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Estado de Minas CINEMA

Estreia no Brasil tragicomédia 'Surdina', com roteiro de Valter Hugo Mãe

Longa tem como protagonista homem que se diz viúvo e alvoroça os curiosos de sua cidadezinha, enquanto seus amigos agem como cupido


13/05/2021 04:00 - atualizado 13/05/2021 07:24

Na história, os amigos do solitário e taciturno protagonista tentam convencê-lo a encontrar um novo amor (foto: Fotos: Fênix Filmes/Divulgação)
Na história, os amigos do solitário e taciturno protagonista tentam convencê-lo a encontrar um novo amor (foto: Fotos: Fênix Filmes/Divulgação)

"Nossa língua escrita é mais próxima do que nossa oralidade. Para mim, é muito estranho que meus filmes passem legendados no Brasil. Há um lado da nossa oralidade que se afastou em termos linguísticos. Mas, apesar disso, há uma série de coproduções já feitas entre os dois países que por razões óbvias na história recente do Brasil se interromperam"

Rodrigo Areias, cineasta português


Entre as muitas representações possíveis da cultura portuguesa, aquela ligada ao interior do Minho, no Norte do país lusitano, tem significado especial para o cineasta Rodrigo Areias. Nascido na cidade de Guimarães há 43 anos, o diretor retornou ao universo afetivo ligado à sua terra natal em “Surdina”, filme roteirizado pelo cultuado compatriota Valter Hugo Mãe. 

Depois de estrear mundialmente na 43ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em 2019, de ser premiado no Festival Internacional de Cinema de Girona (Espanha) na categoria principal, e ainda em melhor fotografia e melhor trilha original, o longa chega nesta quinta-feira (13/5) ao mercado brasileiro via plataforma CineSesc

A trama é ambientada no Centro Histórico de Guimarães, onde construções erguidas há centenas de anos são habitadas por um povo provincianamente pitoresco. É o caso de Isaque, personagem central da história, interpretado por António Durães. Aparentando já ter passado dos 60, o solitário e carrancudo morador recebe a notícia de que sua ex-mulher, que ele afirma ter morrido, reapareceu na região e foi vista fazendo compras em uma feira local. 

O episódio logo se torna tema de conversas entre algumas senhoras de notável predileção por assuntos relacionados à vida alheia. O burburinho potencializa a angústia do protagonista. Preocupados, seus melhores amigo, Luís (Fernando Moreira) e Armando (Jorge Mota), surgem dispostos a oferecer um alento a Isaque e encaminhá-lo, quem sabe, para um novo amor que o faça se esquecer da ex-esposa, esteja ela viva ou não. A dupla tem até uma pretendente, a solteirona Dona Micas (Ana Bustroff).

TRAGICOMÉDIA 

Diretor Rodrigo Areias filmou o longa em Guimarães, sua cidade natal, que hoje tem aproximadamente 50 mil habitantes, com o ator António Durães (à esq.) no papel principal
Diretor Rodrigo Areias filmou o longa em Guimarães, sua cidade natal, que hoje tem aproximadamente 50 mil habitantes, com o ator António Durães (à esq.) no papel principal
Definida como uma “tragicomédia minhota” pela equipe de produção, a inusitada situação de Isaque vai se desenrolando ora pelas compridas línguas das senhoras nas ruelas da cidade, ora na mesa da tasca que ele frequenta, entre um gole e outro de vinho. 

Ele jura que sua mulher está morta e as pessoas próximas preferem não entrar em conflito quanto a isso. Contudo, pelas suas costas é dito até mesmo que ela já está com um novo companheiro. Quando não está se indispondo com alguém por causa desse assunto, Isaque fica solitário em sua antiga casa, cuidando de seus pássaros e alimentando uma criatura misteriosa que mantém presa em uma jaula. Elementos que ganham sentido metafórico na história. 

