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Estado de Minas ARTES CÊNICAS

Galpão, Luna Lunera e Armatrux apostam no palco virtual

Grupos mineiros descartam a apresentação de espetáculos de teatro, a curto prazo, em salas com a presença do público, apesar da autorização da prefeitura de BH. Projetos on-line são a única saída neste momento


15/11/2020 04:00 - atualizado 15/11/2020 07:20

"Pensar na presença do público não é realidade para nós. Ainda estamos nos preparando"

Raquel Pedras, atriz do Armatrux

A autorização para que teatros e casas de espetáculos voltem a receber o público foi dada pela Prefeitura de Belo Horizonte no último dia de outubro, por meio de decreto. Porém, apesar dos protocolos sanitários estipulados para proteger artistas, técnicos e plateia, a volta aos palcos diante do espectador ainda é algo distante para algumas das principais companhias de artes cênicas de BH. Obrigadas a se adaptar ao meio virtual para se manterem na ativa, elas vivem  um momento de aprendizado e incerteza.

“Não temos a perspectiva de abrir presencialmente nem em dezembro nem em janeiro. Estamos aguardando a vacina, acompanhando a evolução da pandemia, se vai ter segunda onda. Cansamos de reformular, plano A, plano B, plano C... Nada dá certo diante da indefinição da pandemia. Então, vamos ter muitas dificuldades em 2021. Se o poder público não se engajar responsavelmente no apoio às artes cênicas, haverá um estrago maior do que o que já vivemos”, alerta o ator e diretor Chico Pelúcio, integrante do Grupo Galpão desde 1982 e idealizador do Centro Cultural Galpão Cine Horto.

"Cansamos de reformular, plano A, plano B, plano C... Nada dá certo diante da indefinição da pandemia. Então, vamos ter muitas dificuldades em 2021%u201D

Chico Pelúcio, ator do Galpão


BILHETERIA 


Uma das mais longevas e reconhecidas companhias de teatro do Brasil, o Galpão já enfrentava situação complicada antes da pandemia, quadro que se agravou a partir de março, com a suspensão de espetáculos e bilheterias fechadas.

“Nunca trabalhamos tanto como neste ano. Primeiro, pelo abandono que a arte e a cultura enfrentam neste país e nesta cidade. Faltam apoio, possibilidades e financiamento”, diz Pelúcio. “Já era uma crise antes da pandemia, e com a COVID tivemos de nos adaptar. A arte e a cultura reagiram de forma solidária, cidadã, de forma empática. Nos reinventamos para estar junto do público, especialmente através de plataformas virtuais, que raramente são remuneradas.”

Por meio da internet, o Galpão Cine Horto transmitiu, no fim de outubro, o tradicional Festival Cenas Curtas, realizado desde 2000. Foi cobrado ingresso de R$ 5 para uma mostra específica do evento. Chico Pelúcio diz que o momento é de aprendizado, de conhecer melhor como fazer e como se relacionar com o público neste novo ambiente, que, segundo ele, pode ser mais inclusivo.

“Há experiências bem-sucedidas, como essa do Cenas Curtas. Foi uma forma de aprender sobre o mecanismo. Além disso, podemos pensar em públicos maiores. Se no teatro cabem 200 pessoas, na internet podemos alcançar 1 mil, 10 mil, se houver grande qualidade artística. Meu sonho é, um dia, me apresentar para 100 mil pessoas”, revela.

Em abril, o grupo planejou a Mostra Reencontro de Teatro de BH para dezembro, no Galpão Cine Horto. Seriam selecionados 16 espetáculos de 16 companhias locais com o propósito de promover o setor, abalado pela pandemia que ainda se iniciava.

“Imaginávamos que em dezembro seria possível um evento com público e bilheteria, mas, hoje, a nossa única possibilidade é realizá-lo on-line”, diz Chico Pelúcio. A mostra deve ser transmitida ao vivo na primeira quinzena do mês que vem.

No segundo semestre, o Grupo Galpão aproveitou o isolamento social para iniciar os estudos sobre sua próxima peça. Outros projetos tiveram de ser adaptados devido à impossibilidade de realizar sessões com a presença do público.

“Tínhamos um espetáculo quase pronto, que teria estreado em abril, no Festival de Teatro de Curitiba (Quer ver escuta). Ele acabou virando filme graças às tentativas de continuar ensaiando a distância. Virou documentário”, informa o ator, referindo-se a Éramos em bando, disponível no canal do grupo no YouTube. “Vamos adiantando o que podemos, mas sem a perspectiva do encontro, da aglomeração. Isso tudo está em suspenso.”

"Os teatros estão reabrindo com protocolos, mas temos responsabilidade com o público, com os artistas e técnicos. Há muita gente envolvida, teatro é aglomerativo"

Cláudio Dias, ator da Luna Lunera


RUA


O mesmo vale para o projeto Pé na Rua, que selecionou espetáculos de olho na possibilidade de realizar sessões a céu aberto – ideia inviável, por enquanto. “Ele estava praticamente pronto para estrear nas ruas em dezembro, mas não será possível. Vamos gravar em local fechado, para não perder o material, e tentar fazer a programação na rua em 2021”, informa o diretor.

