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Estado de Minas LITERATURA

Conheça os tesouros de Drummond que a Academia Mineira de Letras guarda

Originais de 400 crônicas que o poeta itabirano escreveu entre as décadas de 1960 e 1970 pertencem ao acervo da AML e estão sendo indexados


08/08/2021 06:00 - atualizado 08/08/2021 08:30

Sede da Academia Mineira de Letras, na Rua da Bahia, está aberta para visitação de pesquisadores, com agendamento prévio e adoção de protocolos sanitários
Sede da Academia Mineira de Letras, na Rua da Bahia, está aberta para visitação de pesquisadores, com agendamento prévio e adoção de protocolos sanitários (foto: GLADYSTON RODRIGUES/EM/D.A PRESS)
Com atuação na imprensa desde a década de 1920, ainda no período belo-horizontino, Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) só abandonou o jornalismo diário aos 82 anos – somava, na época, 64 de atividade no meio. 

Ainda que a essa altura já tivesse escrito para vários jornais, sua produção em crônica se torna mais prolífica a partir de 1954. Já consagrado na poesia, torna-se, no Rio de Janeiro, cronista diário do “Correio da Manhã". Fica no posto até 1969, quando vai para o “Jornal do Brasil”.

Estima-se que a produção em crônica de Drummond seja em torno de 6 mil textos. Somente no “JB” foram 2.304 escritos. A maior parte de seu arquivo está sob a guarda da Fundação Casa de Rui Barbosa, no chamado Arquivo-Museu de Literatura Brasileira. A instituição foi inspirada pelo próprio Drummond, que em crônica de 1972 escreveu sobre uma “velha fantasia”: um museu que reunisse o acervo dos escritores brasileiros. 

Entretanto, uma parte significativa desta produção está na Academia Mineira de Letras. Dez pastas reúnem 400 crônicas originais de Drummond dos anos 1960 e 1970. O material, um dos pontos altos do acervo de 30 mil itens da AML, está na instituição desde 2004, quando foi adquirido pela Furnas Centrais Elétricas dos herdeiros do poeta itabirano. 

As crônicas de Drummond pertencentes ao acervo estão reunidas em 10 pastas com capa de couro
As crônicas de Drummond pertencentes ao acervo estão reunidas em 10 pastas com capa de couro (foto: GLADYSTON RODRIGUES/EM/D.A PRESS)

ASSINATURA 

As pastas com capa de couro estão como vieram da família. Datilografadas, sem data e com a assinatura a caneta no final. É de chamar a atenção as (poucas) correções feitas por Drummond, a mão, em cada um dos textos. 

O cronista Drummond escrevia sobre a vida cotidiana, a cultura, os amigos, as Minas Gerais. Celebrou os 25 anos do Teatro Tablado, os 50 de Tom Jobim; chamou a atenção para o trabalho que o artista polonês naturalizado brasileiro Frans Krajcberg realizava em Nova Viçosa, Sul da Bahia; criticou o consumismo de datas comemorativas como o Dia das Mães. 

Em 9 de outubro de 1975, sob o título “De animais, santo e gente”, Drummond apresentou aos leitores do então mais importante jornal brasileiro a poesia de Adélia Prado. “Só uns poucos do país literário sabem da existência desta grande poeta-mulher à beira-da-linha?”, escreveu ele, que a denominou “lírica, bíblica, existencial”. 

Havia recebido os poemas de Adélia de Affonso Romano de Sant’Anna. Após o apadrinhamento por CDA, o livro de estreia, “Bagagem”, foi lançado. Em 1976, na noite de autógrafos no Rio de Janeiro, houve presença ilustre de mineiros – Drummond, Sant’Anna e o ex-presidente Juscelino Kubitscheck.

Em agosto daquele mesmo ano, Drummond dedicou uma afetuosa crônica de despedida ao fundador de Brasília. Em “Juscelino, esse menino grande”, publicada quando do acidente automobilístico que matou JK, ele assumiu que não havia votado nele nas eleições presidenciais de 1955. “Isso não impediu que sentisse por ele essa fascinação que nos inspiram os mágicos, as crianças inventivas.”  

O material de Drummond está, neste momento, passando por um processo de indexação, o que facilitará o acesso do pesquisador ou estudante. Três das 10 pastas já foram mapeadas por palavras-chave.  Este material, bem como todo o acervo da AML, pode ser consultado por pesquisadores, escritores e estudantes. Mesmo durante a pandemia, a consulta (desde que devidamente agendada) pode ser feita no local.

