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Estado de Minas MÚSICA

Garbage abandona tom escapista e lança disco com letras engajadas

Butch Vig, baterista da banda estadunidense, disse ao Estado de Minas que eles concluíram que 'o mundo ficou completamente louco'


14/06/2021 04:00 - atualizado 14/06/2021 06:49

O quarteto estadunidense tem a vocalista Shirley Manson como peça principal. São de autoria dela as novas canções engajadas em bandeiras sociais e políticas(foto: Joseph Cultice/divulgação)
O quarteto estadunidense tem a vocalista Shirley Manson como peça principal. São de autoria dela as novas canções engajadas em bandeiras sociais e políticas (foto: Joseph Cultice/divulgação)

Ao longo de seus quase 30 anos de carreira, a banda estadunidense Garbage nunca se caracterizou pelo tom político de suas músicas, antes pelo contrário. Desde 1994, o grupo formado por Shirley Manson, Butch Vig, Steve Marker e Duke Erikson produz um rock alternativo alheio aos grandes problemas do mundo, quase escapista

Com o sétimo álbum da carreira, "No gods no masters", lançado na última sexta-feira (11/06), isso muda completamente. O trabalho é marcado por um discurso politizado e incisivo, que aponta para alguns dos principais problemas contemporâneos.

As faixas abordam temas como as convulsões sociais e políticas na América Latina, a mudança climática e a luta do movimento Black Lives Matter. A vocalista Shirley Manson, que assina todas as letras, também escreveu sobre sexismo, racismo e misoginia. O título do trabalho, que prega a ausência de deuses e mestres, remete a uma expressão anarquista ligada à libertação individual.

Em entrevista ao Estado de Minas via Zoom, o baterista Butch Vig define a banda como "humanista". "Não estamos nos referindo a nenhum movimento especificamente. Esse álbum é sobre como nós nos sentimos em nível pessoal. Não queremos receber ordens, seja de políticos ou de corporações", disse.

FASE

Segundo ele, essa nova fase do Garbage é um reflexo de uma série de acontecimentos nos Estados Unidos, como a eleição de Donald Trump, em 2016, e o movimento  pela erradicação do assédio #MeToo, que despontou em 2017. Quando eles lançaram o álbum anterior, "Strange little birds" (2016), o país norte-americano era presidido por Barack Obama.

"O mundo ficou completamente louco. Com Trump, todos os dias eram um caos. Não sabíamos o que sairia da boca dele. Agora que ele saiu do cargo, há uma sensação coletiva de alívio, mas ainda existe uma série de problemas a serem resolvidos, que foram ampliados por conta da COVID", diz Butch Vig.

O músico conta que "No gods no masters" começou a nascer no início de 2019, quando a banda alugou uma casa em Palm Springs para começar a pensar num próximo trabalho. "Ficamos só tocando por uma duas semanas e criamos cerca de 30 músicas", diz.

"De início, achei que o disco sairia bastante orquestral, com uma pegada atmosférica. Quando nós três [ele, Duke e Steve] paramos para ler o que Shirley estava escrevendo, percebemos que seria um álbum político, em termos do conteúdo das letras."

A partir daí, os três músicos se deram conta de que a sonoridade deveria ser "angular, intensa e caótica" para combinar com as letras escritas por Shirley Manson. Quando a banda terminou a música "The man who ruled the world", responsável por abrir o trabalho, os integrantes decidiram que ela nortearia o registro.

''Quando percebemos que o Garbage nunca tocaria no top 40 das rádios, isso nos libertou para fazer o que quiséssemos. Acredito que alguns fãs não vão gostar [do novo trabalho]. Eles querem música pop, dançante e escapista. Mas se eles derem uma chance, essas músicas podem ajudá-los a se sentir empoderados''

Butch Vig, baterista do Garbage


LOUCURA

"Shirley escreve sobre a loucura do mundo em que todos nós vivemos. O número de problemas com os quais todos estamos lidando é simplesmente absurdo", comenta o baterista.

