestra sob regência de Carlos Prazeres.

Rebobinando para um momento anterior à pandemia, a cidade já desfrutava dessa primazia, na condição de primeiro palco para turnês grandiosas e que sempre geram muito expectativa, como a do show “Caravanas”, que Chico Buarque estreou em 2017, no Palácio das Artes, a de “Ok Ok Ok”, de Gilberto Gil, em 2018, ou a de “Margem”, de Adriana Calcanhotto, que partiu de Belo Horizonte para o resto do país em 2019. 

A presença de tais nomes debutando suas novas produções na cidade sempre foi justificada por um suposto perfil exigente do público mineiro, que, por essa razão, funcionaria como um bom termômetro para indicar o sucesso – ou não – dos espetáculos.

Tanto produtores, agentes e empresários de artistas e companhias quanto gestores de equipamentos culturais da cidade concordam que, sim, esse pode ser um fator que torna os palcos locais atrativos para as estreias em geral. Mas há outros elementos envolvidos, como a oferta de bons espaços para shows, a questão geográfica e o fato de a capital estar inserida num circuito de cultura importante, consolidado e economicamente relevante, com um reconhecido público consumidor de bens artísticos.

CRIVO

“Não dá para pensar em lançar um projeto de cultura e desconsiderar Belo Horizonte”, diz Rafaello Ramundo, da agência de entretenimento Novo Traço, responsável pela realização da série Prudential Concerts, que, estreará sua edição 2021 no Palácio das Artes para em seguida circular por outras capitais do país, com diferentes artistas em cada uma. Ele diz que identifica nas plateias de Belo Horizonte essa vocação para o crivo.

“Conversando com meu time de produção, a gente discutia se estreava mesmo em BH ou se fazia uma espécie de teste antes, em outra cidade, para chegar com todas as arestas do espetáculo aparadas”, diz, aludindo ao suposto perfil exigente do público mineiro. 

“Tem essa coisa muito propalada de que é uma plateia exigente, mas percebo que é também muito acolhedora. É um público que, quando percebe que a produção foi feita com cuidado, com carinho, abraça mesmo, e aí é uma festa”, afirma. Diogo Nogueira será o artista que abre a série em BH, acompanhado por uma orquestra formada por músicos locais, e com repertório que se concentra na obra de três “joões”: seu pai, João Nogueira, mais João Bosco e João Gilberto.

Para Ramundo, o fato de a cidade ser dotada de bons espaços para receber espetáculos também é um diferencial importante para que seja escolhida como um palco de estreia. “Ter um equipamento cultural bem cuidado, bem tratado faz toda a diferença quando você vai escolher um local para dar início a uma turnê. A equipe do Palácio das Artes é muito cordial e profissional. E eles são muito criteriosos, a gente tem conversado bastante sobre os protocolos de segurança. Belo Horizonte também tem a Sala Minas Gerais, que é um primor, mas a gente optou pelo Palácio das Artes por uma questão afetiva. É um campo em que a gente já tem jogado há muito tempo, não tinha porque mudar”, diz.

Luciana Sales, diretora cultural da Fundação Clóvis Salgado, observa que não apenas a cidade dispõe de bons espaços com perfis distintos, que atendem a produções de todos os tamanhos, como tem atrativos turísticos que reforçam sua vocação para palco de estreias. 

“Estamos preparados do ponto de vista do trade turístico, com bons hotéis e com muitos atrativos, em geral. É uma cidade com potencial para o turismo de negócios, isso engloba a circulação de produtos culturais. Se a gastronomia é boa, se a rede hoteleira é boa, se é uma cidade em que você se desloca com certa facilidade, isso tudo favorece. E tem a questão geográfica, estamos muito bem posicionados no mapa”, aponta.

Ela, que também já foi coordenadora de programação do Sesc Palladium, diz que as duas casas são os palcos mais consagrados para turnês nacionais, mas que o fato de existirem outros modelos de equipamento cultural na cidade contribui para sua afirmação como um importante polo difusor de produções artísticas. 

