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Estado de Minas

'I may destroy you' se junta a 'Fleabag' no pódio das séries inglesas

Escrita, dirigida e protagonizada por Michaela Coel, a produção em cartaz na HBO consegue imprimir o tom de comédia numa história escrita a partir de uma experiência de abuso sexual


postado em 16/07/2020 04:00 / atualizado em 15/07/2020 22:56

Michaela Coel recusou proposta da Netflix de comprar a série por US$ 1 milhão, porque a plataforma não concordou em lhe destinar 5% dos direitos autorais(foto: Fotos: HBO/Divulgação)
Michaela Coel recusou proposta da Netflix de comprar a série por US$ 1 milhão, porque a plataforma não concordou em lhe destinar 5% dos direitos autorais (foto: Fotos: HBO/Divulgação)
Para quem acompanha a produção de TV britânica, Michaela Coel não é exatamente uma novidade. Desde que começou a se tornar conhecida do grande público, a atriz e roteirista esteve na terceira e quarta temporadas de Black mirror; fez uma participação em Star wars: Os últimos Jedi (2017); foi jurada da primeira edição britânica de Drag race (2019) e estrelou a série dramática Black earth rising (2018), da BBC, e o filme Been so long (2018), da Netflix.

Antes disso, Michaela já havia chamado a atenção com a série Chewing gum, que ela escreveu e dirigiu e pela qual ganhou o prêmio Bafta de melhor atriz em série de comédia. Numa madrugada em que redigia o roteiro da segunda e última temporada da sitcom (disponível no Brasil pela Netflix), ela passou por um dos maiores traumas de sua vida. Ao dar uma pausa no trabalho, foi até um bar encontrar um amigo. Por lá, não se lembra quando ou como, foi vítima de um “boa noite, Cinderella” e só acordou na manhã seguinte, em casa, caída em frente ao notebook.

Daí em diante, começou a ter flashbacks da noitada e se deu conta de que tinha sido abusada sexualmente por um grupo de desconhecidos. A escrita - aliada à terapia - foi a maneira que Michaela encontrou para sobreviver ao trauma, como comprova sua nova série, I may destroy you, atualmente no ar pela HBO.

LIVRO 

A produção, que chegou ao Brasil sem muito alarde no último dia 15 de junho e já está no quinto episódio, conta a história de Arabella Essiuedu (Michaela Coel), uma escritora que se tornou fenômeno de popularidade nas redes sociais. Enquanto escreve seu segundo livro, ela decide dar uma pausa no trabalho e vai a uma balada com um amigo. A certa altura da noite, ela é drogada e abusada sexualmente.

Entre flashes de memória, Arabella vê a imagem de um homem desconhecido sobre ela em um banheiro. Uma lembrança que, a cada vez que surge em sua consciência, lhe traz um sentimento de angústia e violação.

Confusa e sem saber direito o que ocorreu, a escritora tenta entender e processar a experiência por que passou. Essa busca faz as emoções de Arabella oscilarem de forma desconexa, revelando os sentimentos inquietos de alguém ferido com um grande choque.

O tema do abuso sexual, inclusive, vai além da protagonista. Seus amigos Terry (Weruche Opia) e Kwame (Paapa Essiedu) também passam por situações bastante problemáticas. Ao entrelaçar essas histórias, a produção tematiza a violência sexual em outros contextos, mostrando como essas experiências transformam a relação de uma pessoa com outros indivíduos e com ela mesma.

Dessa forma, os 12 episódios (de 30 minutos cada um) funcionam como peças de um quebra-cabeça. As lembranças vão surgindo em pedaços, e o público acompanha com Arabella cada etapa do processo de uma vítima de abuso sexual.

Criada, produzida, protagonizada e codirigida por Michaela, I may destroy you é o tipo de série que coloca o dedo na ferida até o ponto de deixar o espectador desconcertado. O roteiro extremamente atual, as excelentes atuações e a trilha sonora contagiante fazem da produção uma forte candidata ao pódio das séries neste 2020.

Seu grande trunfo - e o que pode equiparar Michaela Coel a Phoebe Waller-Bridge, criadora da excelente Fleabag, da Amazon Prime - é o humor ácido e sarcástico para abordar um tema tão sério quanto perturbador.

