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Estado de Minas MÚSICA

"Blue weekend" comprova que a renovação do rock é feminina

Terceiro disco da banda Wolf Alice, liderada pela cantora Ellie Rowsell, confirma o grupo como um dos melhores nomes do indie rock atual


08/06/2021 04:00

O quarteto Wolf Alice lançou seu novo álbum na última sexta e fará shows no Reino Unido, na Irlanda e nos EUA(foto: Jordan Hemingway/Divulgação )
O quarteto Wolf Alice lançou seu novo álbum na última sexta e fará shows no Reino Unido, na Irlanda e nos EUA (foto: Jordan Hemingway/Divulgação )

Não é de hoje que as mulheres representam a renovação do rock, seja em carreira solo ou ao liderar bandas de sucesso. A cantora e guitarrista inglesa Ellie Rowsell se encaixa na segunda categoria. Ela é a vocalista e líder do grupo Wolf Alice – também formado pelos músicos Joff Oddie (guitarra), Theo Ellis (baixo) e Joel Amey (bateria) –, que, desde 2015, é um bom representante do indie rock feito no Reino Unido hoje. 

Em seu terceiro disco, "Blue weekend", a banda mantém a curva ascendente que construiu até aqui e entrega o trabalho mais coeso da carreira. O álbum chegou às plataformas digitais na última sexta-feira (04/06), depois de uma bem-sucedida campanha de divulgação iniciada em fevereiro passado, com o single "The last man on Earth". 

Com ele, já era possível dizer que a banda se beneficiou do hiato de três anos sem músicas inéditas para explorar uma nova sonoridade, mais limpa, sem a euforia natural de quem está começando. Ellie Rowsell também mostrava vocais à altura da abordagem melancólica da canção.

SINGLE  

Em abril, veio "Smile", e nela os fãs puderam vislumbrar o Wolf Alice a que estavam acostumados, com as tradicionais guitarras e baterias, mas com uma pegada rock de arena. Na música, Ellie declama a letra como se fosse um rap. O instrumental, por sua vez, aproxima a música do shoegaze, principalmente no refrão.

Em maio, a banda lançou "No hard feelings", música em que eles acenam para o folk, sem se deixar levar pela simplicidade que marca o estilo. Com a adição de sons sintetizados, criam na gravação uma espécie de dream pop acessível. Ellie mantém a qualidade dos vocais e explora tons mais agudos.

No dia da chegada do disco, o grupo lançou "How can I make it ok?" como single. Uma das melhores músicas do trabalho, ela tem todas as características de uma boa canção: um instrumental marcante; uma letra inteligente e uma progressão crescente. A faixa tem tudo para entrar no panteão de clássicos do indie rock, só falta servir de trilha sonora para alguma série ou filme cultuado. Nostálgica na medida, ganhou um videoclipe que mostra um senhor se apresentando diante de uma plateia debochada de um karaokê.

"Blue weekend" é composto por 11 faixas distribuídas ao longo de pouco mais de 40 minutos. Assim como nos trabalhos anteriores, Wolf Alice acerta na primeira faixa, a sucinta "The beach", que parece pensada para pegar o ouvinte logo de cara.

O que faz todo o sentido quando começa "Delicious things", a faixa seguinte, mais contemplativa. A letra ambígua é sussurrada por Ellie Rowsell nos versos e fica melódica no refrão. "O cara do jardim, acho que o nome dele é Adam/ Ele está na cama aqui ao meu lado, embora eu ache que ele é um homem mau/ Ele gosta do fato de eu tocar música em uma banda/ Ele está fazendo um filme e a trilha sonora precisa de ajuda", diz um dos versos. 

“Extravagância disfarçada de elegância é entediante/ Eu não pertenço a este lugar, embora seja muito divertido aqui”, canta ela, como quem fala do lugar aonde a banda chegou.

A qualidade se mantém na próxima canção, "Lipstick on the glass", que recupera a grande influência que o grunge teve no início da história da banda. Nos versos dessa faixa, Ellie opta por vocais agudos. No refrão, ela canta grave e torna essa inversão interessante para quem escuta.

"Smile" é a quarta faixa, seguida de "Safe from heartbreak (If you never fall in love)", uma canção breve, bastante marcada pelo violão e vozes, não só de Ellie, mas também dos outros integrantes.

A sexta faixa, "How can I make it ok?", antecede "Play the greatest hits", música que foge da abordagem contemplativa dada ao restante do álbum. Com guitarras pesadas e gritos, ela é um pop punk divertido que soa deslocado. Ainda assim, é interessante ver como a banda consegue transitar por diferentes ritmos.

"Feeling myself", a oitava faixa, traz uma abordagem jazzística. É um dos destaques do trabalho e tem a presença de teclados que referenciam os anos 1970. O refrão traz para a música um peso inesperado e barulhento. Nela, fica clara a importância dos outros músicos para a banda. Trata-se de uma gravação em que cada um deles tem o seu momento para brilhar.

"The last man on Earth" e "No hard feelings" são as faixas seguintes e o álbum acaba com "The beach II", que faz referência à primeira música do disco. Apesar de homônimas, elas são diferentes, já que a segunda conta com a adição de instrumentais bastante ruidosos.

LIVES 

Em virtude da pandemia, a banda ainda não pôde experimentar as novas músicas diante do público. Graças às lives, eles tiveram duas grandes experiências ao vivo. A primeira foi na edição virtual do festival inglês Glastonbury, em 22 de maio último, ao lado de atrações como Coldplay, IDLES, Damon Albarn e HAIM. A segunda foi no Radio 1's Big Weekend 2021, que ocorreu entre 28 e 31 de maio, também no formato on-line.

Em ambas as ocasiões, Ellie Rowsell, Joff Oddie, Theo Ellis e Joel Amey já apresentavam o vigor de quem lançaria, talvez, um dos melhores álbuns do ano – já não é tão cedo para essa afirmação. Com a retomada dos shows presenciais no hemisfério norte, a banda já tem shows marcados nos Estados Unidos, no Reino Unido e na Irlanda.

Inicialmente, uma dupla de música acústica formada por Ellie e Joff em 2010, o Wolf Alice passou a ser um quarteto em 2012. Depois de três EPs – "Wolf Alice" (2010), "Blush" (2013) e "Creature songs" (2014) –, a banda lançou o disco de estreia, "My love is cool", em 2015, alcançando sucesso comercial e de crítica com os singles "Moaning Lisa smile", "Bros" e "Lisbon".

Com o segundo álbum, "Visions of life" (2017), eles venceram, de forma bastante inesperada o prestigiado Mercury Prize de 2018, premiação que desde 1992 elege o melhor álbum britânico do ano. Naquele edição, a banda novata desbancou concorrentes de peso, como Arctic Monkeys e Florence + The Machine, a cantora Lily Allen e o ex-Oasis Noel Gallagher.

Não será um espanto se o Wolf Alice de Ellie Rowsell repetir o feito na próxima edição do prêmio, a ser realizada em 2022. Curiosamente, apenas outra grande roqueira conseguiu isso: PJ Harvey, em 2001 e em 2011, com os discos "Stories from the city, stories from the sea" (2000) e "Let england shake" (2011), respectivamente.  

“Blue weekend”
De Wolf Alice
11 faixas
Dirty Hit/RCA Records
Disponível nas plataformas digitais


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