“Tem os espaços com uma capacidade de público um pouco menor, como o Cine Theatro Brasil Vallourec, que se aproxima do Palladium; e também o Teatro Sesiminas, o Teatro do Centro Cultural Unimed-BH Minas e o Teatro Feluma, que são casas muito legais, com estrutura boa, e isso é muito atrativo.”

Com relação à plateia servir como termômetro, ela acredita que de fato o público de Belo Horizonte é exigente e a aprovação a um espetáculo sempre reverbera positivamente no restante do país. “Acredito que temos, sim, uma plateia muito crítica, que até aplaude, porque é polida, mas que não desdobra fácil um espetáculo se não tiver sido do agrado dela.”

BOCA A BOCA

Jéssica Santiago, diretora de produção da Cia. Teatro Independente, do Rio de Janeiro, que estreou na última sexta-feira em BH o espetáculo “Pá de cal (Ray-lux)”, com dramaturgia inédita do premiado autor Jô Bilac, e que segue em cartaz no CCBB-BH até 15 de novembro, considera que o movimento contrário também acontece. 

“Aqui os espetáculos que cumprem temporada podem, eventualmente, começar com menos plateia, mas, se as pessoas gostam, o boca a boca é muito forte, então, com certeza, é um termômetro maravilhoso. A gente vai chegar ao Rio mais confiante”, diz, sobre o próximo destino do espetáculo.

Ela diz que a estreia foi ótima, o que representa um estímulo para o restante da temporada. “Foi lindo, muito emocionante voltar depois de todo esse tempo. O público estava ótimo, em termos de quantidade e também no sentido de estar dentro, de curtir. A gente confia no espetáculo, mas ter aquela plateia ali reafirmou esse sentimento. E não é uma plateia de amigos, porque quando a gente está na nossa cidade tem uma estreia para convidados. Em outra cidade, as pessoas compram o ingresso para assistir. Então foi bem feliz para a gente”, diz.

Assim como Luciana, da Fundação Clóvis Salgado, Sandra Campos, gestora de ação cultural do Cine Theatro Brasil Vallourec, também acredita que a diversidade de bons equipamentos culturais é um importante atrativo para a estreia de produções. 

“Belo Horizonte conta com importantes espaços, uma rede de museus, centros culturais, teatros e casas especializadas em grandes eventos. A maioria dos espaços culturais de BH está bem equipada para receber esses eventos e isso é fator importante para despertar o interesse dos produtores”, afirma.

Ela enfatiza a importância da formação de público, o que passa pela consolidação de uma agenda de programação. “O Cine Theatro Brasil Vallourec tem realizado projetos nesse campo e oferecido uma programação que busca, continuamente, atrair o público para o teatro, além de contribuir com a apreciação do melhor da arte por parte dos frequentadores.”

QUESTÃO GEOGRÁFICA

Para Tom Cavalcante, a questão geográfica teve um peso importante na escolha de Belo Horizonte para estrear o espetáculo “Todos os Toms”, em que imita nomes consagrados da música nacional e internacional, como Elvis Presley, Sandy, Tim Maia, Roberto Carlos, João Gilberto e outros ícones. 

“Na reorganização de uma agenda que estava interrompida há dois anos, constavam algumas cidades, dentre elas Belo Horizonte. Achei uma boa ideia recomeçar por um lugar onde me sinto tão bem e que é próximo a São Paulo”, diz.

O reencontro feliz com o público que ele projetava efetivamente aconteceu, conforme diz. “Minha expectativa de ser recebido calorosamente estava certa. Eu me apresentei, nestes dois dias (sexta e sábado passados), para plateias que estavam ávidas por rir, interagir e sonhar um pouco nesse novo ciclo que se inicia para ambos, artista e público”, diz.


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