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Estado de Minas

Engajamento reconhecido


postado em 07/07/2020 04:00

A brasileira Lia Rodrigues se tornou personalidade coreográfica do ano, premiada pela Associação Francesa de Críticos (foto: Henrique Lima/Divulgação %u2013 15/6/15)
A brasileira Lia Rodrigues se tornou personalidade coreográfica do ano, premiada pela Associação Francesa de Críticos (foto: Henrique Lima/Divulgação %u2013 15/6/15)
Em meio à pandemia, a Associação Francesa de Críticos (Association de la Critique de Tréâtre, Musique et Danse) decidiu atribuir um dos seus prêmios mais cobiçados, o de Personalidade Coreográfica do Ano, para a brasileira Lia Rodrigues e o indiano Akram Khan. "O engajamento deles, um no dever da memória, outro no drama das favelas brasileiras, ilustra o quão sensível a arte coreográfica é ao escutar os murmúrios do mundo" – esses foram os critérios anunciados.

A Cia de Danças Lia Rodrigues está fazendo 30 anos. O ato de nomear uma companhia fundada em 1990, usando a palavra dança no plural, já indicava alguma coisa importante a ser observada. A necessidade de estampar esse plural no seu nome ajuda a entender por que, em 2003, Lia passa a trabalhar no conjunto de favelas do Complexo da Maré, no Rio de Janeiro, e a companhia, nesse ambiente, agrega outros modos de fazer dança. Ela explica: "Eu não consigo separar o que a gente vive no cotidiano de lá do que vai para cena. Não me sinto obrigada a falar ‘sobre os problemas da Maré’. A criação é um lugar de liberdade e está implicada nos assuntos do nosso dia a dia, e é assim que as obras se organizam".

Em parceria com a Redes da Maré, instituição que desenvolve um trabalho de construção de cidadania, Lia Rodrigues criou, em 2007, o Centro de Artes da Maré, que se tornou sede da compa- nhia, mas nunca existiu apenas como um espaço para seus ensaios. Foi onde nasceu e funciona a Escola Livre de Dança do Centro de Artes, que educa 300 alunos entre 8 e 80 anos. Em sintonia permanente com as necessidades da Maré, e não somente as demandas artísticas, o chão de dança desse espaço está coberto por alimentos. "Temos um Centro de Artes que, hoje, integra a campanha ‘Maré diz não ao coronavírus’, e se tornou o maior local de distribuição de cestas básicas na Maré. O espaço serve à população. Para nós, a capacidade de se organizar assim, em um momento de pandemia, também é criação", conta Lia.

'MURMÚRIOS DO MUNDO' 

O 2019 foi um ano e tanto para a companhia. Seu último trabalho, Fúria (2019), depois da estreia na Maré, circulou com sucesso pelo Brasil e vários países da Europa. A força de Fúria foi justamente trazer as camadas de precariedade do ambiente do complexo de favelas, no qual muitos dos direitos básicos são negados, com uma potência de criação e de poesia desses corpos. Não por acaso, são esses os "murmúrios do mundo" que são anunciados como o critério da sua premiação. Um rumor contínuo, que vai pactuando as formulações coreográficas de Lia Rodrigues. Ao estrear Fúria, Lia afirmou que a obra é autoantropofágica, porque une todas as suas outras criações. Sendo assim, pode-se entender que esse prêmio de personalidade coreográfica do ano se estende como reconhecimento da sua trajetória artística.

"Sinto que meu trabalho é reconhecido como artista e ‘artivista’. A gente ativa a arte no campo estético, mas no campo social e político também", explica ela, sobre o modo como recebeu a notícia do prêmio – um reconhecimento que se liga à possibilidade de sobrevivência da companhia e dos projetos do Centro de Artes, na Maré. "No Brasil, as artes não têm o apoio de que necessitam. Em alguns momentos, essa falta já foi menor, ou pior, mas nunca existiu uma política específica. Meu trabalho, hoje, é reconhecido em alguns países da Europa, nos quais existe uma rede de coprodução e de valorização das artes vivas de uma maneira significativa. O prêmio fortalece essa posição e ajuda nesse reconhecimento." (Estadão Conteúdo)



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