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Estado de Minas MÚSICA

Wry desafia o conservadorismo com 'Noites infinitas'

Em seu novo álbum, banda de Sorocaba trata do sentimento de inadequação do ímpeto criativo no contexto de uma cidade interiorana


30/10/2020 04:00

O quarteto, formado na década de 90, avalia que o rock hoje pertence ao cenário underground, com as rádios dominadas pelo sertanejo. Novo trabalho do grupo chega hoje às plataformas digitais(foto: Ana Érica/Divulgação)
O quarteto, formado na década de 90, avalia que o rock hoje pertence ao cenário underground, com as rádios dominadas pelo sertanejo. Novo trabalho do grupo chega hoje às plataformas digitais (foto: Ana Érica/Divulgação)

Referência do indie rock nacional, o quarteto Wry segue resistindo ao tempo como poucas bandas formadas na década de 1990. Com cinco discos na bagagem lançados entre 1998 e 2009, a trajetória do grupo inclui uma carreira internacional (no Reino Unido) e apresentações em grandes festivais, como o Primavera Sound, na Espanha.

Apesar desse caminho notável, bastante visado por qualquer banda brasileira que queira ganhar renome lá fora, a Wry precisou retornar para sua cidade de origem, Sorocaba, no interior de São Paulo, para colocar fim a um jejum de álbuns que já atravessava 11 anos. 

Foi então em casa, num estúdio próprio, que a banda criou Noites infinitas, disponível a partir desta sexta-feira (30) nas plataformas digitais. ''Em 2014, fizemos um show em comemoração aos 20 anos do primeiro ensaio da banda. Antes de subir no palco, já estávamos preenchidos por uma energia muito boa. Ali, a gente já sabia que queria voltar de vez'', conta Mario Bross, vocalista do grupo, integrado também por Luciano Marcello (guitarra), William Leonotti (baixo) e Ítalo Ribeiro (bateria).

O caminho até a concretização do desejo não foi simples de percorrer, mas, a partir daí, a banda começou a experimentar diferentes produções por meio de singles e EPs. Para o disco, as canções foram compostas a partir de 2017.

CALMA

''Nossa grande vantagem foi poder fazer tudo num tempo diferente, com mais calma. Todo o material foi ensaiado no nosso estúdio, Deaf Haus, onde também arranjamos e gravamos as músicas'', conta o músico, que também assina a produção do trabalho.

Noites infinitas, lançado pelo selo OAR, é inspirado nos desafios que a banda enfrenta por estar em uma cidade que os músicos descrevem como conservadora. As canções exploram temas como ansiedade, desespero e caminhos não convencionais em direção à esperança em relação ao futuro.

Travel, o primeiro single do trabalho, fala sobre aceitação nesse contexto interiorano. Já Morreu a esperança, com uma contraditória melodia dançante, aborda a inadequação numa sociedade polarizada.

No último single lançado, Tumulto, barulho e confusão, o grupo continua com o ímpeto contestador que é embalado por uma sonoridade lírica. ''Que confusão/ Não se fala mais em outra coisa/ Pensava que era só questão de tempo/ Que ia melhorar'', diz um dos versos da canção.

Ao todo, o álbum traz 10 faixas que ampliam o que o quarteto tem produzido desde a segunda metade dos anos 1990. Canções marcadas pelo uso destacado das guitarras, ruídos e uma estética que dialoga com o shoegaze e o dream pop.

Ainda que o grupo mantenha o hábito de compor algumas letras em inglês, é nas canções em português que o trabalho brilha. Esse é o caso de Uma pessoa comum, faixa marcada por sons eletrônicos; Absoluta incerteza, com levada épica; e a melancólica Desculpe-me por ser assim.

''Queria ter feito todos os nossos outros trabalhos da maneira como fizemos esse. Mais velho, a gente está está mais sábio, consegue fazer as coisas pensando melhor, não escolher apenas pela emoção e sair da bolha. Sempre fomos uma banda antenada, mas hoje, mais do que nunca, queremos dialogar com essas bandas novas, estar no circuito delas'', diz Mario.

Não à toa, ele é um dos criadores e organizadores do Festival Circadélica, realizado em 2001 e 2017 – a terceira edição, de 2018, foi cancelada às pressas no dia do evento em razão da falta de um auto de vistoria do Corpo de  Bombeiros (AVCB).

''O rock não morreu. Isso é uma obsessão que as pessoas têm. Ele transgrediu, evoluiu e nunca vai morrer. No Brasil, ele aparece adaptado e hoje, diferentemente dos anos 1980, você não vê bandas de rock tocando nas rádios, que já não resistem ao monopólio do sertanejo. Então, acredito que o rock nacional hoje pertença ao underground, às bandas alternativas e autorais. São elas que o mantêm vivo'', analisa.

Para ele, em lugares conservadores, como uma cidade do interior, há muitos talentos, mas falta incentivo. ''É muito difícil conseguir o apoio, e isso agora está chegando ao restante do país, até nas metrópoles. Os artistas precisam ficar muito atentos, porque o incentivo é extremamente importante para a continuidade de uma banda. É impossível continuar sem ter apoio.''

Veterana numa cena marcada por bandas jovens, a Wry mostra que tem fôlego para o futuro. Noites infinitas consolida o trabalho do quarteto e mostra que longevidade também pode ser um atributo positivo.
(foto: REPRODUÇÃO)
(foto: REPRODUÇÃO)

Noites infinitas
• Wry
• OAR
• Disponível nas plataformas digitais


Sou forte de outro jeito

Canção que abre o disco Soltar os cavalos (2018), primeiro álbum da cantora e compositora mineira Julia Branco, Sou forte ganha nova ambiência. Originalmente curta e marcada por silêncios, a canção cresce no remix assinado pela francesa Marion Lemonnier, que chega nesta sexta-feira (30) às plataformas digitais. Em ritmo de pista, a música ganha camadas eletrônicas e uma abordagem experimental. O lançamento também é um lembrete do significado da força da letra da canção. ''Sou forte/ Sou grande/ Sou do tamanho do medo'', diz um dos versos, como uma espécie de mantra. Ares bem-vindos para uma cantora cujo trabalho é marcado pelo minimalismo na escolha dos instrumentais, que destacam seus pontos fortes: a voz e a letra.


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