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Estado de Minas Pensar

O múltiplo Drummond

Cinco livros recentemente reeditados comprovam a riqueza da prosa do poeta mineiro, alimentada pelo prosaico e capaz de ressignificar a banalidade do cotidiano


05/02/2021 04:00 - atualizado 04/02/2021 23:19

(foto: Quinho)
(foto: Quinho)

Cinco livros de Carlos Drummond de Andrade recentemente reeditados pela Companhia das Letras representam saudável oportunidade para retomar o contato com a sua prosa e perceber no que ela ajuda a iluminar a sua obra, no centro da qual está, sem dúvida, a construção poética. Sempre acompanhados de reflexões finais esclarecedoras, assinadas por estudiosos; de notas explicativas sobre a genealogia de cada texto; de uma lista de leituras recomendadas; da cronologia biográfica e de um ótimo índice onomástico, os volumes são eficientes fontes de pesquisa e consulta sobre o legado drummondiano, além de leitura fluida e agradável.

O mais antigo deles, a primeira incursão do autor fora da poesia, Confissões de Minas (1944), ficou conhecido pela estrutura heterogênea, mesclando crítica literária, perfis jornalísticos, ensaios breves e até minicontos, a exemplo do que fez Manuel Bandeira, em 1937, com Crônicas da Província do Brasil. Na introdução, Drummond reverencia a prosa, chamando-a de ‘linguagem de todos os instantes’, exercício capaz de incorporar o tempo e, mesmo, de salvá-lo, como ele tenta fazer promovendo a reunião de textos escritos em épocas variadas, o primeiro em 1925 e o último no ano da publicação da obra, em arco temporal abrangente, capaz de abrigar desde as memórias da infância, no interior mineiro, ou da juventude, em Belo Horizonte, até as referências à Segunda Guerra, durante a qual o volume veio à luz.

A referência ao estado natal não está só no título, percorrendo o tomo do começo ao fim, e animando seções como Na rua, com os homens, em que relembra companheiros como Alberto Campos, Ascânio Lopes, João Guimarães, Abgar Renault e Emílio Moura; Confissões de Minas, em que escreve sobre Itabira (Vila de Utopia e Teatro daquele tempo) e Sabará (Viagem de Sabará), texto fundamental para compreender como se posicionava em relação ao projeto modernista de Mário de Andrade, sobretudo quanto ao passado colonial brasileiro e algumas de suas figuras emblemáticas, como o Aleijadinho; e Caderno de notas, quando escreve, em A voz pelo telefone: ‘Mas nós estamos em Minas Gerais, Brasil, país de caminhos fechados, país irremediável...’ , em uma frase que impressiona por sua atualidade.

"A prosa é a linguagem de todos os instantes"

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)



Análises críticas

Passeios na ilha (1952) situa o seu autor sempre a uma distância de segurança do mundo ao redor, num território em que, como ele mesmo diz, ‘ficará no justo ponto de latitude e longitude que, pondo-me a coberto de ventos, sereias e pestes, nem me afaste demasiado dos homens nem me obrigue a praticá-los diuturnamente’, numa atitude de ‘fuga relativa’, considerada a ciência e a arte do bem viver. Formado pelos textos publicados no Suplemento Dominical do Correio da Manhã, o livro traz análises críticas apuradas de poetas admirados por Drummond, como Manuel Bandeira e Raul Bopp, e preciosa valorização de nomes então pouco divulgados, como Américo Facó, Joaquim Cardozo, Sylvio da Cunha e Maria Isabel, além de mineiros como João Alphonsus, Emílio Moura (de novo), Henriqueta Lisboa, Alphonsus de Guimaraens Filho, Beatriz B. Vasconcelos e Godofredo Rangel. Considerada pelo itabirano um conjunto de divagações despretensiosas, um exercício sem método, inclui, ainda, artigos que evocam Minas Gerais, como Notícias Municipais, em que são folheadas as páginas do velho Correio de Itabira; Rosário dos Homens Pretos, que trata das irmandades formadas pelos negros das cidades históricas do estado, no período colonial; Colóquio das estátuas, sobre os profetas esculpidos pelo Aleijadinho, em Congonhas do Campo, e a célebre Contemplação de Ouro Preto.

