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Estado de Minas MÚSICA

A DIVA ACIDENTAL

Teresa Cristina conta como se tornou rainha das 'lives' por acaso Ela queria apenas manter seu prazer de cantar durante a pandemia e acabou se tornando a diva das transmissões no Brasil, com encontros diários em que reúne estrelas da música


27/07/2020 04:00 - atualizado 27/07/2020 10:48

(foto: Washington Possato/Divulgação)
(foto: Washington Possato/Divulgação)


Quando as lives começaram a surgir nas redes sociais no contexto da suspensão dos shows em decorrência da pandemia do novo coronavírus, a sambista Teresa Cristina, conhecida como a estrela da Lapa (bairro boêmio carioca), encontrou nelas um meio de sobrevivência psicológica. Ela diz que, no início da pandemia, o medo e a ansiedade a rondavam, e, assim, percebeu que precisava de um prazer imediato. Sem poder fazer shows, viu nas lives essa oportunidade.Tudo começou de forma despretensiosa e tomou uma proporção que Teresa Cristina nem poderia imaginar. Hoje, todos os dias, ela reúne milhares de pessoas que se conectam a ela via tela do celular e acompanham um bate-papo sobre música e atualidade, regado a cantoria, uma boa cerveja e convidados ilustres.Gilberto Gil, Caetano Veloso, Alcione e Simone são apenas alguns dos grandes nomes que estiveram com Teresa Cristina. Todos eles apareceram de surpresa e muitos emocionaram a sambista, que, em algumas oportunidades, não segurou as lágrimas. É esse modo espontâneo e informal que levou o público a querer diariamente acompanhar as lives de Teresa Cristina. Na entrevista a seguir, a cantora fala sobre seu recém-lançado DVD Teresa Cristina canta Noel (Ao vivo) -  Batuque é um privilégio. A gravação foi feita no ano passado, no Rio de Janeiro, sob a direção de Caetano Veloso. No disco-tributo anterior, Teresa Cristina interpretou Cartola.
 

"Essa coisa de patrocínio, às vezes, é muito ingrata. A gente fica invisível. Eu sou invisível desde 1998. Isso fala muito de como é o Brasil. As pessoas gostam de dar dinheiro a quem já tem, não sei explicar como isso acontece, mas acontece. A quantidade de artistas, de pessoas brancas que têm uma carreira facilitada para tudo... Isso é uma coisa que a gente não fala, porque a gente está cansada de falar. A falta de apoio aos cantores de samba não é de agora"

Teresa Cristina, cantora

 
 
Como veio a ideia de usar essa plataforma e esse formato de lives com música e bate-papos?
Começou com uma preocupação séria: o medo de entrar em um quadro depressivo. As notícias começaram a ficar cada vez mais fortes e sérias. Minha mãe tem 80 anos e um grau de ansiedade muito forte. Perdi o sono. Não conseguia dormir. Absorvi notícias pesadas, aliás até hoje, né? Daí pensei: preciso fazer alguma coisa que me dê prazer imediato. Nada funcionava. Uma noite, fiquei ouvindo Dona Ivone Lara até 6h da manhã. Escutei coisas que eu achava que conhecia. Foi uma descoberta. Eu não conhecia nada. Músicas que eu nunca tinha ouvido. Todo mundo estava fazendo live, pensei: acho que vou fazer alguma coisa para falar sobre as músicas dela. No mesmo dia, algum seguidor no Twitter falou de samba de terreiro como se fosse de umbanda ou candomblé. E várias pessoas seguindo a mesma coisa. Aí comecei a explicar sobre samba de terreiro. Pensei: vou fazer uma live falando de samba de terreiro. O assunto não coube em uma live só. Já tinha começado a ocupar minha mãe fazendo (lives) aos domingos com ela, porque ela gosta de cantar também. Então comecei a fazer esporadicamente. As coisas (a pandemia) ficaram piores, as declarações do presidente ficaram ainda mais perigosas. Quando vi, estava com lives todos os dias. E percebi a minha animação ao pesquisar os temas e curiosidades que eu apresentaria à noite, trocando ideia com as pessoas.

A que atribui o sucesso das lives?
Acredito que seja por conta da espontaneidade com que trato estes momentos. Estou ali para cantar, contar histórias, me aventurar em canções que nunca pensei em colocar em algum repertório. Converso com o público, recebo amigos e artistas com quem nunca pensei em dividir um espaço. Quando Gilberto Gil apareceu, por exemplo, no dia em que fiz a releitura do álbum Realce, não segurei as lágrimas. Ele surgiu já com um violão, aqueles olhos de águia, lindo e cantando Viramundo. Escolho os temas com carinho, acredito que alcanço fãs de nomes como Tom Jobim, Elis Regina, Chico Buarque, Moraes Moreira, Cazuza, Marisa Monte e Alceu Valença, por exemplo. Bebo minha cerveja, me emociono e me divirto todas as noites. Precisamos da arte para viver. Ali é um espaço aberto para os amantes da música.

