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Estado de Minas MÚSICA

Rapper mineiro Abu lança 'Vô', seu primeiro álbum

Título sugere tanto o ato de seguir adiante quanto o de se ancorar na maturidade do passado, metáfora que o artista quis fazer


24/04/2021 04:00 - atualizado 26/04/2021 13:05

O cantor conta que seu envolvimento com o Sarau Vira Lata foi decisivo para a decisão de prosseguir na carreira no universo do hip-hop(foto: Henrique Rangel/Divulgação)
O cantor conta que seu envolvimento com o Sarau Vira Lata foi decisivo para a decisão de prosseguir na carreira no universo do hip-hop (foto: Henrique Rangel/Divulgação)

“Vô” pode ser a abreviação que faz referência à serenidade de uma figura mais madura que sabe bem de onde veio, mas também a afirmação de quem está decidido a ir. O título amarra os conceitos que o rapper e produtor mineiro Abu levou para esse que é seu primeiro álbum, disponibilizado nesta semana nas plataformas digitais

Com sete faixas e lançado pela Xifuta Records, selo criado pelo próprio cantor, “” é fruto de anos dedicados às rimas e às experimentações sonoras. Guilherme Abu-Jamra, que assumiu a parte mais facilmente pronunciável do sobrenome como nome artístico e apelido, conta que o envolvimento com o rap vem desde a infância, como ouvinte. 

A relação se potencializou com o impulso do Sarau Vira Lata, projeto dedicado à poesia de rua inaugurado em Belo Horizonte em 2011. “No Sarau, eu me envolvi como produtor, ajudava a organizar, e aquilo acabou sendo uma escola e um incentivo para começar a escrever, colocar no papel e verbalizar para outras pessoas. Ainda que fosse um evento de poesia, vinha ali a métrica do rap, da rima, e lá sempre teve muita gente do rap envolvida”, relata o artista, que acaba de completar 30 anos. 

Inserido na grande articulação colaborativa característica da cena do hip-hop na capital mineira, Abu começou a compor as próprias rimas e lançar algumas colaborações. Nesse processo ele destaca as parcerias com os rappers e beatmakers locais, como é o cao de Cizco e Fumaça. 

MATURIDADE

Contudo, ele destaca que um disco próprio começou a nascer quando estendeu sua criatividade para a produção dos beats, a base melódica do rap. “De uns quatro anos para cá, me interessei mais em produzir os instrumentais e comecei a entender qual era a minha linguagem . Fui selecionando, construindo uma atmosfera. É um processo, até chegar onde queria, entendendo que tinha maturidade suficiente para um trabalho com a minha linguagem no rap”, diz. A produção teve também forte influência de uma pesquisa acadêmica feita pelo próprio compositor. 



Mestre em antropologia social pela Universidade Federal de Santa Catarina, sua dissertação, desenvolvida entre 2018 e 2020, abordou “música, performance, e processos de globalização em relação ao rap e à produção musical do MC”. 

“A pesquisa tinha a ver não só com a letra que as pessoas escrevem, mas com a mensagem, no sentido mais amplo de construir o universo no qual o ouvinte entra. É como se fosse um cenário de um filme, tem essa coisa da música imagética. O álbum surge quando eu chego nessa imagem que eu queria construir com os beats de um cenário mais simples, mais minimalista, mais orgânico”, afirma.

Nas sete músicas, predomina essa ambientação sonora suavizante a que Abu se refere. Apesar dos experimentalismos, a melodia encontra um tom mais harmonioso, que no rap vem sendo chamado de “lo-fi”. A ela se somam rimas sobre temas mais amenos. 

“Tentei passar essa atmosfera calma, de forma que a voz não ficasse tão à frente do instrumental, é uma coisa mais fluida, com a voz compondo, sem ser o destaque”, explica.

POSSIBILIDADES

Esse estilo é uma amostra das diversas possibilidades que o rap pode oferecer. “O rap é uma música contemporânea, vários de seus pioneiros estão vivos. O Afrika Bambaataa já veio a BH várias vezes, pudemos ter contato”, cita Abu.

“É um processo que está acontecendo e tem algo meio antropofágico, pela questão dos samples (reutilização de parte de uma gravação de outro artista). Tem essa natureza de se fundir com outras coisas. Temos visto o rap tomar várias formas no Brasil e é interessante pensar nessas possibilidades.”

Ele ainda reforça que, embora o hip-hop tenha hoje grande projeção midiática, fora desses holofotes existe “muita gente experimentando e criando novas linguagens”. Diante da diversidade do cenário, o rapper cita os pontos que seu trabalho tem em comum com o que há de mais marcante no amplo universo do rap. “Tem gente que faz um experimental mais acidental, mais ‘noise’. No meu caso, tem essa sensação mais melódica, que dialoga com outros gêneros musicais, como jazz, bossa nova, de forma mais harmoniosa, mais tranquila”, diz ele. 

“Mas apesar de várias pessoas trabalharem em linhas diferentes, uma influência que rola é encontrar uma linguagem em que cada um se sinta à vontade para construir a própria atmosfera”, observa. 

“Eu tive muito contato com o Djonga, ele tem outra linguagem, trata de outras coisas nas músicas dele, mas é autêntico. O importante é entender a sua autenticidade, porque cada um é autêntico de uma forma. O estilo pode variar, mas ou é autêntico ou não é.”

DIÁLOGO

 “Vô”, que traz essa dupla possibilidade de significados, tem nas músicas questões que permearam a mente de Abu nos últimos anos. “Eu até tenho uma brincadeira com pessoas mais próximas de falar sobre o ‘estilo vovô’, que é um modo de se vestir, de dançar, com o qual me identifico. Algo sobre ser um cara mais antigo num corpo mais novo. E dialoga com a ideia de uma figura mais serena, mas também com a afirmação de ‘vou!”. 

Ele explica ainda que essa é uma metáfora sobre uma contradição na qual se viu em 2019. “No momento de vida que eu atravessava, em paralelo a esse momento político do Brasil. Eu pensava que era preciso respirar e pensar a respeito de onde estava indo, porque fazer as coisas sem pensar estava fazendo aflorar coisas com as quais não concordo. Então é sobre isso: pensar sem perder o ímpeto”, esclarece.

No álbum, Abu foi responsável ainda pelas produções instrumentais, gravação, pré e pós-produção, finalização e mixagem. Apesar de concentrar em si mesmo quase todo o trabalho, ele teve a companhia de nomes conhecidos do rap nacional em algumas faixas. 

Cizco entra nos vocais de “Bandeira”, primeiro single do álbum. “Cama de pregos”, cujas rimas falam sobre a saudade dos amigos que vão buscar a vida em outras terras e que ganhou um clipe recentemente, tem participações do rapper mineiro Oreia e do músico Rafael Fantini. O cantor e instrumentista francês KriBla aparece em “Garoa fina" e o cantor Matéria Prima repete a parceria já feita anteriormente na faixa-título "Vô". 

“VÔ”
• 7 faixas
• Xifuta Records
• Disponível no Spotify, Deezer, Apple Music, Tidal, Amazon Music, YouTube e outras plataformas digitais


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