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Estado de Minas

Historiadoras analisam o novo momento da história do Brasil

Heloísa Starling e Regina Helena, professoras da UFMG, comentam a recente mobilização nas redes sociais e nas ruas em defesa da democracia e da igualdade racial


postado em 07/06/2020 04:00 / atualizado em 06/06/2020 23:20

Manifestante usa máscara com o símbolo do movimento Antifa, marca que viralizou nas redes sociais (foto: Nelson Almeida/AFP)
Manifestante usa máscara com o símbolo do movimento Antifa, marca que viralizou nas redes sociais (foto: Nelson Almeida/AFP)
Neste domingo (7), a partir das 11h, a Praça da Bandeira, no Bairro das Mangabeiras, Região Centro-Sul de Belo Horizonte, deverá receber manifestantes para um “ato democrático antirracista e antifascista”, como descreve o convite que roda as redes sociais nos últimos dias. À tarde, grupos ligados à sociedade civil, alguns ligados a torcidas organizadas, planejam descer a Avenida Afonso Pena em direção à Praça Sete para um encontro com o movimento Vidas Negras Importam.

A movimentação, prevista também em outras cidades, ecoa o que vem ocorrendo nas últimas semanas no Brasil e no mundo. Em nosso país, manifestos de representantes da sociedade civil, suprapartidários, unem lados outrora opostos em defesa da democracia e contra o governo federal.

Os desafetos Lobão e Caetano Veloso, para citar o exemplo mais claro, estão entre os milhares de signatários do Movimento Estamos Juntos. Em sua primeira semana (ao lado de iniciativas semelhantes, como Somos 70% e Basta), a ação colocou lado a lado artistas, atletas, profissionais liberais, juristas, políticos, celebridades e anônimos.

Ao redor do mundo, o assassinato de George Floyd, negro que morreu sufocado por um policial branco na cidade norte-americana de Minneapolis, provocou reação em massa em diversos países. Protestos contra o racismo ganharam as ruas e as redes sociais. Bey- oncé e Rihanna, entre outras estrelas da música, denunciaram a intolerância racial, enquanto gravadoras fizeram greve, na terça-feira, em solidariedade aos manifestantes. Isso tudo vem ocorrendo a despeito da pandemia do coronavírus, que colocou o Brasil como novo epicentro da crise sanitária.

Afinal, há algo de novo nesta crescente onda de insatisfação? “A quantidade de crises juntas, da maneira como está o projeto de corrosão por dentro das instituições democráticas, é algo inédito na história do Brasil”, atesta Heloísa Starling, professora de história da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

A autora do livro República e democracia: Impasses do Brasil contemporâneo lembra que está longe de ser a primeira vez em que se ameaça o regime democrático no país. “A diferença é que o processo é outro, pois a destruição está sendo de dentro das instituições. Além disso, a conjunção de crises – política, econômica, sanitária, instabilidade institucional – é inédita. Agora só falta uma crise social.”

Para Heloísa, é positivo ver a sociedade civil se mobilizando por meio de manifestos, “tentando conversar fora de seu campo ideológico”. Mas isso é apenas um começo, adverte. “Se der certo, vai chegar a uma frente ampla o suficiente para a defesa da democracia, e isso não tem nada a ver com partido político e eleição.”

(foto: Fernando Rabelo/divulgação)
(foto: Fernando Rabelo/divulgação)

"Qual é a eficácia da ação? Sugiro que as pessoas pensem sobre isso. Elas têm de transformar palavras em ação. Se as redes conseguirem isso, ótimo. Se não, o que se está fazendo não passa de brincadeira"

Heloísa Starling, historiadora



EFICÁCIA 

A semana foi marcada por postagens de brasileiros nas redes sociais com o símbolo do movimento Antifa (antifascista), nascido entre os anos 1920 e 1930, durante a ascensão da extrema-direita na Alemanha e na Itália. O ativismo virtual é positivo, na visão da historiadora. “Qualquer forma de as pessoas defenderem seus direitos, a democracia e a liberdade é legítima. Agora, qual é a eficácia da ação? Sugiro que as pessoas pensem sobre isso. Elas têm de transformar palavras em ação. Se as redes conseguirem isso, ótimo. Se não, o que se está  fazendo não passa de brincadeira.”