Você tem recebido muitos convidados de peso. Você busca as pessoas ou elas te procuram?
Alguns convidados, como a Alice Caymmi e a Mônica Salmaso, por exemplo, eu combino antes. Alice fez o que intitulei de “Batalha das Cantoras” na homenagem que fiz à obra de Dorival e Nana Caymmi. Eu canto, ela canta e assim seguimos. Com a Mônica, já dividi o repertório do Chico Buarque. Mas, no geral, me surpreendo com a chegada de grandes nomes que admiro e aparecem nos comentários. Foi assim com Alcione, Simone, Alceu Valença, Maria Gadu, Gilberto Gil, Zélia Duncan, Caetano Veloso, Léo Jaime, entre outros. Eu convido na hora que vejo essas pessoas presentes ali. Elas topam se quiserem. E ninguém é obrigado a cantar. Só de participar e bater um papo, já me deixa feliz.

Fala-se muito da live como uma alternativa, mas sabe-se que o patrocínio não chega para todos os artistas e todos os gêneros. Como você enxerga esse mercado e como é possível furar essa bolha?
Essa coisa de patrocínio, às vezes, é muito ingrata. A gente fica invisível. Eu sou invisível desde 1998. Isso fala muito de como é o Brasil. As pessoas gostam de dar dinheiro a quem já tem, não sei explicar como isso acontece, mas acontece. A quantidade de artistas, de pessoas brancas que têm uma carreira facilitada para tudo... Isso é uma coisa que a gente não fala, porque a gente está cansada de falar. A falta de apoio aos cantores de samba não é de agora. A pandemia jogou uma lente de aumento em várias situações. Tivemos de passar por isso para entender que não é toda a população que tem água encanada, luz, tratamento de esgoto. As pessoas vivem em condições precárias. Quando começamos a falar sobre usar o álcool em gel, por exemplo, esqueceram que tem pessoas que nem água têm em casa. Os cantores de samba, em sua maioria, salvo algumas exceções, sempre tiveram cachês mais baixos. A relação com os contratantes sempre foi na base do “tudo tá bom”. Nunca precisou de um som incrível, uma grande produção. Isso é um reflexo do que sempre aconteceu.

Como tem sido a quarentena para você?
A gente não sabe de nada nessa quarentena. Só o que eu sei é que vou continuar fazendo minhas lives. Moro com minha mãe, Hilda, de 80 anos e minha filha de 11 anos, Lorena. Tenho meus afazeres domésticos e divido o dia entre essas tarefas e a elaboração das apresentações baseadas em temas que me vêm à cabeça. Dedico várias horas por dia a pesquisar e montar repertórios.

Vivemos há alguns anos num ambiente que ataca muito a arte e a cultura, que têm se mostrado essenciais no período da quarentena. Acha que a cultura sairá mais forte dessa pandemia?
A arte vai continuar sendo vitoriosa e sai mais forte dessa pandemia, pois ela sempre sobrevive. Ela teve força, base, história e sobreviveu contra o nazismo, o fascismo. Essa pandemia veio para mostrar isso. O que tem segurado a gente é a arte.

Musicalmente falando, você tem aproveitado o momento para projetos novos?
A ideia era ter lançado no primeiro trimestre o DVD Teresa canta Noel - Batuque é um privilégio. Com a pandemia, foi adiado. Os planos mudaram. No entanto, nos últimos quatro meses, as lives começaram a acontecer e entendemos que seria um bom momento para mostrar este trabalho tão lindo e que me fez tão feliz. A direção do Caetano Veloso é primorosa e a obra de Noel, irretocável. Nada melhor que usar este momento para, enfim, apresentar um trabalho inédito.

Como acha que será o novo normal na cultura e, mais especificamente, no samba?
Confesso que não gosto muito da expressão “novo normal”. Não consigo me adaptar muito a ela, até porque todas as vezes em que a ouço, penso que as pessoas acham “normal” termos mais de 80 mil mortos. Isso não é normal. Não estamos em um momento normal e não quero achar que isso é normal. Não consigo fazer nenhuma projeção, pois não sabemos se vai aparecer alguma vacina, se vamos voltar com os shows. A minha mente bloqueia. A pandemia me colocou presa em um dia. Então, em um dia eu tenho só o plano de terminar o meu dia. Não consigo projetar para a frente. Talvez seja uma incapacidade minha neste momento.

Muito tem se falado também sobre o racismo, com os movimentos antirracistas nos EUA e no mundo. Você acredita que agora o Brasil discutirá mesmo a questão do racismo?
Alguma coisa já mudou. Estamos falando de racismo nos meses de maio, junho, julho. Antes este assunto só era colocado em pauta no mês da Consciência Negra (celebrado em novembro). No Brasil, as coisas costumam chegar bem depois de acontecerem nos EUA. O que aconteceu com George Floyd (morto numa abordagem policial em Mineapolis) é o cotidiano das favelas e comunidades e a nossa reação não é a mesma. Essa discussão precisa avançar e ter uma velocidade de ação um pouco diferente do que tem acontecido até agora. 
 
Lives diárias, às 22h, no Instagram 
(@teresacristinaoficial). Aos domingos, 
clássicos do samba cantados ao lado da 
mãe, às 15h, no YouTube (/teresacristinaoficial).
 


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