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Estado de Minas ARTES CÊNICAS

Grupo Galpão aposta que o teatro de rua se fortalecerá no pós-pandemia

Enquanto isso, trupe mineira prepara %u2018Histórias de confinamento%u2019 e o lançamento do documentário %u2018Éramos em bando%u2019, sobre o processo de criação da peça inédita %u2018Quer ver escuta%u2019


postado em 12/07/2020 04:00 / atualizado em 11/07/2020 21:51

Os integrantes do Grupo Galpão Inês Peixoto e Eduardo Moreira em seu apartamento, no bairro São Pedro, em Belo Horizonte, onde cumprem a quarentena(foto: ALEXANDRE GUZANSHE/EM/D.A PRESS)
Os integrantes do Grupo Galpão Inês Peixoto e Eduardo Moreira em seu apartamento, no bairro São Pedro, em Belo Horizonte, onde cumprem a quarentena (foto: ALEXANDRE GUZANSHE/EM/D.A PRESS)

"Continuo achando que só é teatro se tiver ao menos um ator e uma pessoa em um encontro presencial. O resto todo que estamos tentando fazer são híbridos. Não é TV, não é teatro, não é cinema, é tudo uma mistura. Tentamos criaruma linguagem e pode ser que ela encontre uma poética"

Inês Peixoto, atriz

Quatrocentos e setenta e oito relatos sobre a quarentena. É em cima desse material, que totaliza quase mil páginas, que os atores do Grupo Galpão trabalham neste momento, cada um diretamente de sua casa.

O chamamento público realizado entre maio e junho passados, pedindo que pessoas de todo o país enviassem textos – verídicos ou fictícios, de qualquer gênero – sobre o isolamento social vai redundar no projeto Histórias de confinamento.

Como esse material será apresentado é algo que nem os próprios atores sabem. Começaram nos últimos dias, após as leituras, a se reunir virtualmente para discutir o projeto. Por ora, é assim que o trabalho de um grupo de teatro é possível. “É um material muito sofrido, mas os textos também mostram uma necessidade incorrigível de nutrir esperança”, comenta o ator e diretor Eduardo Moreira.

Desde o início do isolamento, os integrantes do Galpão vêm se encontrando via plataformas de teleconferência para definir possíveis trabalhos neste período. Pego de surpresa (como todos) com a pandemia do novo coronavírus, o grupo teve que cancelar todas as apresentações previstas para este ano. 

A principal delas seria a estreia do inédito Quer ver escuta. A première estava prevista para o dia 3 de abril, no Festival de Teatro de Curitiba. Montagem dirigida por Marcelo Castro e Vinícius Souza, baseada em poemas de autores contemporâneos, como Angélica Freitas, Ana Martins Marques e Paulo Henriques Britto, tinha temporadas confirmadas em São Paulo e Belo Horizonte. Os ensaios, na reta final, foram interrompidos em 17 de março.

Além desse novo espetáculo, o grupo estava remontando Till, A saga de um herói torto (2009) para apresentá-lo numa turnê pelo interior de Minas. Tudo, obviamente, está em suspenso. Mas o Galpão, seja de que maneira for, tem que continuar ativo.

Foi com essa certeza que os atores passaram a imaginar projetos possíveis durante o período de isolamento. Enquanto pensava nos próximos passos, o grupo disponibilizou em seu canal no YouTube apresentações históricas, como a de Romeu e Julieta em Londres. 

Foram também criadas iniciativas específicas para redes sociais. Em Pausa pro café, por exemplo, Eduardo Moreira conta casos da trajetória do grupo no Instagram. Júlio Maciel idealizou o Conversa com o Galpão, série de entrevistas com profissionais das artes cênicas (diretores, cenógrafos, atores) que já trabalharam com o grupo. O projeto, sempre com uma dupla de integrantes como entrevistadores, já foi gravado, mas ainda não tem previsão de estreia. 

