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Estado de Minas PERFORMANCE CÊNICA

'Morra, amor' defende a mulher, vítima de tabus que cercam a maternidade

Protagonizado por Camila Nhary, monólogo on-line investe na linguagem híbrida que mescla teatro e cinema. Estreia será nesta quinta, no YouTube e Instagram


18/02/2021 04:00 - atualizado 18/02/2021 07:41

Camila Nhary diz que performance teatral revela a dor das mães que enfrentam a dificuldade de se expor(foto: José Eduardo Limongi/divulgação)
Camila Nhary diz que performance teatral revela a dor das mães que enfrentam a dificuldade de se expor (foto: José Eduardo Limongi/divulgação)
“Morra, amor”, que estreia nesta quinta-feira (18/2) no Instagram e no YouTube, aborda os dilemas da mulher diante dos tabus que cercam a maternidade. Dirigida por José Eduardo Limongi e Karine Teles, a atriz Camila Nhary protagoniza o espetáculo. Foi ela quem adaptou o livro homônimo da argentina Ariana Harwicz.

“Existe uma cobrança cruel para que a mulher cumpra o papel de mãe e esposa feliz. Tudo que fuja um pouco disso é socialmente condenado. Muitas mulheres vivem dramas psicológicos e sofrem caladas por vergonha e repressão”, diz Camila. “'Morra, amor' lança um olhar sobre essa dor e abre uma possibilidade de reflexão sobre o tema, ainda tabu em nossa sociedade.”

"A personagem é colocada no lugar de maluca, o que ela não é. Estamos falando de uma mulher normal"

Camila Nhary, atriz

OLHAR 

O diretor José Eduardo Limongi é também fotógrafo de cinema. Camila explica que o espetáculo on-line oferece olhar cinematográfico sobre uma performance artística baseada em um livro. “Escolhi trazer uma mulher para a codireção. Grande atriz, Karine é mãe e começa a se aventurar como diretora”, ressalta. Marcello H compôs a trilha sonora original, que será executada ao vivo.

“Estamos tentando entender o que é esse hibridismo entre teatro e cinema. Faremos apresentação ao vivo, como se fosse espetáculo teatral, mas pensado para o audiovisual. Não vai ter plateia, será filmado numa sala que não é teatro. Faremos com uma equipe de cinema e equipamentos profissionais. Então, tem o olhar e a exploração bem forte da linguagem audiovisual.”

Tudo começou quando uma amiga indicou a Camila o livro publicado pela editora Instante. “Li e na hora já o imaginei no teatro. Identifiquei-me muito, pois também sou mãe”, comenta a atriz.

“Morra, amor” compõe uma trilogia com os romances “A débil mental” e “Precoz” (“Precoce”, em tradução livre), este último sem tradução para o português. A proposta é preservar na performance teatral o aspecto literário da obra de Ariana Harwicz.

A pandemia trouxe complicações para a atriz, que não conseguiu levar o texto para os palcos. Depois de obter pequena verba junto à Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Estado do Rio de Janeiro, Camila decidiu produzir a microssérie com cinco episódios de seis minutos, que foi transmitida via YouTube e Instagram.

“A repercussão foi muito legal. Então, inscrevi o projeto no edital da secretaria e fui contemplada com uma verba maior”, conta. Daí resultou a performance que estreia hoje.

A atriz considera urgente discutir o papel da mulher contemporânea por meio da personagem de “Morra, amor”. “Moralmente, existe nela o desejo de não pertencer ao universo em que acabou ingressando”, observa. A protagonista é culta, costumava ler e se informar. Porém, viu-se limitada a cumprir exclusivamente o papel de mãe e esposa numa cidade do interior. “Essa é uma questão eterna para as mulheres, tanto as de ontem quanto as de hoje”, destaca Camila.

Assista a um trecho do espetáculo: 


FLUXO

A atriz afirma que Ariana Harwicz expõe habilmente o fluxo de pensamentos da personagem. “O pensamento é algo que a mulher não externaliza, mas ela pensa e tem sentimentos ruins com relação a questões que a maternidade traz. Isso não quer dizer que não ame seu filho. Isso quer dizer que ela tem sentimentos honestos”, defende a atriz.

A sociedade não consegue lidar com esta profunda inquietação feminina. Muitas mães têm dificuldades de ir ao banheiro porque o filho não sai do colo e levam o bebê com elas, lembra a atriz.  “As mulheres não se sentem à vontade para falar sobre isso, pois a sociedade espera que o universo da mãe seja perfeito. Que ela ame o filho tão incondicionalmente que não pode ter nenhum pensamento de arrependimento, nem por um segundo.”

Camila Nhary ressalta a necessidade de questionar tabus. Um deles é de que não existe alegria maior no mundo do que ser mãe. “É uma cobrança. No livro, a personagem é colocada no lugar de maluca, o que ela não é. Estamos falando de uma mulher normal”, enfatiza.

Camila conta que mães que assistiram à microssérie ou leram o livro se identificaram com as ideias da autora argentina. “Elas sentem um nó na garganta diante daquelas aflições, pois são humanas, verdadeiras. É importante falar disso”, reforça a atriz.

“MORRA, AMOR”
Estreia nesta quinta-feira (18/2), às 21h. Sessões até domingo (21/2), no Instagram (@morraamor) e YouTube. Gratuito. Sábado (20/2), às 19h30, tem bate-papo on-line com a atriz Camila Nhari e os diretores José Eduardo Limongi e Karine Teles


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