Ao longo da temporada, o roteiro traz passagens hilárias, como a de uma dança sexy de Arabella, que tem de ser interrompida quando ela se dá conta de que está menstruada. Ou quando, em outro momento, pressionada pelo prazo de entrega de seu livro, a personagem se vê desesperada procurando no Google técnicas para escrever mais rápido.

Ela consegue fazer isso sem deixar o público se levar somente pelo lado do humor das cenas, provocando uma pontinha de remorso em quem acaba rindo demais. A série também faz as vezes de comédia de costumes, ao retratar Arabella como uma millenial obcecada com as redes sociais.

Desleixada e atenta, procrastinadora e talentosa, antenada e desligada, a personagem é uma representação interessante da geração que não se vê sem um smartphone na mão. Ainda assim, ela também usa essa temática para mostrar como essas mesmas pessoas não estão completamente sem propósito quanto outras produções fizeram parecer.
Outra prova de que Michaela Coel está bastante antenada nos assuntos da ordem do dia é a maneira como ela batalhou para ter em mãos as rédeas criativas de I may destroy you. Antes de emplacar a série na HBO, ela recusou um contrato de US$ 1 milhão com a Netflix, porque a plataforma se negou a ceder 5% dos direitos autorais.

Em entrevista à revista Vulture, a atriz, roteirista e diretora disse que tentou negociar com “um executivo de nível sênior da plataforma, mas houve apenas silêncio no telefone”.

Agora, a gigante do streaming provavelmente se arrepende de não ter lutado mais pela série, e ainda nem começou a temporada de premiações...

HUMOR INGLÊS

Confira outras séries que abordam temas sérios com o característico sarcasmo dos britânicos

(foto: Amazon Prime/Divulgação)
(foto: Amazon Prime/Divulgação)
FLEABAG
Phoebe Waller-Bridge concebeu a comédia perfeita para a geração atual. Com duas temporadas, a série original da Amazon jamais tentou abordar temas políticos ou sociais. Muito pelo contrário, ela olha para o próprio umbigo da protagonista, uma jovem com uma vida nada perfeita, encarando problemas e romances de modo trôpego e, indiretamente, acaba falando de amor, família, religião e dor de uma maneira singular.
 
(foto: Channel 4/Divulgação)
(foto: Channel 4/Divulgação)
WANDERLUST - NAVEGAR É PRECISO
Estrelada por Toni Collete, Wanderlust é uma pérola escondida na Netflix. Apesar de ser australiana, a atriz incorpora aqui a terapeuta britânica Joy que, ao lado de seu marido Alan (Steven Mackintosh), decide abrir o casamento para relações extraconjugais. Além de uma série de cenas picantes, a produção também entrega uma discussão para lá de interessante sobre relacionamento, ciúmes e os limites da monogamia. Destaque para o quinto episódio, no qual, ao longo de 55 minutos, a protagonista enfrenta seus demônios na terapia.

(foto: Netflix/Divulgação)
(foto: Netflix/Divulgação)
FEEL GOOD
Opção para os fãs de séries curtas, Feel good é uma comédia que discute a capacidade de autoconhecimento e de controle dos impulsos destrutivos. Produção original da Netflix, ela apresenta a comediante Mae Martin interpretando uma versão de si mesma viciada em situações complicadas. Canadense morando em Londres, ela é uma personagem muito intensa, seja em seus relacionamentos amorosos ou na forma  como tenta controlar sua dependência em drogas.
 
>> CRASHING
Escrita por Phoebe Waller-Bridge anteriormente a Fleabag e agora disponível na Netflix, Crashing mostra um grupo de pessoas que se conhecem num antigo hospital cujos quartos agora são alugados a preços populares, o que atrai jovens adultos que procuram um lugar barato para morar. A arquitetura do espaço acaba com a privacidade deles e gera relações bastante desajustadas e situações bizarras. Um ótimo comentário sobre a especulação imobiliária em Londres, além de também servir como metáfora das relações humanas nos dias atuais.

I MAY DESTROY YOU
A série, em 12 episódios, estreou no 
dia 15 de junho na HBO. Episódios inéditos 
vão ao ar às segundas-feiras, às 23h30. 
Após a exibição no canal a cabo, os episódios ficam disponíveis na HBO GO.


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