PROXIMIDADE

 Já Inês Peixoto teve a ideia de Histórias de confinamento. “Achei que com este projeto poderíamos manter a proximidade com o público. Fizemos algo semelhante em Pequenos milagres (2007, montagem criada a partir de quatro histórias selecionadas entre 600 que o grupo havia recebido). Os relatos trazem uma gama grande de situações, pois hoje tem gente que está convivendo demais (com o outro) e gente convivendo de menos. Já estamos com algumas ideias de como trabalhar o formato, pois temos que ver quais os relatos nos dão possibilidade de cena, sozinhos ou em dupla.”

A intenção é de que o projeto venha a público também de forma on-line e nos próximos meses. “Tenho a intuição, quase convicção, de que quando isso (a pandemia) passar, ninguém vai querer ouvir falar de confinamento por algum tempo. As pessoas vão querer ser livres, se abraçar, se encontrar, para esquecer. Mas as coisas estão tão incertas e não sabemos se vamos ter que conviver com isto a médio ou a longo prazo”, afirma Moreira.

Neste momento, o que é certo é que o Galpão estreia até o fim de julho o média-metragem Éramos em bando. Assim que os ensaios de Quer ver escuta pararam, os atores continuaram a se encontrar virtualmente para discutir como a montagem do 25º. espetáculo do grupo poderia continuar. No meio do caminho, houve o convite da Fundação Municipal de Cultura para que o grupo fizesse alguma ação para ser apresentada no canal da instituição.

O Galpão passou então a gravar os ensaios. Convidou o realizador Pablo Lobato para editar o material, que virou um filme de pouco mais de 50 minutos. O título, Éramos em bando, deriva do poema Crepuscular, de Paulo Henriques Britto. 

O texto poético diz que “nosso tempo é pouco, que toda palavra já foi dita e há que ser dita outra vez”. O material exposto no filme revela o diálogo com a dificuldade e a possibilidade de se criar no meio digital, mostrando a batalha dos artistas para continuar trabalhando.

Dirigido por Lobato em parceria com Castro e Souza, o documentário teve oito sessões de pré-estreia em junho. No momento, o grupo estuda em que plataforma estrear oficialmente o filme. “Ele é meio que nossa tentativa de existir como criadores no espaço virtual”, diz Inês.

“A gente está intuindo que, infelizmente, o segundo semestre vai estar bastante comprometido, a não ser que aconteça algo muito especial”, acrescenta a atriz. A agenda de espetáculos feitos para o primeiro semestre não existe mais. “Parou tudo, mas nada (a estreia de Quer ver escuta e a excursão de Till) está descartado. Estamos paralisados.”

Para Inês, o teatro só existe presencialmente. “Continuo achando que só é teatro se tiver ao menos um ator e uma pessoa em um encontro presencial. O resto todo que estamos tentando fazer são híbridos. Não é TV, não é teatro, não é cinema, é tudo uma mistura. Tentamos criar uma linguagem e pode ser que ela encontre uma poética.”

ESSÊNCIA 

Independentemente do resultado e do eventual retorno que os projetos virtuais tragam, a essência do fazer teatral não vai mudar. “Talvez o teatro de rua seja impulsionado, pois, num primeiro momento, essa será a maneira de o teatro acontecer com mais pessoas no palco”, observa Inês, fazendo referência a experiências que têm havido de monólogos em teatros em Portugal.

“É um retorno estranho, com duas cadeiras entre cada espectador e todo o mundo usando máscara. Tem que ver não só o desejo dos artistas, mas também o do público, de ficar numa sala fechada.”

Ainda que o teatro de rua seja algo mais factível no pós-pandemia, Inês não acredita no retorno das apresentações de artes cênicas ainda neste semestre. “Talvez no ano que vem, pois a situação é muito séria e não temos preparo sanitário. Agora, acho que, quando voltar, o teatro será do jeito que é. A essência do teatro, que é a presença, esta é insubstituível.”


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