Apesar dessa ambientação regional, com elementos bem típicos da localidade portuguesa que o diretor conhece bem, trata-se de uma trama com aspectos universais. “Em qualquer lugar, todos os pequenos meios têm esse lado da pressão social, vizinhos que vivem à escuta e a tentar perceber o que se passa na vida dos outros. No fundo, é mais de todos os meios, não apenas de Guimarães ou do Minho”, afirma Rodrigo Areias em entrevista ao Estado de Minas. 

O cineasta destaca que a história escrita por Valter Hugo Mãe traz “a amizade, o processo de envelhecimento e a questão do amor nessa idade avançada” como temas principais, comuns em qualquer parte do mundo. Porém, ressalta que pontos muito próprios da vida no Minho estão incorporados à trama.

“Uma característica muito específica ali tem a ver com a relação das pessoas com o patrimônio físico, com a pedra, com a construção. Isso acaba sendo maior talvez porque Guimarães seja um marco histórico para Portugal, e as pessoas levam isso muito ao peito, dando muita importância ao patrimônio material. Há um grande respeito pela pedra, pelas construções. Tirando isso, é tudo muito universal no filme”, analisa Areias. Guimarães tem hoje pouco mais de 50 mil habitantes na sede do município, considerado o berço histórico da nação portuguesa. 

 “Tenho essa relação natural de amor óbvio com esse espaço. Saí de lá aos 17 anos, voltei depois dos 30 para fazer uma estrutura de produção de cinema. Tenho essa relação resolvida e há coisas que eu adoro, como as tascas tradicionais, onde costumo ir, e as pessoas que trabalham nelas. Tem a ver com minha própria relação com as pessoas e com o espaço”, comenta o cineasta. 

O diretor fez questão de inserir alguns desses aspectos no filme. Muitos diálogos são acompanhados por um “copinho de vinho” e petiscos típicos, como o presunto curado e as nozes. A trilha sonora original, composta pelo guitarrista Tó Trips, um dos mais aclamados de Portugal, complementa a ambientação.  

SOTAQUE 

Outro aspecto é o linguajar dos personagens. “É um sotaque mais natural para mim, que cresci na região. Então há a autorização do palavrão como pontuação, não como agressão, mas como interjeição no diálogo. No Norte de Portugal, o diálogo parece mais agressivo, embora as pessoas sejam mais calorosas umas com as outras”, diz Areias.

Ele e Valter Hugo Mãe estiveram nos cenários e conviveram com pessoas que vivem ali. A família do escritor também tem origens na localidade. Mais especificamente em São Cristovão do Selho, freguesia que também faz parte da trama.  

“Alguns moradores que conheci até aparecem no filme e foi um processo que fez com que os atores apanhassem esses trejeitos. Além da maquiagem e do figurino, apanharam também todo esse microcosmos do centro histórico de Guimarães”, diz. 

Rodrigo Areias aproveita a estreia do longa por aqui para falar sobre a relação cultural entre os dois países. Se na literatura o intercâmbio de autores e publicações é forte, no cinema a troca não é tão grande. 

“Nossa língua escrita é mais próxima do que nossa oralidade. Para mim, é muito estranho que meus filmes passem legendados no Brasil. Há um lado da nossa oralidade que se afastou em termos linguísticos. Mas, apesar disso, há uma série de coproduções já feitas entre os dois países que por razões óbvias na história recente do Brasil se interromperam”, comenta.

O cineasta demonstra preocupação em relação à viabilidade atual do cinema brasileiro. “Não será só nessa área (cinema), mas efetivamente vai nos afastar e vai demorar a nos reaproximar. A política que existia entre a Agência Nacional do Cinema (Ancine) e o Instituto do Cinema e Audiovisual de Portugal (ICA) dava frutos e iria dar muito mais”, observa Areias, que espera que retomemos as políticas de incentivo ao audiovisual.

“SURDINA”
Direção: Rodrigo Areias. Roteiro: Valter Hugo Mãe. Com António Durães, Adelaide Teixeira, Fernando Moreira, Jorge Mota, Filomena Gigante. Portugal, 2019. Disponível a partir desta quinta-feira (13/5) na plataforma digital do CineSesc.


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