Para ele, no passado, a banda não poderia ter feito um disco como esse, já que estava em busca de boas posições nas paradas. "Quando percebemos que o Garbage nunca tocaria no top 40 das rádios, isso nos libertou para fazer o que quiséssemos. Acredito que alguns fãs não vão gostar [do novo trabalho]. Eles querem música pop, dançante e escapista. Mas se eles derem uma chance, essas músicas podem ajudá-los a se sentir empoderados", diz.

De fato, o disco é diferente. Para uma banda que produziu hinos geracionais como "Only happy when it rains", "Push it" e "I think I'm paranoid", o Garbage ocupou uma zona de conforto nos últimos trabalhos, que não empolgaram. Em "No gods no masters", o sétimo da carreira, eles exploram uma inédita rapidez e estreitam a relação com o rock industrial.

Os três singles divulgados para promover o trabalho – o já citado "The men who rule the world", "Wolves" e "No gods no masters" – já apontavam para essa mudança. O restante das faixas (são 11, no total) mantém o ritmo frenético e algumas são fortes candidatas ao próximo hit da banda, como "The creeps" e "Anonymous XXX".

COVERS

Produzido pela banda com Billy Bush, marido de Shirley Manson, o registro chegou às plataformas digitais em edição dupla que reúne uma série de singles e compactos que o Garbage lançou nos últimos anos, incluindo covers de clássicos como "Because the night", de Patti Smith, e "Starman", de David Bowie (1947-2016).

Butch Vig, que antes de integrar o Garbage produziu o seminal "Nevermind" (1991), do Nirvana, conta que uma das curiosidades do novo trabalho é que eles o trataram como uma "folha em branco".

"Nós quatro tomamos decisões de produção e temos ideias para as músicas. Normalmente, quando começamos um álbum, todos nós trazemos algumas ideias de batidas e acordes. 'No gods no masters' nasceu como uma folha em branco. Nós três começamos a tocar a partir das letras de Shirley", diz.

Os quatro integrantes estão de acordo sobre as ideias registradas no álbum. "Temos a sorte de compartilhar a mesma sensibilidade política e cultural. Quando Shirley canta e escreve, ela está fazendo isso por nós quatro. Não há uma letra neste álbum que não fale por todos nós", afirma.

O baterista não economiza elogios ao falar da vocalista. "Ela é o centro, a pessoa que nos lidera e ela é muito boa nisso. Ela tem opiniões muito bem formadas. Muitos de nossos fãs sentem uma conexão com ela por causa de sua maneira de compartilhar suas ideias. Para uma banda, é importante ter isso."

BRASIL

Apesar das quase três décadas de estrada, a banda tocou no Brasil somente duas vezes. A primeira foi em 2012, no extinto festival Planeta Terra, em São Paulo. Na segunda, em 2016, eles voltaram para uma turnê solo na capital paulista e no Rio de Janeiro.

Butch Vig define os fãs brasileiros como "entusiasmados e apaixonados". Na opinião dele, "quanto mais nos aproximamos da linha do Equador, mais apaixonadas as pessoas são".

Em 16 de março passado, a banda demonstrou preocupação com o Brasil por meio de um tuíte no qual se lia: "Estamos horrorizados ao ler o que está acontecendo com a COVID em seu país. Isso é um pesadelo".

"Muitos governos não souberam lidar muito bem [com a pandemia]. O nosso não soube. Infelizmente, muitas pessoas que não deveriam estar mortas morreram. E os antídotos contra isso são a vacina e a informação", se houvesse informações melhores.

Apesar do alarme, ele não descarta um retorno ao Brasil e espera que isso possa acontecer em breve, possivelmente em 2022. Com o afrouxamento das restrições impostas pela pandemia no hemisfério norte, a banda retorna aos palcos em 10 de julho próximo, em Toronto, no Canadá, e já tem apresentações marcadas nos Estados Unidos e no Reino Unido, como convidada especial da turnê de comemoração dos 25 anos do álbum "Jagged little pill" (1995), de Alanis Morissette.
(foto: STUNVOLUME/Infectous Music/BMG/Divulgação)
(foto: STUNVOLUME/Infectous Music/BMG/Divulgação)

“NO GODS NO MASTERS”
• De Garbage
• 11 faixas
• STUNVOLUME/Infectous Music/BMG
• Disponível nas plataformas digitais 


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