Publicidade

Estado de Minas LANÇAMENTO

Banda Tarda canta o mundo como ele é, sem lirismos

Grupo mineiro une a música com performance, artes visuais e fotografia em letras de um universo em pedaços


postado em 08/06/2020 04:00 / atualizado em 08/06/2020 09:31

Proposta da banda Tarda é apresentar de tudo um pouco: estilo multimidiático passeia do rock experimental ao lo-fi(foto: Randolpho Lamonier/divulgação)
Proposta da banda Tarda é apresentar de tudo um pouco: estilo multimidiático passeia do rock experimental ao lo-fi (foto: Randolpho Lamonier/divulgação)

Ainda que tenha poucas canções lançadas – mais precisamente três –, a banda multimídia Tarda já pode ser considerada uma das promessas da cena autoral mineira em 2020. Formado pelos artistas visuais Júlia Baumfeld, Paola Rodrigues, Randolpho Lamonier, Sara Não Tem Nome e Victor Galvão, o grupo é representante de uma geração inquieta que usa diferentes suportes e plataformas para dizer o que pensa.

O encontro nasceu na vontade de Sara e Victor, ambos formados pela Escola de Belas Artes da UFMG, de colocar em prática a ideia de um coletivo artístico indefinido, misturando música, performance, audiovisual e fotografia. Num primeiro momento, a dupla convidou Júlia e Paola, que também têm formação em artes visuais. Última aquisição do grupo e único não músico, Randolpho atua como artista visual em mídias distintas, como vídeo, fotografia, desenho e instalação.

''No geral, todo mundo faz de tudo um pouco'', explica Sara. ''Como no começo da banda todo mundo morava em BH, nós estávamos mais próximos. Então, era mais fácil encontrar. Agora, está cada um em um canto: eu e Júlia continuamos em BH, Victor e Paola em São Paulo, e Randolpho em Paris. Como tudo desde que a pandemia começou, nossos encontros agora são on-line.''

As duas músicas para anunciar o projeto, Ninguém por enquanto e Veluda, chegaram ao mundo em setembro de 2018. A primeira, um rock experimental que cita Fernando Pessoa, é cantada por Sara. Já a segunda é um spoken word assinado por Paola.

''Esses dois primeiros singles foram feitos em estúdio, no EAEO, em São Paulo. Depois deles, a gente descobriu que queria abordar uma estética mais caseira, lo-fi, que a gente conseguiu trabalhando no home studio aqui de casa'', conta Sara.

E foi nesse lugar que a banda gravou sua nova e mais recente música, Breath, lançada em 25 de maio, disponível para audição no Bandcamp e no YouTube.

Ainda que pareça estar em consonância demais com a pandemia do novo coronavírus, a letra, escrita por Sara, nasceu em 2017, quando a ideia de um vírus letal assolando o mundo todo era remota.

''Ela surgiu num momento em que eu enfrentava uma depressão muito severa e o significado dela está muito atrelado a isso'', explica. ''Sempre que procuramos o que fazer nesses momentos, na internet mesmo, é comum encontrar dicas que falam em manter determinado ritmo de respiração, fazer exercícios desse tipo. Nesses momentos, às vezes é difícil até respirar, se manter vivo. Então, a princípio, é sobre isso. Mas como ela chega agora, ela ganha um significado maior quando associada ao coronavírus e ao assassinato de George Floyd, asfixiado por um policial nos Estados Unidos. Estamos diante de uma realidade chocante.''

Gravada em dezembro de 2019, a música constrói uma ambiência soturna e minimalista e os instrumentos embalam três versos simples, cantados em inglês. O videoclipe, lançado junto com a canção, foi gravado remotamente por cada integrante e mostra um pouco da vida deles durante a quarentena.


SINGLE

À exceção de Veluda, as outras duas músicas integrarão o autointitulado disco de estreia da banda, previsto para agosto. Antes disso, eles lançam o single Buraco, ainda sem data de estreia.

Tarda, cujo nome nasceu porque seus integrantes acreditam que esse trabalho se relaciona com a noite, mostra que ainda tem muito a dizer sobre o tempo que vivemos.

''Muita gente vê o nosso discurso como pessimista'', analisa Sara. ''Somos de uma geração que nasceu nos anos 1990 e encara a desilusão de viver num mundo em decadência, diante dos limites da sociedade, da falência desse sistema econômico. As pessoas estão muito acostumadas com a ideia de que a arte precisa ser bela e agradável. Em partes, eu concordo com isso, mas também acredito que ela possa ser crítica e ter um poder de cura e transformação. O que não necessariamente se dá pelo prazer, mas pelo incômodo.''

A julgar por aí, a banda está, sim, mais do que afinada com o projeto que propõe. E isso é o que a torna fundamental.


TARDA


receba nossa newsletter

Comece o dia com as notícias selecionadas pelo nosso editor

Cadastro realizado com sucesso!

*Para comentar, faça seu login ou assine

Publicidade