Lançado em 1966, Cadeira de balanço foi o terceiro livro de crônicas de Drummond, depois de Fala, amendoeira (1957) e de A bolsa e a vida (1962). Seu título mais uma vez remete ao ponto de onde ele lança seu olhar sobre as coisas, apreciando o repouso e a contemplação serena da vida, por um lado, e o prazer do movimento, por outro. Na apresentação, os leitores são cordialmente convidados a se sentar, talvez numa sala de visitas, para ouvir a voz de quem Sérgio Rodrigues chama, no posfácio, de ‘cronista de calça comprida’, em contraponto a outros, mais informais: ‘(...) era como se Sabino e Braga escrevessem de bermuda, de sunga’. Já os textos drummondianos, ainda que leves e bem-humorados, adequados ao consumo rápido e sem compromisso dos leitores da imprensa diária, estão em outro patamar: expõem, como opina o crítico, um maior repertório de timbres e artimanhas, ‘alcançando uma latitude e uma longitude normalmente inacessíveis aos seus colegas’, fazendo do responsável por eles um ‘grande explorador das regiões fronteiriças de um gênero literário pouco definido’ e muitas vezes tido como menor.

Tempo vida poesia – confissões no rádio é a coleção das conversas que Drummond manteve com a amiga Lya Cavalcanti, em oito episódios dominicais veiculados pela PRA-2, Rádio Ministério da Educação e Cultura, no programa Quase memórias, em 1954, ganhando sua primeira edição impressa somente em 1986, um ano antes da morte do escritor. Em dicção descontraída, ele constrói diálogos bem divertidos com a sua interlocutora, em raro momento de exposição dos aspectos mais privados de sua personalidade. Autoirônico, capaz de rir de si mesmo, aqui o poeta discreto e reservado dá lugar a um intelectual aberto, descomplicado. Quando a entrevistadora pergunta se ele vai abrir sua vida diante de todo mundo, a resposta é rápida: “(...) você acha que ela (a minha vida) é menos publicável do que a dos outros?”. Para completar, logo adiante: “Sossegue, Lya. Não vou dar um show de mim mesmo ao público. Nem o público havia de gostar, pois afinal eu não desintegrei o átomo, não ganhei a Segunda Guerra Mundial, não descobri a penicilina... Que é que me pode ser atribuído na história da humanidade, ou mesmo da contracultura? Nada. Rabisquei papelório burocrático e uma versalhada do tipo livre”.

Moça deitada na grama saiu em 1987, organizado por Drummond pouco antes de seu falecimento, em agosto do mesmo ano. Ameno, suave, descompromissado, o livro refaz o percurso do cronista pelo Rio de Janeiro, aqui retratado nos detalhes menos importantes de seu cotidiano, nas belezas escondidas na interminável soma dos dias iguais. Estão presentes o verão, os sucos, um encontro na calçada, os amáveis assaltantes, um pouco de nada e de tudo, como é o título de um dos textos, em que se lê: “(...) escrevo pelo prazer de redigir o desenvolvimento do que me vem à cabeça com a espontaneidade de um passarinho voando lá fora, entre um fícus e outro fícus”. E, logo à frente: “São tantas as possibilidades de direção desta minha vadiagem vocabular que eu gostaria de ser múltiplo de mim para engajar-me em todas elas”.

