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Estado de Minas

No Instagram, influenciadores incentivam hábito de leitura

Perfis dão dicas de livros que vão além das listas dos 'mais vendidos'. Entre eles, está o de Adriel Bispo, de 12 anos e 760 mil seguidores


24/08/2020 04:00

(foto: FOTOS: Instagram/Reprodução da Internet)
(foto: FOTOS: Instagram/Reprodução da Internet)
(foto: FOTOS: Instagram/Reprodução da Internet)
(foto: FOTOS: Instagram/Reprodução da Internet)
Com as limitações impostas pelo isolamento social, a leitura acabou tornando-se uma forte aliada dos chamados “quarenteners”. "Esse momento de quarentena mostrou para as pessoas como é importante aprender a estar consigo mesmo", afirma Pedro Pacífico, advogado de 27 anos, que mergulhou no mundo dos influenciadores digitais em 2017 ao criar o perfil @book.ster no Instagram.

Ao longo dos últimos cinco meses, desde que a pandemia foi decretada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), Pedro tem visto um grande crescimento em seu perfil literário na rede social, que agora já conta com mais de 260 mil seguidores. "As pessoas estão tentando desenvolver hábitos mais saudáveis e a leitura é um deles. Isso talvez seja um efeito positivo do momento tão horrível que estamos vivendo", reflete.

Quem acompanha as várias leituras que ele compartilha no Instagram todos os dias, nem imagina que esse hábito demorou para ser aprimorado. "Sempre gostei de ler desde criança, mas nunca fui um leitor tão assíduo. Ficava perdido na hora de escolher o livro, não sabia muito o que ler, não tinha referências". O depoimento de Pedro pode ser a realidade de muitas outras pessoas, que também se perdem na infinidade de possibilidades de leituras. "Acabava recorrendo sempre às listas de mais vendidos, achando que lá estariam os melhores livros", completa.

Quando descobriu a existência dos perfis literários na internet, passou a ser influenciado por eles, tanto para expandir o hábito da leitura quanto para diversificá-la. "Comecei a ler livros clássicos, que eu tinha preconceito ou medo porque achava que seriam difíceis. Percebi também a importância de escolher as leituras de forma consciente. Então, comecei a ler mais mulheres, autores negros e livros com temáticas sociais relevantes, como LGBT e saúde mental". Com o incentivo desses outros perfis, ele criou o @book.ster e passou a compartilhar as suas próprias leituras, despretensiosamente, na rede social.

CLUBE DO LIVRO 
A influenciadora digital Luisa Accorsi, de 30 anos, também intensificou as leituras durante a quarentena. Em seu perfil pessoal, são mais de 790 mil seguidores acompanhando as postagens de moda, beleza e viagens; mas, no @booksdaluli, ela encontrou um espaço totalmente dedicado para falar sobre livros: "Criei o perfil no final de 2018. Antes, compartilhava minhas leituras na época do blog, no meu Instagram pessoal e no YouTube, e percebia que as pessoas se interessavam bastante". O retorno dos seguidores, segundo Luisa, sempre foi positivo: muitos tinham interesse em saber como administrar o tempo para ler mais e incluir esse hábito na rotina. Então, ela criou o clube do livro para compartilhar suas leituras e incentivar o hábito em outras pessoas.

Durante o isolamento social, a influenciadora natural de Londrina, no Paraná, elevou a prática: "Estava com mais tempo e enxerguei como um momento de me desligar do mundo real, das notícias e tragédias". No entanto, ela conta que diversos seguidores e amigas não estavam conseguindo focar na leitura – o que é normal também. "No começo da quarentena, tive a necessidade de ler livros mais leves. Agora, procuro livros que me acrescentem, me prendam – podem ser pesados, o que for. É um momento de aprender e evoluir", conclui.

MANTRA 
Sempre ativo em seu perfil, Pedro criou uma espécie de mantra: leitura é um hábito diário. "É importante você ler algo que você goste para criar o hábito. Tenho uma rotina muito corrida, então não é que para você ser leitor, você precisa ter muito tempo. Basta um pouquinho por dia. Se você ler 10 minutos, já está ótimo", explica. Por conta do trabalho como advogado, as leituras corporativas fazem parte da rotina. Ainda assim, ele reforça a importância de separar as leituras técnicas das leituras por prazer: "É muito importante a gente pensar numa leitura descompromissada, porque será um momento de relaxamento. Por isso, digo que você precisa escolher livros que realmente tenha vontade de ler, e não só os livros que todos estão comentando".

A rotina frenética de influenciadora digital, repleta de eventos e viagens, também exige de Luisa esse controle para ter um momento dedicado à leitura: "Tem vezes que eu simplesmente não consigo ler por conta da correria e outros que eu leio mais, mas é algo que me faz tão bem que tento ler sempre". Além da vontade pessoal, o retorno dos seguidores também atua como uma forma de motivação: "Não tem nada melhor do que receber comentários como 'o livro que você indicou este mês salvou a minha quarentena e minha saúde mental'".

DESAFIO 
Tanto Luisa quanto Pedro sabem, em média, a quantidade de livros que leem por ano, mas sugerem que o leitor não fique preso a essa informação: "Isso é muito relativo, porque cada livro exige um tempo diferente, tem um número de páginas, e cada leitor tem seu ritmo. Acho importante sempre ler alguma coisa", diz o dono do perfil Book.Ster.

