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Estado de Minas INDÚSTRIA CULTURAL

Remakes e redescobertas estão entre os (raros) casos de sucesso na pandemia

O período de isolamento social é de perdas para a maioria da indústria de arte e entretenimento. Confira o que deu certo


06/02/2021 04:00 - atualizado 06/02/2021 11:47

Lançada no Natal de 2020, a série Bridgerton se tornou o maior sucesso da história da Netflix, de acordo com a plataforma, impulsionando de volta às listas de mais vendidos o livro no qual se baseia(foto: Liam Daniel/Divulgação)
Lançada no Natal de 2020, a série Bridgerton se tornou o maior sucesso da história da Netflix, de acordo com a plataforma, impulsionando de volta às listas de mais vendidos o livro no qual se baseia (foto: Liam Daniel/Divulgação)
Embora tenha sido lançado no Brasil em 2019 e, um ano antes, em Portugal, o romance Torto arado (Todavia), do escritor baiano Itamar Vieira Junior, vencedor dos prêmios Jabuti e Oceanos, alcançou neste mês o topo da lista dos mais vendidos da Amazon. No ranking da Estante Virtual, liderou em dezembro passado e ficou em terceiro lugar em janeiro. 

Entre os livros mais vendidos neste início de 2021 também está O duque e eu (editora Arqueiro), o mais vendido de janeiro na categoria ficção, segundo o Publishnews. Na classificação feita pela revista Veja, figura atualmente em segundo, depois de liderar até a semana passada. 

O romance de Julia Quinn foi lançado há mais de 20 anos, em 2000, dando início a uma série da escritora norte-americana. Para entender o sucesso extemporâneo, basta fechar o livro e ligar a TV. Em dezembro passado, a Netflix lançou a primeira temporada de Bridgerton, série baseada na obra de Quinn. De acordo com a plataforma, a produção é a mais vista de sua história.

Em quase um ano de pandemia da COVID-19, declarada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em março de 2020, a indústria cultural lida com os efeitos da desorganização de suas estruturas. Espetáculos musicais e teatrais foram suspensos em todo o mundo, produções cinematográficas canceladas, lançamentos adiados e filmagens e gravações impossibilitadas. 

Contudo, como demonstram os exemplos acima, o período caótico para a vasta maioria do setor foi de grande sucesso para alguns poucos, com produtos que se viabilizaram nos meses de isolamento e conquistaram o público em suas casas.

Os serviços de streaming foram os grandes beneficiados do período, que inclui longas quarentenas. Somente nos EUA, as principais plataformas de vídeo sob demanda tiveram um aumento estimado de 50% no número de assinantes em relação a 2019, segundo o The Wall Street Journal. 

REALEZA 


Para a Netflix, o grande expoente disso foi a primeira temporada de Bridgerton, que em um mês foi vista por 82 milhões de assinantes em todo o mundo. Com oito episódios, a trama que acompanha a vida de famílias da realeza e da alta sociedade inglesa no início dos anos 1800 se tornou a produção assistida pelo maior número de contas diferentes no serviço. Vale lembrar que essa estatística contabiliza a partir de dois minutos de visualilzação.

Entre as razões que justificam o alto interesse, especialistas citam figurino e ambientação de época caprichadas, além de uma trama picante que abraça a representatividade racial. 

"A popularidade de Bridgerton desde seu lançamento na Netflix não me surpreende. As pessoas adoram programas cheios de drama, escândalos e gente bonita", escreveu Carolyn Hinds, escritora e membro da Associação de Críticos do Cinema Afro-Americano (AAFCA). 

Além desses elementos, a série teve a sorte de estrear no lugar certo e na hora certa, dadas as condições da pandemia. 

"O lançamento, no dia de Natal, ocorreu em um momento perfeito, em meio a um período de ansiedade generalizada”, avaliou Hugh Montgomery, da BBC Culture. Afinal, aponta o crítico, esse é o “tipo de série de televisão para esse momento pelo qual estamos passando. As pessoas procuram coisas que sejam reconfortantes, agradáveis e não muito pesadas, que não sejam intelectual ou emocionalmente profundas".

Com a nova versão de seu hit em homenagem ao Instituto Butantan e à vacina contra a COVID-19, MC Fioti voltou a viralizar(foto: Suburbano/divulgação)
Com a nova versão de seu hit em homenagem ao Instituto Butantan e à vacina contra a COVID-19, MC Fioti voltou a viralizar (foto: Suburbano/divulgação)

ESCRAVIDÃO

 Se Bridgerton conquistou por essa oportuna amenidade, Torto arado, por sua vez, conquista por falar com brilhantismo sobre as graves cicatrizes deixadas pela escravidão no Brasil em uma história ambientada no sertão baiano. 

Em outubro passado, o editor Leandro Sarmatz, da Todavia, observou, em entrevista ao Estado de Minas, que “o livro tem se beneficiado do boca a boca, ainda hoje a melhor forma de ver um livro crescer e chegar aos leitores”. 

Sarmatz ainda destacou que “o livro também se beneficia desse nosso importante momento social e cultural de valorização de outras vozes, não hegemônicas, da nossa sociedade e história. Os quilombolas, os adeptos das religiões afro, as vozes rurais (mas dos trabalhadores do campo, não dos donos da terra). Essa outra história brasileira que ainda precisa ser contada, estudada, lembrada”.