E múltiplo de si Drummond foi, ainda que muitos enfatizem apenas uma de suas dimensões. Em 30 anos, assinou mais de seis mil crônicas em jornais, num apostolado incansável em favor da palavra prosaica, refém e redentora do tempo, ainda que porosa e docemente permeável ao sopro poético de que seu espírito sempre se constituiu. Atento e sensível ao miúdo e ao passageiro, não se alimentou exclusivamente da alta inspiração concedida por musas sofisticadas, amantes do sublime e do eterno. Também bebeu, compassivo, das águas mais triviais, indispensáveis para entender de que frágil matéria é feita a espécie humana, essa aventura precária que insiste em prosseguir. Vistos na perspectiva fornecida pelos anos e pelo que a fortuna crítica já foi capaz de depurar, os cinco livros novamente postos em circulação no Brasil dão, por tudo isso, provas reiteradas da riqueza da escrita drummondiana, que, se imortalizada na poesia, em nada deixou a dever na prosa, ao contrário do que opinaram alguns poucos, desejosos de sensação, polêmica e popularidade.

Rogério Faria Tavares é jornalista, doutor em Literatura e presidente da Academia Mineira de Letras

Livros de Carlos Drummond de Andrade. Companhia das Letras

Confissões de Minas
256 páginas. R$ 63.

Passeio na ilha
288 páginas. R$ 63.

Cadeira de balanço
224 páginas. R$ 75.

Tempo vida poesia
144 páginas. R$ 59.

Moça deitada na grama
208 páginas. R$ 71.

Trechos dos cinco livros em prosa

Confissões de Minas
Do texto Vila de Utopia

“Parecia-me que um destino mineral, de uma geometria dura e inelutável, te prendia, Itabira, ao dorso fatigado da montanha, enquanto outras alegres cidades, banhando-se em rios claros ou no próprio mar infinito, diziam que a vida não é uma pena, mas um prazer. A vida não é um prazer, mas uma pena. Foi esta segunda lição, tão exata como a primeira, que eu aprendi contigo, Itabira, e em vão meus olhos perseguem a paisagem fluvial, a paisagem marítima: eu também sou filho da mineração, e tenho os olhos vacilantes quando saio da escura galeria para o dia claro. Todos cantam sua terra, mas eu não quis cantar a minha. Preferi dizer palavras que não são de louvor mas que traem a silenciosa estima do indivíduo, no fundo, eternamente municipal e infenso à grande comunhão urbana. Ainda assim fui itabirano, gente que quase não fala bem de sua terra, embora proíba expressamente aos outros falarem mal dela. Maneira indireta e disfarçada de querer bem, legítima como todas as maneiras. E afinal, eu nunca poderia dizer ao certo se culpo ou se agradeço a Itabira pela tristeza que destilou no meu ser, tristeza minha, tristeza que não copiei, não furtei... que põe na rispidez da minha linha de Andrade o desvio flexível e amável do traço materno”. (páginas 111 – 112)


Moça deitada na grama
Do texto Moça deitada na grama

“Eu vi e achei lindo. Fiquei repetindo para meu deleite pessoal: ‘Moça deitada na grama. Moça deitada na grama. Deitada na grama. Na grama.’ Pois o espetáculo me embevecia. Não é qualquer coisa que me embevece, a esta altura da vida. A moça, o estar deitada na grama, àquela hora da tarde, enquanto os carros passavam e cada ocupante ia ao seu compromisso, à sua alegria ou à sua amargura, a moça e sua posição me embeveceram. Não tinha nada de exibicionista, era a própria descontração, o encontro do corpo com a tranquilidade, fruída em estado de pureza. Quem quisesse reparar, reparasse; não estava ligando nem desafiando costumes nem nada. Simplesmente deitada na grama, olhos cerrados, mãos na testa, vestido azul, sapatos brancos, pulseira, dois anéis, elegante, composta. De pernas, mostrava o normal. Não era imagem erótica.”  (página 9)