Que é uma viagem no tempo, diga-se de passagem. Desde 1987 a AML ocupa o número 1.466 da Rua da Bahia, em uma casa quase centenária. Antiga residência do médico Eduardo Borges da Costa, pioneiro da cirurgia gástrica em Minas Gerais, um dos fundadores da Faculdade de Medicina, que ele também dirigiu, foi inaugurada em 1923, após mais de uma década de construção. O espaço foi residência, ambulatório e consultório médico.

Os três pavimentos, muito bem preservados e ocupados por mobiliário 90% original, guardam diferentes coleções. A biblioteca dos acadêmicos – atuais e antigos ocupantes das 40 cadeiras, como Cyro dos Anjos, Abgar Renault, Alaíde Lisboa, Bartolomeu Campos de Queirós, Henriqueta Lisboa – bem como dez coleções particulares doadas pelos herdeiros para a Academia. Uma das mais relevantes é a do professor e escritor Eduardo Frieiro que, também como editor independente, reuniu publicações raras do final do século 19 e início do 20.

“É uma casa que faz guarda, preservação e documentação, com um compromisso de geração e difusão de conhecimento. Só que o sentido atual, contemporâneo, não é mais como o das academias do passado, então lugares apenas de distinção social. Hoje são centros de produção do saber e não faz mais sentido refugiar-se na tradição. Ela precisa estar em diálogo com a contemporaneidade”, afirma o presidente da AML, o jornalista Rogério Faria Tavares. 

Com uma produção intensa – de livros e publicações, mas também de cursos e palestras on-line – inclusive durante a pandemia, a casa só espera o fim da crise sanitária para que suas portas sejam efetivamente reabertas para o público. 

“Nossa grande preocupação é entender como o fenômeno literário acontece no século 21. Ele não é mais só dos gabinetes ou das universidades, mas também nas ruas, favelas. É algo diversificado”, acrescenta Tavares. Neste momento, Ailton Krenak produz um dossiê sobre a literatura indígena que será publicado em um futuro próximo pela AML.

TRECHOS

Os originais são datilografados, sem data e com a assinatura a caneta no final
Os originais são datilografados, sem data e com a assinatura a caneta no final (foto: GLADYSTON RODRIGUES/EM/D.A PRESS)

“Juscelino, esse menino grande”

“Desperta assombro, entusiasmo, fanatismo, indignação, admiração – e uma consciência feliz de que afinal somos capazes de grandes coisas, mesmo sujeitas a controvérsia. E consagra para sempre o louco manso que a empreendeu: esse menino de Diamantina que se manteve intato no homem JK. Não fui dos que o levaram à Presidência da República pelo endosso do meu voto, e me permiti, mesmo, sorrir em verso e prosa da chuva incontida de suas metas desenvolvimentistas. Isso não impediu que sentisse por ele essa fascinação que nos inspiram os mágicos, as crianças inventivas, os homens que jamais conheceram o rancor e que abrem para a vida olhos de confiança e de alegria. Este entra na História, fatalmente – e com um halo de generosa simpatia.”

“De animais, santo e gente”

“Adélia é lírica, bíblica, existencial, faz poesia como faz bom tempo: esta é a lei, não dos homens, mas de Deus...Adélia já viu a Poesia, ou Deus, flertando com ela, “na banca de cereais e até na gravata não flamejante do Ministro”. Adélia é fogo, fogo de Deus em Divinópolis. Como é que eu posso demonstrar Adélia, se ela ainda está inédita, aquilo de vender livro à porta da livraria é pura imaginação, e só uns poucos do país literário sabem da existência desta grande poeta-mulher à beira-da-linha?”

“Som sobre Tom”

“Se vai aos Estados Unidos, para gravar sua música em nível técnico mais apurado, até nisto segue política de pássaro, que emigra na hora sazonal e volta religiosamente ao habitat na hora certa. E ao voltar, continua tão brasileiro quanto era ao sair, que isso é raiz e sobrenome dele: Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim, nos papéis civis. De resto, incriminá-lo de americanização, a mim parece inverter o sentido das coisas. Tom leva para a América do Norte uma límpida, sensível imagem brasileira, que lá nos faz menos desconhecidos e até amados por quem distingue, através da música, o temperamento nacional de que ela resulta. (Exportação cultural, que corresponde ao nosso interesse econômico.)”


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