Entre os muitos leitores e leitoras que têm recomendado o livro nas redes sociais está a antropóloga, historiadora, professora da USP e de Princeton Lilia Schwarcz. Em 27 de janeiro último, ela compartilhou no Instagram uma foto da capa de Torto arado, dizendo ter concluído a leitura.

Com Hollywood tremendamente impactada pela pandemia, a China assumiu a liderança do mercado cinematográfico, com filmes como The eight hundred, maior bilheteria de 2020(foto: Huay Brothers/divulgação)
Com Hollywood tremendamente impactada pela pandemia, a China assumiu a liderança do mercado cinematográfico, com filmes como The eight hundred, maior bilheteria de 2020 (foto: Huay Brothers/divulgação)

“Fiquem de olho na maneira como ele troca a narração e nos permite acompanhar a história a partir de ângulos diferentes. Fiquem de olho na complexidade e na simplicidade sincera dos personagens. Fiquem de olho em como o autor mostra de que maneira a escravidão é tema do passado e do presente também. Por fim, não deixem de ficar de olho na construção dos personagens, que não são nunca vítimas: reagem e agenciam sempre”, escreveu. 

Schwarcz ainda fez um alerta: “Escolham bem o momento em que vão começar a ler o livro. Daí por diante, é impossível parar. Eu virei até uma pessoa antissocial. Valia tudo para não interromper a leitura: indisposição cansaço ... Enfim, leiam já!”.

Além de livros e séries, a pandemia consagrou outros produtos culturais feitos para consumo doméstico. Mesmo que muitos artistas da música tenham enfrentado, além do cancelamento de suas turnês, a impossibilidade de gravar num estúdio, Taylor Swift conseguiu superar as dificuldades, lançar dois discos e bater recordes de vendas. 

Na segunda quinzena de julho do ano passado, a cantora norte-americana lançou Folklore, o oitavo álbum de sua carreira, que fechou 2020 como o mais vendido do ano nos EUA. 

Só nas primeiras 24 horas, foram 1,3 milhão de vendas (entre físicas e digitais), além de outros recordes de transmissões no serviços de streaming em um só dia. O disco também fez de Taylor Swift a mulher com maior número de semanas no topo da parada de sucessos Billboard 2020: 47 no total, não consecutivas, ultrapassando Whitney Houston. 

A estrela, que completou 31 anos em 2020, não parou por aí. Em dezembro, lançou outro disco, Evermore, que não teve os recordes de Folklore, mas rompeu a barreira de 1 milhão de cópias vendidas na primeira semana. 

No Brasil, os principais artistas da música pop nacional encontraram, logo nos primeiros meses de isolamento, uma alternativa para suprir a impossibilidade de shows presenciais. As lives experimentaram uma fase de grande popularidade no primeiro semestre de 2020. 

A cantora sertaneja Marília Mendonça soube aproveitar o momento e, em 8 de abril, teve a audiência simultânea de 3,3 milhões de pessoas, tornando- se o vídeo ao vivo mais visto da história do YouTube. O recorde vigente era de alguns dias antes, da dupla Jorge & Mateus.  

No mês passado, outro artista brasileiro viveu dias gloriosos durante a pandemia. O cantor de funk Mc Fioti viu as buscas por sua principal música, Bum bum tam tam, crescerem 284% no Spotify, segundo dados divulgados pelo serviço de streaming musical. 

Tudo graças à vacina CoronaVac, fabricada no Brasil pelo Instituto Butantan, que tem parentesco sonoro com o funk de Fioti. A versão original, que é inspirada em um tema de Bach, na época de seu lançamento chegou a fazer sucesso até fora do Brasil, depois que ganhou clipe com participação dos astros Future, J Balvin, Stefflon Don e Juan Magán. 

Em 2018, o vídeo bateu a marca de 1 bilhão de visualizações. Com o resgate do sucesso, em janeiro de 2020 ele gravou um novo clipe, no Instituto Butantan, com uma letra adaptada ao tema da vacina. 

CINEMA 

Premiado em 2019, o romance Torto arado se tornou uma sensação e foi parar no topo da lista dos mais vendidos neste mês(foto: Todavia/divulgação)
Premiado em 2019, o romance Torto arado se tornou uma sensação e foi parar no topo da lista dos mais vendidos neste mês (foto: Todavia/divulgação)

Setor cultural acostumado com grandes números e grandes cifras a cada ano, o cinema vem enfrentando tempos difíceis desde que a pandemia começou. O fechamento das salas por longos períodos em muitas partes do mundo fez com que boa parte das produções aguardadas fossem sucessivamente adiadas para quando a situação estiver mais favorável. 

Em Hollywood, os estúdios Warner usaram a ficção Tenet, de Christopher Nolan, como protagonista da reabertura dos cinemas em muitos países. Lançado em agosto no hemisfério norte, e em outubro no Brasil, o longa se tornou o filme norte-americano de maior bilheteria durante a pandemia, superando até mesmo Mulher-Maravilha: 1984, que ainda está em cartaz em muitos países, inclusive no Brasil. 

Contudo, graças a um controle mais eficiente da pandemia em relação ao Ocidente, entre outros fatores, o cinema chinês foi o grande destaque do período, fechando 2020 à frente dos EUA em arrecadação. 

A maior bilheteria do planeta em 2020 foi do épico de guerra The eight hundred, de Guan Hu, que não foi exibido por aqui.  

Neste ano, o cenário segue parecido, e as três maiores bilheterias do mundo até aqui são do indiano Master, seguido pelo russo The last warrior: Root of evil e pelo chinês Big red envelope.


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