A rua é uma questão diferente, observa Heloísa. “Tem o movimento de setores da sociedade que estão disputando as ruas com o pessoal da direita. Mas há grupos organizados cuja motivação não é clara”, diz a professora, referindo-se a um provável retorno dos black blocs.

“O que vi, principalmente em Curitiba (no início da semana), me disse algumas coisas sobre 2013. Os black blocs apareceram naquela época quebrando tudo e depois sumiram. Agora, vimos o pessoal quebrando vidraça (na capital paranaense, houve depredação de prédios públicos e particulares, incluindo o Tribunal de Justiça). Não sei o que é isso, mas é o pior que se pode fazer.”

Integrante do Departamento de História da UFMG, a professora Regina Helena observa a atual situação brasileira com um ar de déjà vu. “Governos autoritários republicanos nós já tivemos, como também uma associação com os militares. E o que acontece quase sempre no Brasil é o agravamento das condições das desigualdades sociais. As classes populares sempre perderam. Não é que esses elementos se repetem, eles são estruturantes da nossa sociedade.”

"As formas como a gente fala, se expõe e debate, antes eram controladas. Agora, não"

Regina Helena, historiadora



Pandemia  

Para ela, a situação só vem se complicando com a pandemia. “Mais que agravou, parece que é sem solução, pois temos um governo sem o menor controle, que parece apostar na morte.” Na opinião de Regina Helena, o medo é a reação primária. “Há o medo de um autoritarismo grave, ditatorial, como também o medo de as coisas mudarem, deixando de ser como sempre foram. E ainda o medo da doença, de que tudo exploda mais aqui do que em outros lugares.” Por outro lado, observa, assiste-se ao movimento de organização e solidariedade, “infinitamente maiores nas favelas e entre os pobres do que na classe média”.

De acordo com ela, a visibilidade é a novidade não apenas deste momento, mas de outras manifestações ocorridas no século 21. “As formas como a gente fala, se expõe e debate, antes eram controladas. Agora, não.” No entanto, o resto permanece igual, observa Regina Helena.

“Vejo manifesto, hashtag, várias ações conclamando as pessoas a estarem juntas e unidas contra um inimigo maior. Mas este é o histórico do Brasil. O inimigo maior pode ser o comunismo, um elemento externo que veio nos atacar, ou o racismo. O que está acontecendo é parte constitutiva de nós. Então, usamos as armas de sempre, a conciliação. Mas a conciliação pelo alto”, diz ela, exemplificando com o movimento das Diretas Já, na década de 1980, visto como referência para os manifestos atuais.

“No início, houve participação das torcidas, por exemplo. Mas depois o que houve foi um imenso arranjo, com decepção e tristeza. O que hoje vem sendo denunciado é o resultado dos arranjos das Diretas”, finaliza.

DOCUMENTÁRIOS

NOS EUA

(foto: History/divulgação)
(foto: History/divulgação)
O canal pago History exibe neste domingo (7), às 17h35, o especial 1992: Los Angeles em chamas (foto). O documentário acompanha os quatro dias que sucederam ao espancamento, por policiais, do motorista negro Rodney King. Em decorrência, a cidade viveu quatro dias de revolta e violência.

NO BRASIL

 
(foto: Tamandua/divulgação)
(foto: Tamandua/divulgação)
O documentário Democracia em preto e branco, de Pedro Asbeg, acompanha o movimento Democracia Corinthiana, que nos anos 1980 engajou a torcida do time paulista na campanha das Diretas Já por meio da participação ativa de jogadores como Sócrates (foto) e Casagrande. O filme estará disponível gratuitamente neste domingo na plataforma de streaming tamadua.tv.br.


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