Cadeira de balanço
Do texto O funcionário de Deus

“Começo a acreditar que Antônio Francisco Lisboa não tenha jamais existido. Existiu foi uma angústia em forma de gente, errando longo tempo nas estradas do ouro. Essa angústia era remorso de crimes gerais, aceitação da carga de pecado e miséria, ânsia de resgatá-los por um sacrifício diferente de todos. Angústia que comia e bebia do fino, para esquecer e para fortificar a consciência do drama. Cantava e ria em casas de mulheres da rua do Carrapicho, em Vila Rica. Batia nos escravos, revidava o deboche dos militares – depois batucava nos criouléus. Chamava sobre si as doenças, misturando-as e confundindo-as de tal modo que um físico poderia dizer:  Não é esta ou aquela, mas A Doença. Torcida, curvada, ajoelhada mesmo quando não estava rezando, essa angústia cobria os vales com sua ira e sua risada. Montada no burrinho, serra acima serra abaixo, a noite não é mais noturna que seu capote noturnal, de gola em pé e cabeção, sob o chapelão de abas avejônicas. Lá vai a angústia cavalgando entre a opressão, o medo e o silêncio das minas, tão áridas de tudo que não seja cobiça e lágrimas”. (página 155)


Passeios na Ilha
Do texto Contemplação de Ouro Preto

“Aí começou pela noite adentro e pela cidade adentro a estranha procissão do Enterro, da Sexta-Feira Santa em Ouro Preto. Não haverá muitas outras, entre as nossas cerimônias religiosas, que pelo realismo fantástico, mescla de notações terrestres e sugestões místicas, se equiparem a essa, de um barroquismo tão envolvente, e que do barroco mantêm ainda aquele traço de crueldade que os críticos assinalam como um dos elementos dessa arte. O sentimento religioso é caldeado no ‘terror santo’ que a passagem do corpo sangrento, sob a lenta oscilação do pálio, pelas ladeiras difíceis, entre renques de luminárias pendentes dos sobrados, infunde no espectador. Mas não há espectadores. Toda a assistência desempenha um papel neste episódio de massas autoflageladas, de varas de prata batendo surdamente nas pedras, de anjos, milicianos, apóstolos e irmandades inteiras, que caminham sem pressa e parecem querer palmilhar a cidade de ponta a ponta. Staccato. Arma-se um estrado no meio da rua, e sobe a moça loura, que até alguns momentos antes era uma senhorita de Ouro Preto, mas agora, fazendo ouvir a sua lamentação grave e pura, na madrugada, bem sabemos que se tornou Verônica.” (páginas 63- 64)


Tempo Vida Poesia
Do texto Uns rapazes que tinham coisas a dizer

“Bem, ao sair do colégio às carreiras, com a sensação de quem levou uma pancada na cabeça, fui praticar em Belo Horizonte, pela primeira vez, as delícias da liberdade. Dediquei-me instintivamente ao prazer de vadiar. Estudar? Pois sim. Fazia de conta, iludindo o pai severo mas generoso, que soltava a mesada. Era a forra à disciplina, às limitações, proibições e inibições do internato, magnífico e implacável. Vadiar anos e anos: programa de vida sem programa. O que me salvou foi o achamento (palavra justa, pois era a usada pelos antigos farejadores de ouro, ao encontrá-lo) de uns rapazes estudantes de direito, que por sorte eram também dados às letras, embora não fizessem disto preocupação única ou principal. E mais um estudante de medicina, de igual feitio. Ficaram meus amigos, no casual. Sorte! Não sei como, não sei por que, mas ficaram. Estudavam, trabalhavam em funções modestas: no escritório da estrada de ferro, o Abgar Renault; na secretaria do Tribunal de Justiça, o Milton Campos; na Saúde Pública, o Pedro Nava; na repartição das Finanças do Estado, o João Alphonsus, lugares assim. À tarde passavam pela Livraria Francisco Alves, na rua da Bahia, assistindo à abertura dos caixotes de novidades francesas, que iam de Anatole France a Romain Rolland, passando por Gourmont. Compravam a crédito o que lhes apetecia, e, à noite, papo em redor da mesinha de mármore do Café Estrela, na mesma sagrada rua intelectual de Minas Gerais, diante da cerveja glacée ou frapée cuidadosamente verificada no grau de frigidez”. (página 37)


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