Embora considere positivo o aprendizado sobre “a linguagem híbrida entre teatro e audiovisual” dos projetos on-line, Chico Pelúcio tem preocupações quanto ao futuro imediato que não decorrem da pandemia. “Vamos levar esse abandono completo da arte e da cultura. É a pior parte, essa perseguição, essa ignorância. O abandono por parte do município, do estado. O coronavírus vai passar, a vacina virá, mas isso não”, adverte.

“Hoje, só o que nos sobrou foi a Lei Aldir Blanc, uma gota d’água no deserto”, reclama Pelúcio, lamentando o cancelamento do FIT (Festival Internacional de Teatro), inicialmente previsto para este mês. A decisão da prefeitura se deve à COVID-19.

Outra companhia de destaque da capital, a Luna Lunera trabalha com a hipótese de não se reencontrar com o público tão cedo. Cursos de formação e espetáculos vêm sendo realizados no formato virtual e assim deverão seguir em 2021.

“Há várias perguntas. O público vai querer voltar? Há muita insegurança para todos nós, artistas e técnicos. Todos têm questões pessoais, pessoas próximas no grupo de risco. É muito delicado. Achamos prudente manter a relação virtual com o público”, argumenta Cláudio Dias, ator, diretor e fundador do grupo, que completará 20 anos em 2021.

Há planos para a celebração das duas décadas de atividades, entre eles uma mostra especial em 2021, cuja viabilização financeira está garantida, com projeto aprovado e captado via edital. Porém, a Luna Lunera vai “aguardar o desenrolar da pandemia”, diz Cláudio. O mesmo vale para outras iniciativas pensadas para o próximo ano.

“Tudo está muito incerto. Sabemos que os teatros estão reabrindo com protocolos, mas temos responsabilidade com o público, com os artistas e técnicos. Há muita gente envolvida, teatro é aglomerativo. Essa incerteza ainda ronda tudo”, pondera o ator.

CAMPANHA 


O grupo se recusa a participar da 47ª Campanha de Popularização do Teatro e Dança de Minas Gerais, que abriu inscrições este mês, com temporada em janeiro e fevereiro. “Preferimos aguardar. Em reunião, decidimos que não é hora para o retorno, apesar da vontade enorme de nos relacionarmos presencialmente com o público”, explica Dias.

Enquanto isso, a Luna Lunera se conecta virtualmente com o espectador por meio de eventos como o Quarta queer, realizado em parceria com a plataforma Beijo. Em breve, deve anunciar a sessão on-line da peça E ainda assim se levantar, a oitava montagem da companhia, que ficou em cartaz em 2019. Porém, Cláudio Dias não esconde a preocupação com as bilheterias fechadas e a suspensão das turnês, lembrando que há custos para sustentar o grupo.

“Temos uma sede, equipamentos, cenários. Como manter isso por tanto tempo sem viagens e apresentações? Estamos sem equipe específica de produção, nós mesmos cuidamos da administração. Muitas outras companhias estão passando por essa situação. Por isso solicitamos, por meio do Movimento de Espaços de Teatro Dança e Circo (Meta), planos emergenciais para o setor. Infelizmente, alguns grupos tiveram que parar ou entregar espaços, como o Microteatro La Movida. Necessitamos de algo para já, pois o teatro foi o primeiro a parar e será o último a voltar”, afirma Cláudio Dias.

O grupo Armatrux, que completa 30 anos em 2021, vive o mesmo drama. “A gente se mantém em quarentena. Não paramos as atividades, continuamos as reuniões virtuais e conversando artisticamente. Realizamos encontros para lives, mas com todos os cuidados, fazendo testes antes, pois temos familiares em grupos de risco”, conta a atriz Raquel Pedras. “Pensar na presença do público não é realidade para nós. Ainda estamos nos preparando.”

Durante a pandemia, a companhia fez duas apresentações ao vivo: as peças Armatrux, a banda, transmitida diretamente do espaço próprio C.A.S.A.(Centro de Arte Suspensa & Armatrux), e Palhaceia, no palco do Sesc Palladium.

QUASE 30 


Outro projeto é o audiovisual Quase 30, referência ao 30º aniversário do Armatrux, reunindo leituras com integrantes da companhia. “A gente se movimentaria muito em uma grande celebração, mas não sabemos se ela poderá acontecer. Então, falamos do atual momento, deste quase 30 que nos colocou no lugar de muitas reflexões, cada um em casa. É sobre a falta de encontro, essa coisa do talvez”, diz Raquel.

O vídeo já foi disponibilizado nas redes sociais do Armatrux. O grupo prepara outras atividades virtuais para os próximos meses, mas não revela detalhes sobre elas.

Enquanto as companhias articulam atividades alternativas, a Prefeitura de Belo Horizonte informa, em nota da Secretaria Municipal de Cultura, que está “concluindo os preparativos para a reabertura dos teatros públicos municipais, com a definição de programação e finalização da adequação ao protocolo sanitário vigente”.

A PBH promete anunciar as primeiras atrações em breve. De acordo com o Executivo municipal, o decreto vigente não prevê a liberação de peças, shows e demais espetáculos em espaços públicos como praças e parques.


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