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Estado de Minas

Trilhas sonoras roubam a cena em séries de TV

Música também é 'personagem' em Boca a boca, produção da Netflix. O compositor e produtor Gui Amabis diz que buscou a 'unidade' entre as imagens e as canções


04/08/2020 04:00

São muitas as coisas que fazem de Boca a boca, da Netflix, uma série bastante interessante. Além da direção certeira de Esmir Filho, da escolha minuciosa de elenco e do tratamento estético das imagens – sem contar o senso de atualidade da história, basicamente sobre um vírus desconhecido e letal –, outra característica que salta aos olhos (ou, nesse caso, aos ouvidos) é a trilha sonora.

Isso fica bastante claro logo de cara. Na sequência que dá início ao primeiro episódio, o personagem Chico (Michel Joelsas) acorda atrasado para a escola. Depois de dispensar o despertador algumas vezes, o rapaz levanta afobado e é obrigado a ir para a aula de bicicleta, pois perdeu a carona do pai. Enquanto pedala pelas ruas da fictícia Progresso, uma canção toca. Ela só para quando o garoto tira o headphone do ouvido – o que vai se repetir ao longo dos outros cinco episódios da primeira temporada.

"Decidimos que seria um techno rural. Foi aí que entraram elementos como a viola e o berrante, colocados ao lado de sintetizadores"

Gui Amabis, compositor


LETRUX 
A música em questão é Vamos ter um causo, composta e gravada especialmente para a série pela cantora Letrux, que deve chegar às plataformas de streaming nas próximas semanas junto da playlist oficial da produção.

O contraponto é interessante. Sobre os versos tipicamente provocativos de Letrux há um instrumental eletrônico e pop. A paisagem da cena é rural, já que a série é ambientada numa cidade do interior de Goiás, imaginada como zona pecuarista.

“Para o Esmir, a música é parte muito importante da história. Quando fui convidado para produzir a trilha original, ele me passou uma série de músicas que funcionam como a playlist do Chico. A partir delas, compus os temas que ajudam a criar a atmosfera da trama”, conta o cantor e compositor paulista Gui Amabis.

Na lista, integrada por canções cujos direitos foram comprados para Boca a boca, estão artistas brasileiros, como a Trupe Chá de Boldo e o rapper Baco Exu do Blues e, em peso, músicos estrangeiros – The Knife, SOPHIE, Mary Komasa e Chromatics.

Todas as canções remetem à estética oitentista e, ao mesmo tempo, moderna. O desafio de Gui Amabis foi traduzir essa sonoridade em outras músicas, capazes de conversar com essa estética e passar para o público uma atmosfera de mistério e psicodelia.

“Tentei manter a unidade”, explica ele. “Ouvi as músicas escolhidas e decidimos que seria um techno rural. Foi aí que entraram elementos como a viola e o berrante, colocados ao lado de sintetizadores, criando um contraponto muito interessante e bem-vindo para a história. Ela trata justamente desse lugar interiorano, onde os jovens buscam uma certa liberdade, mas isso tem custos.”

É nesse contexto que surge, por exemplo, o remix da canção Boi da cara preta, no final do primeiro episódio.

“Elementos assim ajudam a construir o que a série se tornou. Não acho que a trilha sonora seja indispensável, porque existe cinema sem trilha que é maravilhoso. Mas, em Boca a boca, a trilha também conta a história. É um recurso importante, narrativamente falando”, analisa.

Além de compositor de trilhas sonoras, Gui Amabis acumula a carreira de músico iniciada em 2011 com o disco Memórias luso/africanas. De lá para cá, ele lançou Trabalhos carnívoros (2012), Ruivo em sangue (2015) e Miopia (2018), além do projeto Sambas do absurdo (2017), com Juçara Marçal e Rodrigo Campos.

CURSO 
Em todos eles, seu modo de compor já revelava um teor cinematográfico. Gui, inclusive, cursou cinema por dois anos, já pensando em trabalhar com trilhas sonoras.

“Comecei a trabalhar com trilha como estagiário no estúdio do compositor Antonio Pinto, em 2002. Tinha acabado de sair da escola de música e fui levado para o audiovisual. Lá aprendi o que era produção musical, fazendo trilha sonora”, conta.

Entre seus trabalhos estão o filme Bruna Surfistinha (2011), de Marcus Baldini, e o seriado Cidade dos homens (2002-2005), da Rede Globo.

Para ele, fazer trilhas sonoras é trabalho menos solitário do que a produção autoral. “O ofício da trilha, como envolve mais gente, é muito colaborativo, porque não se trata do fruto da criatividade de uma pessoa, mas de várias. Essa é a maior diferença. Sem contar que é um jeito interessantíssimo de contar uma história”, conclui.

INESQUECÍVEIS
(foto: Fotos: Youtube/reprodução)
(foto: Fotos: Youtube/reprodução)

STRANGER THINGS
O tema instrumental de abertura de Stranger things dialoga totalmente com a pegada da série. Composta pelo grupo norte-americano Survive (foto), capricha nos sintetizadores, que sugerem o mistério e o futurismo típicos da trama. Ambientada nos anos 1980, traz bandas daquela época – The Police, The Clash, Scorpions e Joy Division, entre outras. Destaque para o cover de Hero, de David Bowie, interpretado por Peter Gabriel, tocado em momento importante da primeira temporada.
(foto: Youtube/reprodução)
(foto: Youtube/reprodução)

GAME OF THRONES
A trilha de Game of thrones foi um marco, indicada ao Prêmio Grammy. Compostas por Ramin Djawadi (foto), as faixas em tom épico são inspiradas na sonoridade medieval. Cada cenário, família e batalha tem uma composição diferente. A melodia de abertura se tornou hit. O DJ holandês Armin Van Buuren chegou a criar o remix eletrônico dessa faixa. Versões dela em funk, forró e samba também estão disponíveis no YouTube.

BIG LITTLE LIES
Poucas séries ousaram como Big little lies no quesito trilha sonora. O repertório dialoga diretamente com a trama, começando pela abertura. Cold little heat, de Michael Kiwanuka (foto), traduz a aura da glamourizada cidade de Monterey, na Califórnia (EUA). Os versos discutem a relação de amor, mentiras e arrependimentos. Lançada em 2016, a música se tornou hit, batendo 100 milhões de plays no Spotify.

ATLANTA
Valorizando o rap e dirigida por Donald Glover (que também é o respeitado músico Childish Gambino), a série retrata os negros na cidade norte-americana de Atlanta, na Georgia. Destacam-se os artistas de hip-hop Migos (foto), OutKast, Future, Young Thug e 21 Savage, mas o repertório também inclui blues, soul e jazz.

ANOS INCRÍVEIS
Exibida de 1988 a 1993, Anos incríveis retrata a juventude de Kevin Arnold (Fred Savage) na marcante década de 1960. A trilha reúne astros de destaque naquele período, como Bob Dylan, Jimi Hendrix (foto), The Who, Rolling Stones e Steppenwolf. A abertura fica a cargo de Joe Cocker e seu célebre cover de With a little help from my friends, canção dos Beatles.

(Fred Gandra, estagiário sob supervisão da editora-assistente Ângela Faria)

A PLAYLIST DE CHICO

Na garrafa
. Trupe Chá de Boldo e Gustavo Ruiz
Pain
. Boy Harsher
Handsome killer
. Kindest Cuts
Is it medicine
. The Knife
Faceshopping
. SOPHIE
Shadow
. Chromatics
Te amo disgraça
. Baco Exu do Blues
Rain in the south
. Art Fact
Forever (SOPHIE Remix)
. Fletcher


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