"Tenho gostado de indicar livros que nunca li, para ler junto com os seguidores. Não tem nada melhor do que conversar com uma pessoa que leu o mesmo livro que você", justifica Luisa. No final do mês, a influenciadora paranaense faz uma live para os mais de 50 mil seguidores da página para compartilhar as percepções e opiniões sobre o livro escolhido em seu clube do livro.

Já no desafio literário de Pedro Pacífico, as leituras seguem uma temática determinada ainda no começo do ano. Em 2019, as leituras foram pautadas por questões sociais relevantes, como racismo, feminismo e xenofobia. "A ideia é trazer a descoberta de outros autores e histórias, além de editoras menores também. Esse ano, o desafio é ler livros escritos por mulheres e cada mês tem uma classificação: terror, ficção-científica, biografia", explica.

Seguindo a proposta de apostar em autoras, Pedro fez uma postagem em seu perfil que rapidamente viralizou e inspirou outros leitores: tirou uma foto da sua estante completa e, em seguida, da estante apenas com livros escritos por mulheres. "Por mais que eu já venha buscando uma estante com mais diversidade, o resultado é bem preocupante. O que eu venho aprendendo nesses três anos de @book.ster é que o poder de transformação da leitura pode começar antes da leitura em si, isto é, pode se dar desde o momento em que eu compro ou seleciono uma obra", escreveu na legenda do post. (Estadão Conteúdo)

"Não tem nada melhor do que receber comentários como 'o livro que você indicou este mês salvou a minha quarentena e minha saúde mental'"

Luisa Accorsi, influenciadora digital, 30 anos

PONTAPÉ INICIAL 

Algumas obras indicadas pelos influenciadores 

>> A menina da montanha, de Tara Westover
>> Daisy Jones & The six, de Taylor Jenkins Reid
>> A mulher na janela, de A.J. Finn
>> Travessuras da menina má, 
de Mario Vargas Llosa
>> Eu, Tituba: Bruxa negra de Salem, 
de Maryse Condé
>> Ciranda de Pedra, 
de Lygia Fagundes Telles
>> Frankenstein, de Mary Shelley
>> Olhos d'água, de Conceição Evaristo
>> Pequeno manual antirracista, 
de Djamila Ribeiro
>> O Pequeno Príncipe, 
de Antoine de Saint-Exupéry

Adriel: 12 anos e 760 mil seguidores

"Vários seguidores já falaram que começaram a ler por minha causa e eu fico muito feliz com essas mensagens"

Adriel Bispo, estudante, 12 anos


Além dos perfis para os adultos, também há espaço no Instagram para os mais novos. Adriel Bispo, de apenas 12 anos, encontrou na rede social uma forma de compartilhar as leituras infantojuvenis que faz. "Criei o @livrosdodrii querendo espalhar mais cultura, mais leitura", explica. O jovem de Salvador, capital baiana, conta que aprendeu a ler aos  5 anos, quando participou de um concurso para ganhar uma bolsa de estudos em um colégio particular da cidade. "Depois que eu passei, minha mãe foi me incentivando cada vez mais a leitura, me empurrando mais e mais livros", recorda.

Assim como Luisa Accorsi e Pedro Pacífico, Adriel também acredita que a quarentena afetou suas leituras positivamente: "Estou lendo muitos livros, fazendo mais resenhas para o Instagram. Me vi pegando leituras de outras temáticas, como biografias ou livros antigos". As obras são compartilhadas com os mais de 760 mil seguidores no Instagram, que acompanham as publicações e encontram sugestões de leitura, em sua maioria, para o público infantojuvenil. "Vários seguidores já falaram que começaram a ler por minha causa e eu fico muito feliz com essas mensagens. Me sinto honrado por levar o hábito da leitura para muitas pessoas", comemora.

No final de maio, Adriel foi vítima de racismo. "Havia postado sobre o livro que tinha acabado de ler, sobre a leitura que faria depois, e tinha uma solicitação de mensagem. Quando abri, era essa mensagem em que ele me chamava de 'porco gordo', falou que preto era para cavar mina". Sua mãe sugeriu que ele deletasse, mas o jovem expôs a mensagem aos seus seguidores e foi inundado por palavras de apoio: "Várias pessoas mandaram mensagens de carinho, prestigiaram o trabalho que estava fazendo". O triste episódio deu ainda mais motivação para Adriel continuar com as postagens, tanto no Instagram quanto no recém-criado canal no YouTube – na rede social de vídeos, já são mais de 14 mil inscritos.

REPRESENTATIVIDADE 
Apesar da pouca idade, Adriel já faz leituras com forte representatividade racial. Para a reportagem, recomendou as obras Olhos d'água, de Conceição Evaristo, e Pequeno manual antirracista, de Djamila Ribeiro – ambas autoras negras e referências quando o assunto é o estudo de raças. Entretanto, a leitura infantojuvenil não fica de fora: "O livro que mais me marcou na vida foi O Pequeno Príncipe. Ele passa uma mensagem muito bonita sobre não querer crescer rápido, aproveitar ao máximo a sua infância. Foi o primeiro livro que minha mãe comprou pra mim, então tem um valor sentimental imenso", completa. (Estadão Conteúdo)


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